8/03/2007

Ventoinhas da Victoria Secret

O que me fazia falta neste Verão era uma ventoinha destas, para refrescar.

8/02/2007

Problemas da literatura - O teorema de Gogol

Como descrever um nariz, eis um problema que se coloca imediatamente a qualquer aspirante a pintor que queira reproduzir um nariz humano, ou a um jovem escritor que considere a importância fundamental da forma de um nariz para ilustrar o carácter de um seu personagem.
Um nariz aquilino, aduncado, impertinente?
Estes são chavões óbvios para a anatomia da penca.
Um autor titubeante pode fazer ruir todo o seu vasto projecto literário no momento decisivo em que se propõe a descrever um nariz. Homero, homem prudente, escusava-se a meter o nariz em tamanha epopeia e, é por isso que o calcanhar de Aquiles passou à posteridade, mas não o seu nariz.
Muitos traiçoeiros e expeditos autores passaram séculos na história da literatura a colocar verrugas em narizes de personagens asquerosas e vis, para evitar ter de os descrever, e assim sendo, o nariz foi passando à clandestinidade e ao ostracismo literário, enquanto, por exemplo, os lábios, viveram o esplendor pleno e carnudo da poesia e dos beijos.
Se meter o nariz em qualquer biblioteca que se preze verá que o nariz apenas serve para assoar ruidosamente como um trombone, para o meter onde não se é achado nem chamado, ou então para ser brutalmente esmurrado. Nada mais.
Nem sequer tem as possibilidades literárias das orelhas, que se podem mordiscar, lamber, cortar como troféu de rapina ou como desvario de Van Gogh.
Mas o nariz não serve literariamente para nada, a não ser para atrapalhar ou meter berlindes e ervilhas lá dentro.
Até porque a respiração das personagens se faz através do fôlego estilístico dos autores.
Mas o verdadeiro génio literário é o que vence o estigma do nariz. É por isso que Pinóquio e Cyrano de Bergerac são personagens que devolveram o orgulho aos nossos narizes, mas ainda assim pelas suas características grotescas e hiperbólicas.
A dignidade do nariz na literatura apenas foi defendida por Gogol, que lhe deu carta de alforria e emancipação. Deu-lhe vida própria, quando o nariz do funcionário Kovalev se evadiu de seu dono para frequentar os Salões de S. Petersburgo e fazer fulgurante carreira nos negócios públicos. O Teorema de Gogol é um valioso legado para a literatura (: - ) Quando se tem problemas em descrever um nariz, o melhor é dar-lhe vida própria.
Ou então meter um berlinde dos grandes na narina mais à mão.

Problemas da literatura - A voz de Mr. Jonesy

Hoje voltei a ouvir a voz de Mr.Jonesy. Uma voz gutural, lúgubre, cavernosa merecedora de outros adjectivos que agora não me ocorrem, para qualificar a tonalidade e a textura da voz deste personagem. Estas são as qualificações literárias óbvias e banais. Mas, atrever-me-ia, na minha condição de leigo vocal, a dizer que a voz de Mr. Jonesy é polifónica. É capaz de ser maviosa e mafiosa, sincopada e balbuciante, impertinente e timorata, melífula e veemente, pusilânime e galvanizada, sibilina e tonitruante.
Não quero dizer com isto que Mr. Jonesy seja ventríloquo ou sofra de mutações de humor próprias de um político populista ou de uma criança mimada.
Significa unicamente que Mr. Jonesy tem possibilidades vocais tão vastas como o reportório de um pianista documentado. As possibilidades vocais de Mr. Jonesy são aliás proporcionais aos recursos vocabulares e etimológicos de um dicionário, no que respeita a qualificativos habituais da voz humana. Mas, se tivermos o atrevimento de romper a barreira do som, então as tonalidades e possibilidades vocais de Mr. Jonesy são tão ilimitadas como os adjectivos que dispomos para descrever sobrancelhas (arqueadas, rectilíneas, farfalhudas, bem delineadas, etc).
Bem vistas as coisas, Mr. Jonesy pode facilmente ter uma voz sardónica, sarapintada, aquosa, mineral, incandescente, telúrica, ornamental, acidental, facinorosa, vaporosa, fungicida, pestilenta (consequência de uma halitose), acocorada e até suína, uivante, piscícula ou equídea (relinchando ou orneando).
Os atributos vocais de Mr. Jonesy ficam assim discricionariamente ao critério do autor, consciente de que a verosimilhança da qualidade vocal de Mr. Jonesy é possível, porque na realidade, cada voz é uma espécie de impressão digital única, singular de cada ser humano, e por isso será possível encontrar no mundo real alguém que tenha uma voz ululante ou esponjosa.

Confortado com este facto, o autor dá por isso voz a Mr. Jonesy, provável personagem do seu primeiro romance. O único e devastador problema com a voz de Mr. Jonesy é ele não ter nada para dizer.

7/26/2007

Cáries e biclas

"Em Portugal "é quase um acto suicida vir para a rua de bicicleta", devido à falta de protecção deste meio de transporte, considerado pelas autoridades "um veículo marginal", segundo o presidente da Federação Portuguesa de Ciclistas e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB)."
Sic online

Como da entrevista do Sócrates a única coisa que vi foi um diagnóstico dentário ao país - que há menos cáries em Portugal-, penso que a minha actualidade fica de facto marcada por esta notícia.
Em Portugal anda-se pouco de bicicleta, o que não significa que não nos dopemos alegremente, como um ciclista do Tour de France.

Valsa de punhais

Um cantante cordiale que prevaleceu sobre todas as outras valsas em Viena. Há dez mulheres bonitas em Belgrado, há um hotel de janelas fechadas. Uma árvore com frutos de pó. Uma manhã congelada numa galeria de candelabros que se agitam ao som das valsas lilases, nos salões intriguistas de Viena, onde um leque é um punhal dilacerante

Reportagem V7 - Hot Club Portugal

“A música de jazz é uma inquietação acelerada.”
In “um certo sorriso” de Françoise Sagan





No nº38 da Praça da Alegria, em Lisboa o Jazz é quem mais ordena. Ao descer as escadinhas para a subcave, entramos no mais emblemático Clube de Jazz nacional. O Hot Club Portugal, a servir Jazz desde 1949



“Around midnight”, o filme de Bertand Tavernier, com Dale Turner no papel de um Dexter Gordon em espiral de decadência em Paris, sugere aquela que é provavelmente a melhor hora para descer as escadinhas do nº 38 da Praça da Alegria e entrar no santuário e praça-forte do Jazz em Portugal – o Hot Clube Portugal.
Como naquelas velhas casas de bebidas em Inglaterra, estilo Smithson food & drinks Since 1831, o Hot Clube Portugal pode orgulhar-se de servir jazz a Portugal “since” 1949.
A sua atmosfera parece segredar-nos isso mesmo, porque mais do que um simples bar, o Hot Club é a casa amiga do jazz em Portugal. Apesar de ser uma instituição quase vetusta, o ambiente informal e descontraído cria o espaço de eleição para o convívio de várias gerações de amantes de Jazz e de músicos - os mágicos do improviso, que ali deram os primeiros passos, tocaram os primeiros acordes e trilharam a estrada do jazz.
Mas quando se desce a claustrofóbica escada de acesso à subcave mais famosa da noite lisboeta, estamos também a descer às raízes de uma música com mais de um século, que se propagou da América negra ao mundo inteiro, como uma pandemia de ritmo e improviso.
No palco, os Wisful Thinking (ver caixa), um quinteto recém-criado que explora novos territórios do Jazz, são os herdeiros longínquos dos primeiros jazzman de New Orleans, que no início do séc. XX abriam o caminho para uma das mais marcantes e influentes formas de expressão musical contemporâneas. Sob a névoa de fumo que se agita com o solo de saxofonista dos Wishful Thinking, o Jazz parece dizer – “O que eu andei para aqui chegar”.

De New Orleans para o mundo
O Jazz é um mutante com ritmo, costumava dizer Miles Davis, um dos génios que marcou uma das muitas rupturas na linguagem daquela forma de expressão musical ao longo do Séc. XX.
Com efeito a história do Jazz reflecte essa excitante transfiguração que foi sofrendo, criando inúmeros movimentos que influenciaram e foram decisivamente influenciados pela história social e cultural do Séc. XX. “Não seria a música uma linguagem perdida, da qual esquecemos o sentido e conservamos apenas a harmonia”, interrogava-se o autor italiano Massimo Azeglio, e o Jazz parece ser na harmonia e no ritmo a “corporização” dessa ideia de Babel original.
Cronologicamente, o Jazz nasceu no período entre 1890 e 1910 em Nova Orleans, as suas raízes têm um forte cunho africano, já que remontam à música dos negros e criolos dos EUA e dos tempos da escravatura negra. Enquanto trabalhavam, os escravos entoavam cânticos de sofrimento e subtil contestação, os blues e o Ragtime, que são a árvore genealógica do Jazz. O termo “Jazz” começa a ser usado nos finais da década de 20 para descrever um tipo de música muito popular em Nova Orleans e em Chicago, e cujos expoentes principais são originalmente identificados como músicos de Jazz – A Dixieland Band, Nicky de La Rocca, o pianista Jelly Roll Morton, o clarinetista Sidney Bechet são alguns dos nomes que se podem elencar nesta vaga de pioneiros que deram o tiro de partida, para uma expressão musical que se tornou um fenómeno de enorme popularidade na América dos Anos 30, graças ao swing das Big Band`s como as de Duke Ellington, Bob Calloway e Earl Hines.
A evolução do Jazz, à semelhança das artes plásticas e da música clássica, seguia vários caminhos e tendências; muitas vezes opostas e contraditórias, como aconteceu com a clivagem ocorrida entre o bebop dos anos 40 e o cool jazz dos anos 50 – o confronto entre um Jazz mais popular e mainstream e um Jazz mais intelectual.
Depois, acompanhando o tempo de irreverência e inconformismo que marcou a década de 60, foi a vez de Miles Davids e uma nova geração de músicos rebentarem com os espartilhos do Jazz e liderarem a revolução do Free Jazz, uma das mais influentes na sua história. De qualquer forma, tal como os anéis de um tronco de uma árvore revelam a sua história e a marca da sua identidade, percorrer a história do Jazz é também uma viagem ao empolgante, dramático, mas imensamente estimulante Séc. XX.

