1/04/2009

Dicionário dos dias imperfeitos


As quadras festivas que agora se esfumam como o borralho da lareira são para mim um período de intenso fragor etílico, entre tintos, vapores escoceses e murganheiras repimpantes, uma orgia insana de comes e bebes a testar os limites da resistência do fígado, devorado todos os dias como Prometeu acorrentado a uma garrafa de Bushmills.

A cabeça, órgão inútil neste tempo, a não ser para suportar os efeitos da ressaca, cede a batuta ao fígado. Agora, sob influência dos Gurosans retemperadores, devolvo lentamente ao cérebro o seu tímido ascendente e penso sobre o futuro, essa curiosidade angustiosa que se impõe sempre que um ano novo se instala no calendário.
Como sou incapaz de pensamento e projecção além do curto prazo consulto as profecias do sapateiro do Trancoso, o Bandarra, sobre o Quinto Império, o regresso de D. Sebastião e o destino de Portugal. Qualquer um dos temas é encantador e desafiante para o génio especulativo e charlatão do Professor Marcelo, mas não para mim que tento cultivar com ócio a profundidade do superficial.

Mas, confesso que futuramente gostaria de ser futurologista, DJ psicadélico e ter um bar de praia com tostas e bebidas exóticas. Ser futurologista é um dos empregos mais seguros do mundo a seguir a ex-ministro, segundo oficial no Ministério das Finanças, juiz desbraguilhador ou papa. Uma das coisas boas de ser futurologista é em si mesmo uma espécie de infalibilidade papal, pois não é um ofício passível de ser avaliado ou escrutinado, e nesse aspecto percebo o sentimento de injustiça e desigualdade que assola os professores, autênticos mártires do avaliacionismo.
Se eu disser que Marte vai ser a nova Las Vegas interplanetária em 2035, que os Delfins vão tocar em Wembley em 2018 ou que Gonçalo M Tavares vai ser prémio Nobel em 2045 ninguém me vai levar a mal, especialmente se os fundamentos causídicos de tal especulação forem sustentados em premissas alegadamente científicas.
Esse é o único problema do ofício de profeta, é o ter que criar uma teoria verosímil aos olhos dos homens de hoje. Basta consultar exercícios de futurologia dos finais do séx. XIX para perceber que apenas Verne e Da Vinci, em produção ficcionista pura, se aproximaram do futuro, tudo o resto são, hoje, patacoadas hilariantes.
Tão hilariantes como as comunicações ao país do nosso Presidente da República, criador de um novo género na escola profética - a futurologia retroactiva. Este ano lembrou-se de que o mundo rural está a morrer e que assim o interior ficará despovoado. Acontece que esta profecia é válida a partir da década de 80 do século passado, época em que a reverencial pitonisa da nação podia ter feito alguma coisa sobre o assunto e nada fez.
Acertar no totobola à quarta-feira também eu!
Mas, em Belém, temos obviamente o que merecemos, e não são os pastéis.
No género mais clássico e respeitável do adivinhanço, recordo um francês do final do séc XIX que previu que no futuro os passeios das cidades teriam de ter mais de um metro de altura porque com o previsível aumento do tráfego de carroças e coches, as estradas estariam pavimentadas com esterco de animais.
Acertou na componente merdosa da equação (hoje é poluição e cócó de cão) mas esqueceu-se de uma variável importante – a invenção do automóvel.
Como não estou particularmente interessado em futurologia escatológica e me sinto um porno-esteticista sem rumo, vou agora ver a “Guerra das Estrela”, o único futuro com que me importo, e deixo-vos com a única razão para ter interrompido o meu exílio etílico; ou seja este excerto do Dicionário Imperfeito de Agustina Bessa-Luís, ideal para estes dias imperfeitos e para a Babilónia de falsos profetas e ufanos idiotas que é a internet.
Um bom ano, para quem o merecer.

“Debaixo da bandeira da igualdade, todo o insensato e o pequeno porno-esteticista tem uma palavra a dizer. A sabedoria, fatalmente em conselho de raros, está reduzida a uma alínea gasta e intraduzível. A tela gigantesca dos nossos costumes admite tudo com essa leviandade triunfal a que se chama liberdade de expressão e coisas assim. Os profetas começam a mover-se. Descem dos morros, ligeiramente inseguros e, no entanto, contaminados duma certeza violenta: a de que a Babilónia principia a ceder, e o fragor da sua trepidação em busca de um novo centro de gravidade se ouve.”

2 comentários:

Rochelle disse...

Faz o favor de voltar a escrever que me está a fazer falta!

Anónimo disse...

heil! apoiado! a etilidade desenvergonhada faz falta na blogosfera