Aqui há Jazz!
Inicialmente, o Hot Clube de Portugal era apenas um pequeno clube de amigos que se juntava para ouvir uns discos, beber uns copos e discutir Jazz, explica um dos “clubistas” de primeira hora que assistiu ao nascimento em 1949 do Hot, fundado por Luís Villas-Boas, o principal impulsionador da ideia, e que foi conjuntamente com alguns amigos um dos “pais-fundadores” daquele Clube.
Naquele tempo o Jazz era uma expressão musical reservada a uma pequena elite, mas o Clube acabou por ser um dos grandes meios de divulgação do jazz em Portugal. Ao longo das décadas passaram pelo palco da subcave do 38 da Praça da Alegria, alguns dos grandes nomes da cena Jazz internacional que marcaram e influenciaram duas gerações de músicos de jazz que “cresceram” no Hot Clube.
É essa mística de clube de culto que ainda hoje se respira naquele espaço, onde o jazz continua a dar a primeira nota. Durante toda a semana, o palco está aberto para Jam Sessions, onde os músicos podem improvisar em formações improváveis.
Sextas e sábados são dias de concertos, com algumas das mais influentes formações nacionais, compostas quase na totalidade por músicos formados na Escola do Hot Clube Portugal. Muitos deles dão aulas naquela instituição e integram a Big Band do Hot, um dos mais requisitados colectivos do Jazz nacional, que é presença assídua nos inúmeros festivais de Jazz que se vão propagando pelo país inteiro.
Com uma plateia interessada e interessante, que varia entre o aficcionado conhecedor e o turista curioso, entre o músico profissional e o universitário, o Hot Clube é um espaço muito eclético, onde é possível estar calmamente em silêncio a beber um bom vinho com Jazz ao vivo, ou então nas noites quentes de Verão, em animadas tertúlias na encantadora esplanada interior.
Porque no nº 38, o Jazz é mesmo uma alegria.

(Caixa1)
Escola do Hot ClubTalento e técnica

“O improviso é uma inspiração que de nada serve sem técnica”, afiança José Marrucho, jovem baterista que está a terminar a sua formação técnica na Escola do Hot Clube Portugal.
“No nosso país a escola do Hot é a única alternativa credível a uma formação clássica, e por isso, acaba por estar muito mais vocacionada para o mercado de trabalho”, explica o baterista que se prepara para dar os primeiros concertos ao vivo com um quarteto formado inteiramente por colegas de turma.
Fundada há 14 anos a única escola de Jazz do país é responsável pela formação da quase totalidade da nova vaga nacional de músicos de jazz e também de uma série de outros intérpretes que integram as formações orquestrais e algumas das bandas mais relevantes da música portuguesa nas suas diversas formas de expressão – do pop ao rock, passando pela música ligeira e mesmo pelo fado, a Escola do Hot é um viveiro de talentos. Nomes como Maria João ou o pianista Bernardo Sassetti são apenas alguns dos mais famosos músicos que deram os seus primeiros passos no Hot e que mantêm com aquela instituição e com o bar “uma ligação afectiva muito forte. É como se fosse uma grande família espalhada pelo mundo, que de vez em quando se encontra aqui em casa”, explica Bernardo Sassetti, frequentador assíduo da “casa nostra” do jazz lisboeta.
Actualmente com mais de uma centena de alunos a Escola funciona num espaço cedido pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, junto à FIL, que é no entanto precário e exíguo para as necessidades pedagógicas da escola. O sonho antigo dos sócios do Hot Clube é terem o bar e a escola no nº 38 da Praça da Alegria, o que permitiria à escola crescer e avançar com alguns projectos em carteira, como a abertura da vertente MIDI e música electrónica (cada vez mais importante), a criação de um Centro de Documentação e ainda de um Museu do Jazz, reunindo o espólio de vários sócios, com destaque para a colecção riquíssima de um dos seus pais-fundadores – Luís Villas Boas.
Enquanto esses sonhos não se concretizam, a Escola do Hot vai continuar a dar todos os anos à música portuguesa uma nova “fornada” de cantores jazz, pianistas, bateristas, contrabaixistas, guitarristas saxofonistas, trompetistas e um sem fim de novos talentos.

(Caixa2)
Wishful Thinking - Humor e ritmo

No palco cubicular do Hot Clube, os Wishful Thinking improvisam sobre o seu primeiro trabalho que deve ser lançado em Setembro com a chancela da Clean Feed Records.
Dois concertos no Hot Clube marcam o arranque de um programa mais completo que vai levar este quinteto ao Goethe Institute, ao CCB e ao Teatro Bernardino Ribeiro em Estremoz.
Alípio Neto, o saxofonista brasileiro radicado em Portugal acredita que o Hot Clube é mesmo a casa do Jazz em Portugal, quer pelo passado, quer pela atmosfera e mística que transmite, sendo por isso o melhor local para lançar as sementes de um novo projecto na cena jazz nacional – os Wishful Thinking, liderados pelo saxofonista pernambucano e pelo experiente e exuberante pianista Alex Maguire, e que integra ainda o trompetista Johannes Krieger, o baixista Ricardo Freitas e o baterista Rui Gonçalves.
No palco do Hot Clube os Wishful Thinking passaram pelo exigente crivo de um público conhecedor e entusiasta que se rendeu às composições do quinteto e à sua fogosa presença em palco, fazendo de um concerto de jazz uma autêntica performance de humor e ritmo. Alípio Neto define o jazz dos Wishful Thinking como um trabalho de composição original “não fazendo cedências a tendências mais mainstream. Apesar de ser um ensemble, portanto um colectivo, não anulamos as individualidades e damos liberdade ao improviso de cada um dos instrumentistas, que pode explorar as suas potencialidades.” O objectivo deste quinteto é transcender os limites que se colocam ao jazz clássico e explorar novos territórios da improvisação e estética contemporânea”.
A materialização desta filosofia é um jazz inconformado que gera imediata empatia mesmo nos seus momentos mais introspectivos.

Deus é um sniper

Contribuição para o VídeoScreening de João Bento & friends, para guardar aqui no baú do V7, a título de arquivo impessoal


“Uma bala, uma morte”
Lema dos Snipers

@ Ao que parece Descartes cometeu um erro. Não foi com certeza o primeiro.
Talvez o primeiro erro fosse o da criação.
Deus aborrecia-se de morte com as mariquices e patarequices dos anjos, e um dia, depois de beber cognac com o seu velho comparsa Jezebel, o príncipe chifrudo, decidiram de conluio inventar uma traquinice para mútuo gáudio – uma apostilha de cavalheiros. No primeiro dia nasceu o homem.
Este foi o erro da criação.
Mas a criação é como um pomar de macieiras, com aquilo a que os cabalistas podiam chamar os paradoxos da maçã.
Há quem faça tartes, há quem faça cosmogonia.
Todos os homens têm na goela, atravessado um bocado de maçã.
Trincaram a maçã errada - a do pecado, que Eva colheu distraidamente por sugestão desinteresseira da cobra sibilina.
O erro foi pago caro com o pecado original, que nem seria coisa grave, não fosse a cruz da expiação que todos carregamos desde aquela dentada infrutífera.
O cristianismo é produto de um erro programado por Deus para problematizar a sua grande comédia humana. Jesus Cristo cometeu um erro quando confiou em Judas, e quando acreditou na salvação:
– Meu pai, porque me abandonas?

Pobre crédulo, morreu crucificado sem saber o que lhe tinha acontecido.
Foi mais um títere nas mãos de um Deus com inclinação para a dramaturgia, um Shakespeare todo-poderoso, que nos engendrou como personagens de uma grande e divina comédia.
Na mitologia clássica, variação do mito perene à tradição ocidental, Prometeu moldou-nos em barro e foi acorrentado para ver o seu fígado devorado e renascido todos os dias. Foi por idêntica razão que Pandora destapou a caixa dos seus males e das suas doenças mudas, e lá ficou apenas com a esperança eternamente refém de um pote de azeitonas do Monte Parnaso.
Mais tarde, Céline, escritor anatemizado da França ufana, disse sobre a esperança:
- Ter esperança é acreditar que um dia a merda cheire bem.

Esta foi a máxima de um pessimismo dadaísta, dos herdeiros de Pandora.
É um erro pensar que o pessimismo é uma desistência, uma impotência mundana.
O pessimismo sabe que o erro é a terra de onde floresceu o mistério da criação.
O erro é a nossa condenação eterna, o nosso suplício de Tântalo.

»Usurários de Mac usar a maçã para imprimir

@ Tântalo, primitivo pai de mortais, rei da Lídia e da Frigia, onde era venerado.
Vivia em estreito contacto com os deuses, participava nos seus banquetes, e quis substitui-los preparando ele próprio um banquete para os deuses. Sacrificou o que de melhor podia dar: ofereceu aos seus convidados a carne do seu filho Pélops.
Os deuses abstiveram-se todos de comer o alimento sacrílego; só Deméter, distraída, provou um ombro. Reia recompôs num renascimento simbólico as partes do rapaz, substituindo o ombro que faltava por um de marfim.
Outra variante do mito, mais conforme com a alegoria da transmissão da culpa, atribui outros pecados a Tântalo, entre os quais o de ter querido provar o néctar e a ambrósia (o alimento dos deuses) para revelar aos homens o segredo dos imortais.
Tântalo foi castigado por desejar demasiado. Mergulhado até ao queixo num lago no reino dos mortos, a água recuava quando ele queria beber (acontece-me isso quando bebo uísques a mais – one too many, the story of my live); tinha pendurado por cima da cabeça frutos inatingíveis.
A culpa pelos sacrilégios cometido por Tântalo transmitiu-se aos seus descendentes, os Pelopidas e os Atridas, forçados pela sua índole a cometer acções negativas e erradas, expiando as consequências.
O conceito de transmissão de culpa encontra-se também na tradição bíblica do pecado original. Neste caso, porém, a culpa é alargada a todos os homens, filhos de um único casal primordial: Adão e Eva. A Igreja Católica sempre foi megalómana.

O erro primordial é incorrigível, porque representa o fardo da nossa culpa.
Na mitologia clássica, deuses, homens e heróis cometiam erros deliberadamente programados por uma entidade superior, para serem severamente punidos, construindo assim o exemplo do erro punível.
A maldição do erro é o caminho que se oferece à raça humana para percorrer, numa errância eterna em busca da felicidade integral, o caminho do Santo Graal de um paganismo medievalista, ou o caminho da Salvação na mirabolante e fantasista estrada dogmática da Igreja Católica Apostólica Romana, que tem ganha-pão no erro humano e na culpa, os dois negócios mais chorudos do Vaticano.
A missão pastoral da Igreja é a redenção, ou seja a correcção do erro primordial da criação – a geração em pecado original – oferecendo a Via Sacra da fé como caminho de sentido obrigatório para um Paraíso nas Caraíbas com anjos de biquini a tocarem ukelele e a servirem daiquiris gelados, longe dos rigores furibundos da fornalha do Diabo e das suas diabretes dominatrixes com chicote a estalar e botim de salto alto e pontiagudo, para calcar as nádegas hereges.
Os dogmas da fé são a garantia da imunologia ao erro, são uma espécie de DIUP apostólico que impede a Santa Igreja de emprenhar com o erro.
O mito da infalibilidade Papal é o único sistema filosófico imune ao erro, que não o admite, é por isso bactereologicamente puro, como só a mentira sabe ser pura.
Deus é mesmo um pândego.

»Usurários de Mac usar a maçã para imprimir

@ Combater o erro ou fazer do erro o dínamo principal da aprendizagem é uma ilusão imposta de auto-determinação. É um a arrogância de Tântalo, um desejo de néctar e ambrósia. Aprender com o erro e a capacidade de memorizar o erro para o passar a futuras gerações foram as ferramentas que Deus deu à humanidade para traçar a sua rota, o seu caminho numa eterna errância. Essa é mais uma terrível ironia, acreditar que fazemos, que determinamos o nosso caminho a partir das escolhas.
Mas as escolhas são condicionadas como uma ementa de um restaurante de peixe à lacarte. A vida efémera de um ser humano é uma escravatura da escolha, da opção, e da espada de Dâmocles que pende sobre o nosso crânio – o medo de errar.
O caminho está traçado, delimitado, nós limitamo-nos a percorrê-lo como títeres iludidos, como Jesus foi, ludibriado.
Errar é por isso definitivamente humano, eternamente humano, demasiadamente humano.

A mação de Adão está lá para nos engasgar, é por isso que eu acredito num Deus, brincalhão e com um sentido do humor pouco acessível a nós comuns mortais, constantes vítimas das suas partidinhas de mau gosto.
Vítimas logo a partir do momento do pecado da concepção, até que soltámos o primeiro vagido, nascendo como frutos bastardos de Adão, carregando o pecado original até sofrermos a banhoca baptismal que apascenta e apazigua a humanidade do erro original da criação.
A maçã, a fruta que simboliza o “errare humanum est”.
O mesmo fruto que inadvertidamente caiu na tola de Newton enquanto este batia uma soneca.
Imaginem que a maçã errava o alvo do calvo?
Que caía ali ao lado, e o preguiçoso continuava a ressonar baixinho.
Imaginem que se a maçã errasse o alvo não haveria Física, não haveria astronautas em bailados lentos no espaço ao som de milonga da gravidade.
Imaginem, se a maçã falhasse. Não haveria bomba atómica, nem crianças com um olho e sem nariz em Nagasaki.
Se a maçã errasse a careca de Newton o mundo seria provavelmente muito diferente.
É por isso que a maçã não podia errar o alvo. Aquela maçã, padroeira da física quântica mostrou que a levitação e a força gravitacional dos corpos celestes é um caminho para a humanidade.
Deus raramente erra, tem de facto uma pontaria comparável à de Guilherme Tell, que foi obrigado a disparar uma seta para uma maçã que era um alvo na cabeça do seu filho. Tell não podia falhar, da mesma forma que a maçã de Newton também não.
Da mesma forma que um sniper em Dubrovnick sabia o valor do projéctil e do lema “uma bala , uma morte”. Da mesma forma que Lee Oswald espalhou o crânio de Kenedy num descapotável em Dallas.
Porque a precisão do erro faz parte desta Divina Comédia chamada Humanidade e se Deus existe, ele é um sniper com sentido de humor.

»Usurários de Mac usar a maçã para imprimir







II - Pastiche



“Os demónios do Mundo mascam chiclete e não comem alhos nem cebolas!”


Curitiba – O árbitro gaúcho Carlos Eugénio Simon admitiu que errou ao não marcar um penalti a favor do Coritiba na derrota por 2 a 1 para o Goiás. O árbitro não assinalou uma penalidade sofrida pelo atacante Alexandre ainda no primeiro tempo.
O jogador recebeu um lançamento e foi derrubado pelo goleiro Harlei dentro da área. Alexandre admitiu que foi conversar com Simon e o árbitro admitiu o erro.- Ele é um ser humano, tem direito de errar e me pediu desculpas no intervalo. Ele falou que estava com a visão encoberta e não tinha a certeza do lance, afirmou Alexandre.
Ao examinarmos os erros de um homem, conhecemos o seu carácter.
Os erros e as dúvidas da inteligência desaparecem mais depressa, sem deixar rasto, que os erros do coração; desaparecem não tanto em consequência de discussões e polémicas como graças à lógica iniludível dos acontecimentos da vida viva, que às vezes trazem consigo o verdadeiro escape e mostram o caminho adequado, senão logo, na primeira altura, num prazo relativamente breve, em certas ocasiões, sem haver necessidade de se esperar pela geração seguinte. Com os erros do coração o mesmo não sucede. O erro do coração é de maior monta; significa que o espírito frequentemente, o espírito de toda a nação, está doente, sofre de qualquer contágio e não poucas vezes essa enfermidade, esse contacto, implicam tal grau de cegueira, que toda a nação se torna incurável... por mais tentativas que se façam para a salvar. Pelo contrário, essa cegueira desfigura os factos a seu talante, deforma-os segundo as delirantes visões do espírito doente e até pode suceder que toda a nação prefira ir para a ruína conscientemente, quer dizer, conhecendo já a sua cegueira, a deixar-se curar... pois já não quer que a curem.Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas.


Os homens são hoje muito diferentes dos chimpanzés porque há 150 mil anos um gene, presente no cromossoma X, enviou uma cópia para o Y. Foi um acontecimento único que permitiu a especiação - ou seja, que o ramo humano se separasse, na cadeia evolutiva, dos chimpanzés, com os quais partilham 99% de informação genética. Assim terá nascido a linguagem e assim somos hoje capazes de raciocinar, comunicar e recorrer a representações simbólicas.

2 - Ausência do conceito do sobrenatural e, correlativamente, de toda menção do paraíso3- Ausência de um estudo específico sobre o inferno, que se menciona só uma vez, levemente (cf. Lumen Gentium, art. 58 [no espanhol e no francês, 48])4-Ausência de qualquer menção do dogma da transubstanciação na definição da santa missa exposta no artigo 47 da SC. Esta ausência repete-se por exemplo, no art. 106 da mesma constituição e em outros lugares (cf. infra, 30)
Cientistas da Universidade de Northumbria, na Grã-Bretanha descobriram que o hábito de mascar chicletes melhora a memória. O teste foi feito em dois grupos onde a metade mascava chiclete e os outros mascavam chicletes imaginários.
Após vinte e cinco minutos de testes, vários deles, foram feitas perguntas aos dois grupos. O primeiro grupo teve a freqüência cardíaca aumentada duas vezes e lembraram mais palavras que o segundo grupo.
Os cientistas da pesquisa, entre eles Andrew Scholey acreditam que o aumento da freqüência cardíaca melhora o oxigênio do cérebro e as funções cognitivas.
Para António Damásio o grande erro de Descartes foi exatamente a separação mente e corpo, e que isto atrasou toda a ciência na área de Neuroanatomia, Neurobilogia e Neuroquímica.
Conclui ainda que acha péssimo tirar o espírito de seu pedestal em lugar não localizável. Mas finaliza sua teoria sabiamente dizendo que ninguém sabe ainda a origem das idéias.
Os cientistas tentaram desvendar o mistério do pensamento através da análise do cérebro de um grande gênio da humanidade, Albert Einstein.
Após seu falecimento o cérebro do grande mestre da Física foi analisado e a única diferença entre a maioria dos cérebros comuns é que de Einsten tinha uma área vazia, não explicada, maior que dos outros.

De notar que este período assistiu à criação da doutrina da infalibilidade do papa, que não se consegue encontrar no Decretum gratiani, em São Tomás de Aquino ou nas palavras dos papas canonistas dos séculos XII e XIII. A doutrina foi propagada por um franciscano excêntrico, de nome Petrus Olivi, que fora acusado de heresia devido à sua associação com as opiniões apocalípticas de Joaquim de Fiore.


No programa Globo Repórter, da Rede Globo de Televisão, levado ao ar dia 19/07/2002, monges que herdaram de seus ancestrais hábitos milenares, costumes sagrados de mestres indianos, revelam que dois ingredientes são proibidos no seu cardápio: o alho e a cebola, pois eles agitam a mente e por isso atrapalham a prática da meditação.
A resposta para o fenómeno milenar dos monges é a seguinte:
O pensamento está fora da área corporal.
A energia é que provoca no universo, todos os movimentos.
A energia, já sabemos, viaja sempre de onde há maior quantidade para onde há menor quantidade.
Ao ingerir alho e cebola, que nascem e vivem sob a terra, como as formigas e que por isso tem muito pouca energia, provocam uma aceleração do movimento da energia que está fora do corpo para o seu interior, aumentando a velocidade dos pensamentos ou agitando, como os próprios monges dizem.
A condenação do erro é essencial para a preservação do depósito da fé (que constitui o primeiro dever do Pontífice), pois confirma a fortiori a sã doutrina, demonstrando sua eficácia com uma aplicação concreta. Além disso, a condenação do erro é necessária desde o ponto de vista pastoral, porque sustenta os fiéis, tanto os cultos quanto os menos cultos, com a autoridade inigualável do magistério, com a qual passam a contar para defender-se do erro, cuja “lógica” é sempre mais astuta e mais sutil do que a deles. E não e só isso: a condenação do erro pode induzir o que erra a refletir, colocando-o frente à verdadeira substância de seu próprio pensamento. Como sempre se repetiu, a condenação do erro é obre misericordiosa ex sese.Sustentar que esta condenação já não tem mais razão de ser, por um lado, dá impulso a uma concepção mutilada do magistério da Igreja, por outro, substitui o diálogo com o homem que erra, (que a Igreja sempre procurou) pelo diálogo com o erro. Tudo isso configura um erro de doutrina, que se manifesta no final do texto de João XXIII. Aqui aparece a idéia de que a demonstração da “validade da doutrina” é incompatível com a “renovação das condenações”, como se tal validade tivesse que impor-se unicamente graças à força de sua própria lógica interna. Se fosse assim, a fé não seria mais um dom de Deus, ela não teria mais necessidade nem da graça para existir e se fortificar, nem do exercício do princípio de autoridade, personificado pela Igreja Católica, para se sustentar. Este é o erro, em seu sentido próprio, escondido na frase de João XXIII: uma forma de pelagianismo, típico de toda concepção racionalista da fé, muitas vezes condenado pelo Magistério.Além disso, as condenações fulminam não só as heresias e os erros teológicos no sentido estrito e de maneira implacável, mas toda concepção de mundo que não seja cristã (não somente as contrárias à fé, mas também as distintas dela, religiosas ou não, porque segundo Nosso Senhor, “quem não colhe amigo, dispersa” Mt, 12,30).A posição heterodoxa de João XXIII, mantida pelo concílio e pelo pós-concílio até hoje, derrubou por terra - nota-se isso nos textos conciliares - a inflexível armadura conceitual da Igreja, apreciada outrora até por seus inimigos: “O selo intelectual da Igreja é, na sua essência, o rigor inflexível com o qual os conceitos e os juízos de valor são estabelecidos, como aeterni” (Nietzche).


Comecemos pelas palavras de Sócrates, o filósofo dos filósofos.
Sócrates sempre fazia questões à respeito do que se dizia ser verdade, demonstrando que nós mesmos nos enganamos sobre o que é certo ou errado.
Ao ser interrogado sobre o seu conhecimento sobre a natureza Sócrates respondia:"O conhecimento já existe, só precisamos pari-lo"
Agora vamos ao comentário de Descartes, matemático e filósofo que permanece com suas leis sobre a natureza válidas até hoje:
"Enfim, considerando que os mesmos pensamentos que nos assaltam quando acordados também podem nos ocorrer quando dormimos, sem que nesse caso haja algum que seja verdadeiro, as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões e meus sonhos.
Mas logo concluí que eu que pensava, era alguma coisa, mostrando esta verdade: penso, logo existo.
Não posso negar que as ideias não existem verdadeiramente em meu pensamento, mas reconheço claramente que a natureza inteligente é distinta da corporal"
JUNE 28--Meet Scott Baber and Brian Richard III. The two Floridians, both 18, will hereinafter be referred to as the Baby-faced Anarchists (BA). The duo is facing felony arson charges (among other raps) for a flag-burning spree early Sunday morning.
"Sniper" — Atirador furtivo. Deve preferir-se a expressão portuguesa. Na sua acepção militar, a expressão inglesa "sniper" designa um atirador de elite, equipado com uma arma de precisão, que age emboscado e em acções individuais, em geral postado a grande distância dos alvos e internado em território controlado pelo inimigo, cujo objectivo é atingir alvos individuais de grande interesse militar. O lema destes atiradores de elite é "Uma bala, uma morte".A expressão "sniper" pode também ser utilizada na acepção de "franco-atirador". Um atirador furtivo pode ser ou não um franco-atirador, conforme faça parte ou não de uma operação militar coordenada

O erro que cometemos é quando procuramos ser amados, em vez de amar.


Pastiche Errância
Fiodor Dostoievski “Diário de um escritor”;Carl Sagan “O Mundo infestado de Demónios”; www.respostasimpossível.com/br; http://www.smokingun.com/; Elsa Costa e Silva in “Diário de Notícias”; globesport.com; Hans Kung“A Igreja Católica”“Sinopse dos erros imputados ao Vacticano II”, Ordem dos Beneditinos do Mosteiro de Santa Cruz; Confúcio; a Bíblia e o jornal “A Bola”, não necessariamente por esta ordem biblio-anárquica.

* Usurários de Mac usar a maçã para imprimir

7/25/2007

A futurologia perpétua de Eça

"Este Governo não cairá porque não é um edifício, sairá com benzina porque é uma nódoa."
Eça de Queirós

Com fúria e raiva

Para ser afixado à porta de todos os Congressos partidários, Conselhos Nacionais, Tribunais, e sobretudo na porta do Gabinete do primeiro-ministro e do seus tiranetes para a imprensa e a higiene pública - Sr. Santos Silva e sr. Correia de Campos.

Com fúria e raiva
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo de palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs a sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor da água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Sophia Mello Breyner

Dadaismo sem norte

Uma bátega numa nádega
Um escarcéu no Céu
Um pentelho no joelho
Um recado embalsamado
Um sorriso plastificado
O dia em agonia

Suecada estival

Uma suecada estival Mesa para quatro. Copo três para todos. Jorra o tinto novo no copo de vidro basso e nas goelas ressequidas pelo Sol prazenteiro de Junho. A Gardunha recusa a sombra, que tenuemente se insinua com a forma esquálida das vides podadas de fresco na latada. Pretas, ou vermelhas. Dá o meu Ti Zé Maria. Mão certeira e sabida a dar. Marca manilha de copas e dá à direita para o meu Avô Manel, a contra luz, já a piscar o olho. Distribui em leque mais dez para o Ti João, noventa anos e pai do Ti Zé Maria. Velhote gingão de S. Vicente da Beira, músico da banda há 75 anos. Tocava caixa. Já enterrou três mulheres e anda de soslaio posto “na cachopa” do lar, moça de 70 e tal anos, já se vê. Ti João, enfezado e pele engelhada vai escondendo o jogo na manápula. Está feliz, vê-se no brilho malandro dos olhos e no estalido alegre que faz o tinto a escorrer-lhe pela goela. Deve ter mão cheia de copas e áses à farta. Mas, mais importante do que isso, o sol está de aquecer a alma, e o vinho também. Faz pareceria com o seu filho e aprendiz na arte da sueca. Tem noventa anos e está vivo. Pisco os olhos contra o Sol, só me saem duques e cenas tristes. Vai um trago de vinho novo, espumoso e forte, para esquecer O meu avô lá meteu a unha no baralhar e trocou a divina ordem da sorte. Quem se mete com o destino aleatório das cartas, mete-se com um Deus implacável. Olho para o meu avô à procura de um sinal. Carrega as sobrancelhas e fecha o semblante, dali também nada de bom vem à mão. – A ver não levamos uma limpa ! – roga ao deus da fortuna o bom do Manel Vitorino, rapidamente convertido ao azar do baralho. O meu Ti Zé Maria, sorri, e numa cortesia profissional de jogador batido – tranquiliza: –Chita não levam, mas duas ninguém vos tira. Olho para os rostos fechados, mas com aquela luz do Sol, lampeja um ar de garotos felizes. Olho para a quadra de paus, bato-a na mesa com convicção lenta, pisco os olhos do Sol e do vinho forte e novo, e sinto-me inundado de uma estranha felicidade, de uma paz de perdedor. Este jogo da Sueca está irremediavelmente perdido, o que sobra é um amor filial derramado num terreiro beirão e a felicidade de estar vivo, tal como o Ti João. Na Beira Baixa a sueca é muito mais do que um jogo de cartas.


PS: Onde que que estejas Ti João, cuidado com as cachopas, bebo um copo à tua memória.

Assembleia laxante

A moção foi maioritariamente chumbada, e saíu irritadissima pela porta fora.
O veto não conseguiu evitar um sorrisinho malicioso e abafado.
Os deputados continuaram então a jogar ao galo, ou a limarem as unhas dos pés das cadeiras, fazendo horas até que acabasse mais uma sessão parlamentar.
O país, esse, continuava de baixa, com uma aguda crise intestina.

Linger on Pale blue eyes

"Sometimes i feel so happy
Sometimes i feel so sad
Sometimes i feel so happy
But mostly you just make my mad
Baby you just make mad
linger on
pale bue eyes"

No Verão morno do nosso descontentamento, linger on pale blue eyes.
Para aquecer e beber com um vodka tonico de fim de tarde, à espera das noites quentes.

O melhor de Velvet

Cadernos de Molusco - Cossery na praia

Areia nos pés, sal nos lábios e Albert Cossery, o prodigioso escritor egípcio para espantar a modorra dos dias com a deliciosa mordacidade dos grandes espíritos. Em "As cores da infâmia", como garimpador de diamantes, descubro estes quilates:

«Arredondar a barriga era o único trabalho a que se entregavam com competência e honestidade».
Não vos lembra nada?

ou

«Haver compreendido que o único motor da humanidade era o roubo. É essa a verdadeira inteligência».
A mim lembra-me o Abel Pinheiro, o tesoureiro do PP, entre muitos outros ventrudos capitalistas deste nosso jardim maltratado.

popeye resolve (1st episode)

O que a direita portuguesa está a precisar é de comer os espinafres.

7/07/2007

História militar - O monóculo do Coronel Blimp

O coronel Blimp coleccionava borboletas raras que tinha recolhido ao longo das inúmeras campanhas militares que abrilhantavam os seus galões de oficial na reserva. Para espiolhar a sua preciosa colecção o Coronel Blimp socorria-se do seu monóculo prussiano, que empinava na ponta do nariz autoritário, observando as pintinhas coloridas das asas das borboletas com o mesmo interesse libidinoso que dedicava às frondosas nádegas da sopeira do seu castelo na Alsácia-Lorena. As borboletas e as nádegas da sopeira, eram assim as derradeiras alegrias daquele velho Coronel, homem de garbo e de mundo, que agora espreitava o resto dos seus dias através de uma magnífica lente de monóculo, fabricada em Viena na distinta óptica Von Klausner-up-Braum.

História improvável das coisas - A côr púrpura

Se não houvesse côr púrpura, os cardeais provavelmente teriam paramentos amarelos e bóinas lilases, Steven Spielberg não teria realizado "A côr púrpura" e Prince dificilmente teria cantado "Purple Rain". Ou seja, se apagássemos a côr púrpura do registo de invenções coloridas de uma humanidade cinzenta, daí não viria mal ao mundo, a não ser talvez para a indústria de reposteiros de veludo.
A côr púrpura é isso mesmo - uma textura aveludada como a pele de um pêssego. Existe uma certa solenidade sensual e até mística na côr púrpura, porque ao longo da história ela tem revestido as mais respeitáveis conspirações e celebrações apocalípticas, e um ou outro bacanal mais aristocrático.
Não se sabe bem que inventou a côr púrpura, o que não é preocupante, se tivermos em conta que a batedeira eléctrica também não tem autor declarado. Sabe-se apenas que o mais antigo registo industrial da côr púrpura remonta ao Imperador romano Trajano, que encomendou aos tintureiros 500 gramas de tinta daquela côr, para pintar os lábios dos seus centuriões mais esbeltos. Ora, segundo os tintureiros romanos, para obter meio quilo de tinta púrpura seria necessário esmagar 4 milhões de moluscos, sendo esta uma das razões económicas que justificou a expansão do Império e a campanha sobre a Ibéria, cujas costas eram ricas em mexilhão.
O baton púrpura tem a enorme desvantagem de ficar cravado nas camisas de linho branco dos amantes, o que cria perturbações à cordata paz doméstica, tendo por isso tendência a ser unicamente usado em situações legítimas, e portanto, menos apetecíveis.

Coffee brake


Diamanda Galas - Insane Asylum - Tempo de Ameaça

DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

Sophia Mello Breyner

7/05/2007

Cadernos do Molusco - Naufrágio auto-suficiente

«Ilha Berlenga vai ser auto-suficiente
Projecto vai dotar a ilha de meios para gerir energia e produzir água potávelA ilha Berlenga, ao largo de Peniche, vai tornar-se auto-sustentável com a criação de infra-estruturas para gerir energia, produzir água potável e tratar águas residuais. Várias entidades, como a NASA, a Águas de Portugal, a Galp Energia e a EDP integram o projecto, estimado em dois milhões de euros. O secretário de Estado do Ambiente assina hoje uma carta de compromisso com o município de Peniche.»
SIC

A única dúvida que me assalta é saber quando é que a Ilha da Madeira seguirá o exemplo? Talvez os ensinamentos de Robison Crusoe e do fiel Sexta-feira pudessem ser úteis.

7/04/2007

Cadernos do Molusco- O bode funcionário

O bode funcionário acendeu laboriosamente o cachimbo, aliás, acender o cachimbo era a única coisa que admitia fazer laboriosamente.
O bode funcionário queixou-se ao bode funcionário superior do mau estado da ventoínha da repartição:
- Sabe chefe, vem aí uma vaga de calor, e já se sabe, a produtividade ressente-se... - lamuriou amargamente. Condescendente, o bode funcionário superior concordou, cambaleando a barbicha bem aparada, evidente símbolo de autoridade:
- Tem razão meu caro, inteira razão, informarei o director-geral, que será decerto sensível ao problema, mas até que o barbicacho se resolva, sugiro limonadas, limonadas.
O bode funcionário ensaiou a tradicional vénia e retirou-se da câmara frigorífica que servia de gabinete ao bode funcionário-superior, ruminando entredentes:
- Limonadas, limonadas, pois já se vê, este está ao fresco e nós que nos danemos. Se metesse era os limões pelo pandeiro acima, era o bem que fazia.
Infelizmente, este seu jocoso dito foi interceptado pela secretária-corujona, que diligentemente o transmitiu ao bode superior, que por sua vez informou o director-geral que em seguida notificou o chefe de gabinete do ministro, que por sua vez segredou ao ministro o ultrajante dixote do bode funcionário: «Parece que o funcionário sugeriu que o ministro metesse os limões no ministeriável traseiro e que fizesse limonada à farta». O ministro, conhecido pelo seu mau-génio, sobretudo a partir do terceiro whisky a partir das 3horas da tarde, mandou retirar todas as ventoinhas das repartições públicas, alegando racionalização dos serviços, e obrigou aquele particular bode funcionário a vestir a nova farda de Verão - camisola de gola alta de lã e calças de flanela grossa. «Não excluindo posteriores medidas disciplinares, não estou cá para aturar bodes jocosos.» E a paz funcionária foi assim interrompida por um sufocante Verão Quente.

Cadernos do Molusco- El Capitalismo Foraneo segundo Pepe Carvalho

«Para mim globalização é um eufemismo que mascara a significação real, vigente da fase actual de desenvolvimento do imperialismo capitalista, isso a que balsamicamente chamamos, capitalismo multinacional.»
Pepe Carvalho em "Milénio II: Antípodas" o derradeiro livro de Vásquez-Montalban.

Há escritores que se podem conhecer assim, de trás para a frente. Como um jantar que se começa pela sobremesa, conforme a sugestão de Alfred Jarry. A organização dos sabores é uma convenção, tal como um plano de leitura. Foi assim com Vásquez-Montalban. Comecei pelo xerez e pelo queijo danish blue, ou seja pelo "Milénio", opus magnum em dose dupla do escritor espanhol, em que o detective gourmet Pepe Carvalho e o seu fiel escudeiro Biscuter dão a volta ao mundo, numa jornada de reencontro e despedida, que coloca Vasquez-Montalban no Olimpo da escrita de viagens, deixando Chatwin remetido a uma claustrofobia patagónica.
A mundivisão de Montalban é soberba, humana e comovente, sem ser lamechas ou grandiloquoente, e a sua obsessão degustativa, que marca toda a odisseia de Pepe Carvalho e Biscuter, descarana o fio condutor das culturas - a paparoca, a comidinha.
Já desde os lanches descritivos de Enid Blyton em "Os Cinco", que nenhum escritor me abria assim o apetite. Comecei pela sobremesa, e passo agora ao amouse de bouche - "Mistério dos Mares do Sul", o primeiro livro da série do detective comunista, gourmet e desencantado, Pepe Carvalho. Um "flashback literário" depois do derradeiro "Milénio: Antípodas". Há viagens que apetece fazer assim, de trás para a frente, esta é uma delas.

Cadernos do Molusco - Sofro de Acatalepsia

Os cépticos helénicos usaram o termo acatalepsia para designar a incompreensibilidade das coisas, e a dúvida definitiva, a que Bacon contrapôs a dúvida metódica (eucatalepsia). Finalmente percebi o meu problema com as mulheres, é que sofro de acatalepsia galopante.

6/28/2007

Cadernos do Molusco - OPA sobre Fátima

Conversa de bar de hotel em Mulhose, o tema, inevitável, a OPA de Joe Berardo sobre o Benfica, a bebida, cognac, que frequentemente se mistura com trabalho.
Zé do Bombo, altercado sportinguista informa que o Benfica não é a marca mais internacional de Portugal, mas sim a Nossa Senhora de Fátima.
Zé Caetano empedernido benfiquista e jacobino (não necessariamente por esta ordem), responde: "Então o Joe Berardo que faça uma Opa sobre Fátima".
A ideia não parece má, desde que o Vacticano seja obrigado a desfazer-se das golden share sobre o santuário.

He`s human, after all

Afinal, já gosto mais deste tipo, e nada como recorrer à máxima de latrina inscrita no balcão deste bar: "É absurdo dizer, conforme a linguagem popular, que alguém se esconde na bebida; pelo contrário, a maioria esconde-se na sobriedade."
Salut Sarko!

Compromisso Portugal- I`m just a gigolo

Neoliberais perfumados, académicos sob o efeito neocon, visionários do capitalismo de fato às riscas, associação de benfeitores da Nação, aprendizes das receitas de Chicago, evangelistas da flexi-segurança, mais conhecidos sob o nome "Compromisso Portugal" querem mais do Governo.
Ou seja, estes senhores descalçaram o tamanquinho ideológico do liberalismo, e passaram agora a apontar metas de crescimento económico ao Governo.
Pera lá, a ver se percebo, então não são estes senhores que defendem que a economia deve ser livre e o seu crescimento também? Então, corrigam-me se estou errado, o crescimento da Economia não depende mais deles, notáveis empresário do risco e da inovação, do que de um Ministro da Economia. Ou será que o que estes senhores empresários modernos querem do Governo, é menos impostos, e mais regalias?
Já não percebo nada, but i`m just a gigolo

Cadernos do Molusco - Tarde piaste

Um grupo de 18 notabilissimos jornalistas, com uma elevada percentagem de directores e chefias de jornais, pretende criar mecanismos de auto-regulação na profissão mais regulada do país (a seguir aos sargentos de praça).
Depois de terem assistido impávidos à criação de uma maquiavélica Entidade para a Regulação da Comunicação Social, à alteração do Estatuto do Jornalista e à atribuição de poderes plenipotenciários à obscura Comissão da Carteira dos Jornalistas, estes excelentissimos dinossauros, vêm agora a regorgitar a velha ideia da criação de uma espécie de Ordem dos Jornalistas, com poderes de regulação e punição a infracções deontológicas.
O mínimo que se pode dizer. é que vieram tarde, como de costume.

Cadernos do Molusco - Os benefícios do tabaco segundo VPV (para memória futura)



Por um tempo de reticências, contra as exclamações
Não é meu costume rapinar textos de autores vivos para decorar sem esforço a minha modesta chafarica. Até porque salvo raras excepções os autores vivos além de consideravelmente menos interessantes do que os mortos, além de terem uma noção mais acutilante de propriedade intelectual.
Mas neste caso sinto-me forçado a fazer uma excepção, e rogo ao "Público" e a Vasco Pulido Valente que me perdoem a grosseira piratagem do texto publicado hoje naquele jornal. Faço-o apenas para poder resgatá-lo das garras do efémero do papel de jornal, e conservá-lo aqui no recato deste meu bar-arquivo, entendam-no como um mero recorte bloguistico para memória futura.
Trata-se do mais notável texto sobre o prazer de fumar que já li.
O prazer do cigarro, como pontuação de um tempo marcado pelas interrogações sobre os limites da liberdade pessoal e as exclamações autoritárias do higieno-fascismo. Um texto suspenso com o vagar simples das reticências, como um cigarro que se saboreia depois de um banho de mar...


Os benefícios do tabaco
Público 28.06.2007, Vasco Pulido Valente
Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim. A pequena cerimónia de acender um cigarro marca um "tempo": o princípio do dia, o princípio do trabalho, cada intervalo ou cada distracção, o alívio (ou o prazer) de acabar qualquer coisa, o almoço (quando almoço), o jantar (quando janto), o fim do dia, antes de fechar a luz, como um ponto parágrafo. O cigarro divide, acentua, encoraja, consola. Abre e fecha. É uma estação e uma recapitulação. "Já cheguei aqui. Falta ainda isto, isto e aquilo". Nas poucas vezes que tentei não fumar, tinha um sentimento de desordem, de arbitrariedade, de não saber passar de um frase a outra ou de um capítulo ao capítulo seguinte. Os fumadores, se repararem bem, não fumam ao acaso; fumam com ritmo.O cigarro também é uma companhia. Sobretudo para quem trabalha sozinho. A maior parte das pessoas vai falando, pouco ou muito, durante o trabalho. Por necessidade ou por gozo próprio. Do "serviço" à intriga, há milhares de oportunidades para o grande e simpático exercício de conhecer o próximo: para gostar dele ou para o detestar, para o observar, o comentar ou o intrigar. De porta fechada, à frente de um computador ou de um livro, não há nada à volta. Aí o cigarro ajuda. É um fiel amigo: a pausa que torna o resto tolerável. E que, além disso, recompensa uma boa ideia ou manifesta o entusiasmo ou a execração pelo que se leu. Com quem se pode conversar senão com o cigarro? De certa maneira, o cigarro substitui a humanidade; e não me obriguem a fazer analogias. Mas, principalmente, fumar serve para pensar. Quando, a ler ou a escrever, paro a meio de uma página, porque me perdi num argumento ou não consigo imaginar como se continua, pego num cigarro e penso. Não me levanto, não me agito, não abro a boca, não me distraio. Fumo e procuro com paciência a asneira. O cigarro concentra e acalma. Restabelece, por assim dizer, a normalidade. E este efeito "normalizador" é com certeza uma das suas maiores virtudes. Não comecei a fumar para ser adulto ou "viril". Comecei a fumar porque sou horrorosamente tímido e porque o cigarro é com certeza a maior defesa dos tímidos. Primeiro, porque ocupa as mãos e simula um arzinho de à-vontade. E, segundo, porque esconde e protege ou cria a ilusão de que esconde e protege. Por detrás de um cigarro, o mundo parece mais seguro. Mesmo se andam por aí a garantir que não.

6/25/2007

O pecado da vulva


A grandiloquente Princesa da blogosfiera, Rititi, que faz o favor de ser minha amiga, explica porque apesar de haver mil e uma formas de escrever caralho e se fazerem metáforas sexuais como se fazem fellatios, dificilmente se pode confundir literatura com punhetice.

Eu, que sou por uma pornografia esclarecida, discordo, porque acredito que muitas vezes se confunde salada de mamão com mamada no salão, mas rendo-me ao brilhantissimo texto.

Polónia é Europa

Não percebo porque é que os polacos decidiram amuar com a Europa, a julgar pelo casting do programa Idolos local, o seu talento é perfeitamente europeu.

Mulheres perfeitas, amores imperfeitos

Para os meus amigos que depois dos 30 continuam à procura da mulher perfeita, tentem esta ...

Smoke in your bed

Sabem a quantidade de incêndios que começam em casa por causa de cigarros mal apagados?
Eu também não sei.
Mas também sei que o cigarro é o melhor extintor das brasas do amor.
Aquele sublime prazer de cama, depois do amor, de fazer bolinhas de fumo expirarem como lençóis nos corpos nús e exaustos.
Se o preâmbulo de beijos e dos corpos que se exploram e se desnudam é a melhor metáfora do desejo, um cigarro depois do último suspiro é um prazer secreto, inexplicável, egoísta que apenas é possível partilhar quando o corpo ao nosso lado também expira argolas de fumo sobre o amor temporariamente extinto na cama.
Fumar um cigarro depois do amor e depois de um banho de Mar, eis a melhor definição de um prazer simples, como o são todos os grandes prazeres.

PS: A sugestão da música é "marítima" my bloody valentine

Cadernos do Molusco - Profecia de Newton

Recorrendo a complexos cálculos, o físico e matemático Isaac Newton "descodificou" o poema do apocalipse da Bíblia e previu que o fim do mundo iria começar sensivelmente em 2060.
Não percebo nada de matemática e por isso me faz alguma confusão que o fim do mundo comece.
O raciocínio preocupante, mas também revigorante, é pensar que se calhar o fim do mundo já começou, só que nós ainda não o sabemos.
Por isso o melhor é aproveitar já, não vá Isaac Newton ter feito mal as contas.

Fumador Activo - Vícios públicos e saúdes privadas

Parece que o PS vai recuar na lei-seca, aliás na lei anti-tabágica, permitindo aos proprietários de estabelecimentos com mais de 50 m2 escolher se são livres de fumo ou não. Depois de anunciar com galas de fundamentalismo uma espécie de shari'ah anti-tabágica, parece que os deputados fumadores do PS conseguiram moderar os ímpetos "ayatolas" do ministro Correia de Campos. Esta é uma boa notícia, não só para os fumadores, mas também para quem preza a liberdade individual, incluindo não fumadores que podem agora ser protegidos do sumo sem remeter ninguém a uma espécie de "ostracismo" higiénico, como pretendiam os mais devotos.
Parece-me que às vezes se complica o que é fácil - basta fazer leis com bom senso que não agridam pessoas na protecção dos direitos das outras pessoas. Equilibrio e bom senso, eis o que tantas vezes falta na produção legislativa.

Obviamente que esta moderação legislativa fará erguer um coro de vozes entre os sanitário-maníacos, que acusarão o Governo de ter cedido às pressões e interesses da indústria tabaqueira. Obviamente que as tentações totalitárias continuarão a existir, por isso convém não baixar a guarda do Fumador Activo - que é aquele que acredita e defende restrições ao fumo e na protecção dos direitos dos fumadores passivos, mas que não aceita que ela se faça à custa e às expensas do seu próprio direito à "degradação".
Porque prefiro morrer com cancro no pulmão, do que com um coração envenenado pelo ódio, qualquer que ele seja.

Cadernos do Molusco - Merda de vídeo

Sábado programei direitinho o vídeo para gravar a retransmissão das cerimónias do 10 de Junho, que a RTP Memória emitiu no domingo de manhã. Infelizmente o vídeo baralhou-se nos canais e fiquei com uma emissão inteirinha da Eucaristia Dominical para memória futura. Será que o senhor Presidente da República podia fazer-me o favor de pedir para a RTP passar outra vez esse grandioso espectáculo da portugalidade que é ver tropas trôpegos com metralhadoras e bandeiras, e condecorados côncavos e curvados com ar de enterro. Viva Portugal!

Cadernos do Molusco - Cobaias NASA

A NARSA quer cobaias humanas para passar uma boa temporada no espaço sideral. Assim de repente estou-me a lembrar de umas boas dúzias de potenciais astronautas portugueses. Será que a NARSA aceita recomendações?

Cadernos do Molusco - Na mó de cima

Abriu este fim-de-semana o Bar Lounge da Moagem no Fundão. Na mó de cima do novo Centro Cultural do Fundão uma vista de cortar a respiração sobre a Cova da Beira e um espaço "clean" and "cousy" que os meus amigos Leonel e Vitor vão tratar de dar alma, vida e animação.
Um espaço é apenas o vazio da decoração sem a vida que as pessoas lhe emprestam. Espero passar muitas e boas horas a beber copos e na boa galhofa da conversa no bar que para mim se devia chamar "Na mó de cima", que é isso que lhes desejo, estarem na Mó de Cima.
A primeira festa foi a do segundo aniversário da Flint, a empresa de boas ideias do Rui Martins, que fez as vezes de VJ numa estreia prometedora. Parabéns também para ele.

6/20/2007

Tesourinhos sorridentes - These Boots Are made For Walking Original

Walk all over me baby, o melhor hino do feminismo de salto alto

Tesourinhos sorridentes- I'm Too Sexy - O Kitsh Cool

Uma camisola de alças é sempre uma camisola de alças, arejadinha, ou várias boas razões para manter longe de um ginásio.
Mas a música é cool

Burro Lúcio e Galáctica entram na discussão sobre o Novo Aeroporto

O Burro Lúcio promete espectacular regresso à vida pública. O putativo candidato a qualquer lugar elegível de mordomias e salamaleques prepara-se para apresentar uma nova alternativa à OTA.

Respondendo ao repto de Augusto Mateus, o Burro Lúcio pensou que o melhor modelo de aeroporto para o futuro é obviamente, uma cidade aeroportuária com capacidade para voos galácticos. Um centro de excelência para viagens extra-terrestes, que seria a plataforma indo-europeia para os voos inter-galácticos que prometem ser o mais expansivo mercado aeronáutico da segunda metade do século XXI.

O Burro Lúcio vai nos próximos dias apresentar ao Presidente da República e ao Governo o seu projecto, estando a ultimar os últimos detalhes de um estudo preliminar realizado pelos reputados consultores internacionais da “Galáctica”, coordenado por Buck Rogers, o maior especialista em voos inter-galácticos.

O Burro Lúcio contratou também uma série de agências de comunicação para lançar uma ofensiva mediática à escala europeia, que como se sabe é nesta fase, bastante mais importante do que qualquer estudo de engenharia aeronáutica ou civil: “Primeiro trombones, depois ideias e projectos”, terá dito o Burro Lúcio numa reunião com um conjunto de investidores que apoiam este estudo e que por agora se preferem manter no anonimato, com medo de represálias dos Conselho de Cyborgs do Governo inter-estelar.

A localização do novo aeroporto inter-galáctico já está definida, e será precisamente na Serra da Gardunha na Beira Baixa, que segundo a NASA é um dos dez locais do mundo onde é mais provável avistar OVNIS: “Temos de potenciar as nossas vantagens competitivas. Construir uma cidade inter-galáctica em Castelo Novo tem inúmeras vantagens para a captação de voos de OVNI`s de outros lanetas que dentro de poucos anos substituirão os “low cost” em volume de tráfego aéreo.” Explicou o entepreneur equídeo.
De acordo com estudos de exploração da “Galáctica” em 2035, as crateras da Lua, os anéis de Saturno e as praias de Mercúrio serão os três maiores destinos inter-galácticos, movimentando milhões de passageiros ano. “Por outro lado, servindo de plataforma giratória inter-galáctica, a cidade aero-espacial da Gardunha teria condições óptimas para atrair turismo inter-galáctico, nomeadamente de habitantes de planetas rochosos, que se identificariam com a paisagem daquela Serra. Aliás, é possível recriar em toda a região da Beira Baixa “habitat`s” típicos de outros planetas, para os turistas extra-terrestes se poderem sentir em casa, como aliás já se faz no Algarve com os pub`s para os hooligans ingleses.


Para o visionário jumento, a localização da cidade aero-galáctica no interior de Portugal permitiria recentrar a estrela ibérica, relegando Madrid e Lisboa para a periferia, “o que vai corrigir o modelo de desenvolvimento ibérico, que caminha para as megalópolis. Mas mais do que isso, com um aeroporto galáctico, Portugal estaria de novo no centro do Universo, e isso como se percebe, dá imenso jeito em termos de acessos, sobretudo quando se vai de táxi para o aeroporto.”
Os próximos dias serão decisivos para melhor perceber os contornos deste projecto “Galáctico” do Burro Lúcio e associados que decerto vai lançar ainda mais gasolina nofogaréu do novo aeroporto.
Enquanto isso, vamos às cerejas que agora é que estão boas.

Alcochete is the best

Futuro Shutlle para o aeroporto de Alcochete, porque nós somos pelos transportes subaquáticos e estamos fartos de um Governo que mete água

Eu cá sou pela OTA!





Porque não me importo de andar um bocadinho a pé

Nós preferimos Portela +1

Mas ainda estamos a estudar o assunto e à espera de um Mecenas!

A OTA e a terrina da sopa





“Na maior parte dos homens, a descrença numa coisa, baseia-se na crença cega numa outra”.
Lichtenberg

Vai uma apostinha? Se por artes do demo se fizesse agora um referendo sobre o aeroporto da OTA, o sensato povo lusitano chumbaria o “desvario” com uma maioria bielorussa. Como rebanho manso fomos sendo conduzidos à certeza de que a OTA é uma fífia estratégica, um projecto faraónico que serve unicamente interesses privados, um turbo para a nossa economia a pedais, um quero-posso-e-mando do Governo.
Nunca se assistiu a um coro de balidos tão afinado, tão melífulo, tão científico, como aquele que move as mais insuspeitas carolas lusitanas contra a localização de um aeroporto.

O que me levou a desconfiar desta cruzada anti-OTA foi pensar porque raio é que a CIP (Confederação da Indústria Portuguesa) se dispõe a pagar do seu bolso um estudo para uma localização alternativa ao aeroporto da OTA, precisamente no mesmo momento que esse pequeno Nody da política nacional, o Sr. Marques Mendes, se pôs em bicos de pés nos seus tamanquinhos, pronto a cavalgar o alazão da contestação contra “Bob Construtor Lino” e a OTA.
Como não acredito em bruxas, nem em coincidências, nem na súbita caridade patriótica dessa corja de respeitáveis ávaros do salário mínimo, logo tratei de puxar ao rabo escondido no palheiro. E em vez de gato, veio raposa gorda de galinheiro farto.
Então não é que a localização do aeroporto na margem Sul traria amplos benefícios económicos para uma miríade de grandes empresas, onde pontificam por exemplo o Grupo Espírito Santo, a Brisa, a Lusoponte (concessionária da deficitária Ponte Vasco da Gama) ou até a Sonae, a quem um aeroporto a vinte minutos da “Nova Miami” de Tróia devia dar um jeitão. Eu cá não sou de intrigas e, apesar da declaração de interesses do seu director, é curioso ver como tem sido o “Público” a liderar uma inaudita campanha anti-OTA.
Com uma tão poderosa conjugação de interesses e a inabilidade do Governo para defender um projecto caucionado por sucessivos Executivos e partidos (incluindo o do Sr. Mendes), é natural que neste país de papagaios, os políticos de cervejaria, os treinadores de bancada e os plumitivos do oratório mediático despertassem para uma insuspeita vocação: a de engenheiros aeronáuticos!
Numa dos seus famosos “gags”, Raul Solnado queria ser um engenheiro naval alto e de olhos azuis. Pois bem… aqui tem um país de súbitos engenheiros aeronáuticos, capazes de, com um parágrafo, remover toneladas de terra e dinamitar um conjunto de estudos que demoraram trinta anos a engendrar. É obra!
Eu cá, de engenharia nem Black&Decker, nem um móvel do IKEA, mas sei que para qualquer dado problema se consegue um parecer técnico diferente, ou melhor, conveniente.
Aposto que se o Sr. Frexes (Presidente da Câmara do Fundão) quisesse um aeroporto internacional na Atalaia do Campo, não teria dificuldade em reunir uma tropa fandanga de cientistas, engenheiros e ornitólogos que jurariam a pés juntos sobre o seu currículo académico, que a Atalaia seria a melhor localização para um aeroporto, dada a ausência de rabanadas de vento lateral, a escassez de tordos em idade fértil e a proximidade do Estádio Santiago Bernabéu.

Não quero com isto desvalorizar os argumentos técnicos ou científicos que se opõem ao aeroporto da OTA, que podem até ser justos ou pertinentes, mas que não se sobrepõem aos argumentos e estudos conduzidos pelas maiores empresas internacionais do sector e que num rigoroso e documentado processo eliminatório (ver site da NAER) acabaram por conduzir à escolha da OTA.
Uma escolha que há um ano atrás parecia consensual e pacífica, incluindo para as associações ambientalistas, tão propensas a fazer um pé-de-vento quando o excitante coito de um casal de lagartos está em risco de ser interrompido.
Se há um ano havia consenso político e técnico, o que mudou entretanto? Convoco o sempre actual Eça para explicar: “Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. (…) Se em certos dias se congregam, é apenas para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares...”
Neste “sítio mal frequentado”, os grandes negócios e os projectos de interesse nacional estão nas mãos de vorazes lóbis que continuam abancados à mesa a destapar a terrina da sopa, ou na Quinta da Marinha a saracotear os calções do golf.
Mesmo considerando que possa haver na questão da OTA um “empate técnico”, a decisão será eminentemente política. Estranho por isso que Cavaco Silva, que assinou cheques ao portador para o Centro Cultural de Belém, Expo-98, e Ponte Vasco da Gama venha agora a meter bedelho e pedir fiador técnico para a OTA, a mesma fiança que ignorou quando a “obra” era sua.

A caução técnica da OTA já há muito está passada, e mais razões não houvesse, duas sobrepõem-se a todas as outras:
- A localização na Margem Sul, que apresentava vantagens em relação à OTA, foi chumbada por motivos ambientais, com estudos preliminares (aqueles que no momento da decisão contam) a apontar as rotas de aves migratórias e os aquíferos como “impeditivos”.
Para os menos atentos, impeditivo, significa que a União Europeia não entraria com um tostão para o financiamento de cerca de 20 por cento do projecto, como está assegurado no caso da OTA.
Se os senhores empresários quiserem fazer uma vaquinha para se substituir ao financiamento comunitário, por mim estão à vontade.
Já agora podem também tentar explicar aos passarinhos que isso de se meterem nos motores dos aviões não lhes dá saúde nenhuma – nem a eles, nem aos aviões.
- A segunda razão é meramente cronológica. É que apesar de ainda nem se ter sachado um rego, o aeroporto da OTA já está na realidade a ser construído há sete anos, porque os estudos estão numa fase adiantada, e regressar à estaca zero obrigaria a novos investimentos no aeroporto da Portela.
Recorde-se que há três anos se gastaram 350 milhões de euros na ampliação da Portela, porque o projecto de construção do novo aeroporto já se arrasta há pelo menos duas décadas.
É por isso que escutar a peregrina ideia do sr. Miguel Sousa Tavares, que defende a ampliação da Portela e a construção de um pequeno aeroporto para “low costs”, nos revela a ignorância própria de uma eminência parva do comentário de cervejaria, que normalmente não sabe o que diz, mas di-lo muito bem dito.
Os voos “low cost” só são possíveis com a rentabilização logística das horas vagas dos grandes aeroportos. Só assim é possível viajar até Amesterdão pelo preço de estacionar o carro uma tarde na Avenida da Liberdade do Fundão.
Obviamente que podemos considerar um novo aeroporto um investimento desnecessário num país que construiu dez estádios de futebol. Mas, cá pelas minhas contas, um aeroporto continua a ser a forma mais rápida de sair deste país que tresanda a sopa.

publicado no “Jornal do Fundão” nos idos de Junho

You've come a long way, baby

Fumatório fetichista contra sanatório fascista.
Eh! Eh! Processem-me, multem-me, impugnem-me, internem-me.

6/15/2007

Arquétipo do pensamento anti-tabágico, ou pior do tensamento totalitário

Só para se perceber que a discussão sobre as leis anti-tabágicas transcende em muito uma mera questão de saúde pública, e revela uma pulsão totalitária que saltita ai dentro de muita gentinha, passo a transcrever o esclarecedor comentário que o senhor André Silva, estudante de Medicina, teve a amabilidade de fazer chegar a este infecto e oculto barzinho na internet:

«Eu acho este post um atentado à liberdade das pessoas. A minha liberdade termina onde começa a liberdade dos outros. Será que eu posso ter o direito de ir a um sítio público e não correr o risco de ser incomodado por um fumador egoísta? Será que isto é discriminação do fumador? O fumo faz mal à saúde, e eu não sou obrigado a sofrer por causa de um viciado ter vontade e direito de fumar. É mesmo muito desagradável. O estado já comparticipa em muito os fumadores, ao dar dinheiro para o sistema nacional de saúde que trata os que são doentes por causa do tabaco. AVCs, infartes, cancro do lábio, da língua, do esófago, do pulmão, da bexiga, pancreas, insuficiência respiratória aguda, doença pulmonar obstructiva crónica, bronquite crónica, etc... Todas estas doenças e muitas mais têm uma incidência muito aumentada nos fumadores, e quem paga é o estado, e todos nós. E os viciados continuam a fumar. Triste a mentalidade daqueles que acham que têm o direito de fumar onde querem, por serem livres, sem se preocupar se estão a prejudicar os outros. Mentalidades mais avançadas, como por exemplo existem em alguns países nórdicos. Na Suécia, por exemplo, toda a assistência médica é gratuita, e o tabaco não é proibido, mas quem for fumador sujeita-se a pagar pelos seus tratamentos, no caso de ser atingido por uma doença cuja incidência seja aumentada pelo tabaco. Quer fumar, fume, mas na altura de fazer a quimioterapia para o câncro do pulmão, paga!»



Caro André Silva
Está no seu pleno direito de achar o que quiser, e invocar as razões que quiser. Eu próprio concordo que é necessário limitar e regular os locais onde se pode fumar e proteger as pessoas como o senhor, que se sentem lesadas e ameaçadas pelo fumo dos outros.
Há decerto formas mais equilibradas de o fazer do que aquelas que a União Europeia tem copiado do fanatismo-higiénico dos EUA.
Mas se em relação aos limites da liberdade de fumar nunca poderemos estar de acordo, porque se trata também de uma questão de regulação de liberdades (a única possível para pessoas como o senhor é o exercicio total e absoluto da vossa liberdade de impedir os outros de gozar um prazer ou se quiser, um vício - a isso chama-se totalitarismo, não liberdade).
Portanto com um discurso como o seu, dificilmente se poderia chegar a um entento cordiale, porque não pode haver entendimento cordial com a intransigência que pretende remeter os viciosos fumadores a uma espécie de ostracismo punitivo e castigador.

Já quanto ao seu raciocinio-sanitário-fascista sobre os custos para o Sistema Nacional de Saúde do tratamento de doenças provocadas pelo fumo, gostaria apenas de relembrá-lo que o Estado português, por exemplo, arrecada por ano 1400 milhões de euros com impostos sobre o tabaco, ou seja, praticamente um quarto do que está consgrado anualmente no Orçamento de Estado para o Ministéro da Saúde, dinheiro que mais tarde servirá para lhe compôr o seu ordenado em concomitância com o sector privado (desejo-lhe eu).
Ou seja, o dinheiro que os "viciados" desembolsam para "sustentar" o seu vício, sustenta largamente muitos dos vícios do Estado, e também o tratamento das doenças e achaques de saudáveis e viçosos não fumadores quando vão a um Hospital ou a um Centro de Saúde tratar de qualquer problema da sua preciosa e sagrada saudinha.

Eu penso que 1400 milhões de euros por ano nos dão o direito, a todos nós fumadores, de não ter de aturar esse seu argumentozinho mesquinho e ignorante.
Um argumentozinho, que levado à letra implicaria por exemplo a demissão do Estado do seu papel de regulador social e de solidariedade, e que implicaria a não comparticipação em tratamentos a toxicodependentes (quem é que os manda drogar), a doentes de SIDA (quem os manda ter sexo inseguro ou injectar-se com seringas contaminadas), a mulheres que queiram abortar em segurança (quem as manda ter gravidezes indesejadas), a doentes hepáticos (quem os manda meter-se nos copos) ou mesmo a tratamentos dentários (quem os manda não lavar os dentes e comer bolas de berlim). Esta é a sua lógica implacável, o que convenhamos, para futuro médico, não está nada mal.

Atentado à liberdade das pessoas não é o meu post "metafórico", atentado à liberdade das pessoas é o seu "elaborado" pensamento, que nem sequer é um pensamento económico-liberal, é simplesmente, um pensamento idiota.
Se há um rio da liberdade, nós estamos em margens opostas, o que devo lhe dizer é uma ideia muito tranquilizante para a minha margem.

PS: Quando eu fizer a quimioterapia para o meu cancro do pulmão até posso pagar, em compensação, o meu caro senhor terá sempre a grande vantagem de morrer cheio de saúde, o que deve ser, pelo menos, consolador para um futuro médico.
Quanto ao mais, vá à saudabilissima badamerda!

Atentamente
Um fumador contribuinte do SNS com cerca de 600 euros/ano em impostos sobre o tabaco e outros tantos em imposto sobre o álcool. Ou seja, ao fim de uma vida útil de fumador e bebedor(estimada em 30 anos) terei contribuido aproximadamente com trinta mil euros em impostos, parao SNS, o que dará para ajudar o Estado a tratar-me durante um aninho, antes de me finar com uma das terríveis doenças que fez o favor de enumerar.

5/29/2007

Malefícios do Governo

“A razão é a primeira autoridade; e a autoridade é a última razão.”
Louis Bonald

Mais do que o problemazinho do “canudo”, uma bagatela neste país de licenciados nas caixas de supermercado e pajens políticos nas administrações das empresas públicas. Mais do que os exames de inglês por correspondência, neste país da cábula e do copianço; mais do que o fingimento descarado com o combate à corrupção que disfarça a complacência com esse flagelo público; mais do que tudo isso, há um padrão de pensamento e acção governativa que nos devia alarmar a todos.
Esse padrão chama-se obsessão pelo controlo e manifesta-se com tiques de autoritarismo numa série de medidas legislativas que apenas têm uma leitura óbvia - o Governo do Partido Socialista português despreza a liberdade.

Alvoraçamo-nos com o facto de uns inexpressivos milhares de taxistas-furibundos, donas de casa saudosistas, coronéis na reforma e meninas fascistas da UBI com problemas de afirmação (ou falta de namorado) terem eleito o ditador “botas” como o grande português; e entretidos com esse mofo do nosso armário dos esqueletos colectivo, esquecemo-nos que as maiores ameaças às nossas liberdades individuais não vêm de um programa de televisão fatela.
As maiores ameaças às nossas liberdades vêm das reuniões de quinta-feira do Conselho de Ministros e dos plenários da Assembleia da República, pelo punho daqueles que foram eleitos pelo povo para, em primeiro lugar, defender uma liberdade de que estivemos privados meio século, ou melhor, nove séculos, e que pelos vistos continuamos a não amar e respeitar.

A coberto do “ímpeto” reformista, das medidas “modernas” e compaginadas com as “melhores práticas europeias”, o PS prossegue uma subterrânea ofensiva no sentido de cercear, regular e domesticar a liberdade de expressão e de informação, tema para o qual encontra sempre pontuais aliados nos tribunais onde juízes-fantoches vão produzindo jurisprudência que fariam de Hugo Chávez um grande democrata liberal.
Basta relembrar o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que condenou o jornal “Público” a uma choruda indemnização por divulgar uma notícia verdadeira sobre uma trapalhada fiscal do Sporting. Sentenças como estas vão-se repetindo um pouco por todas as comarcas, onde obscuros juízes vão destilando o seu ódio visceral aos jornalistas.
Como se isso não bastasse, o sinistro Sr. Silva, ministro com a tutela da Comunicação Social, interpreta com obstinação de linha dura, as visões mais “soft” sobre regulação dos media que Arons de Carvalho nunca ousou passar à prática no tempo do socialismo-amigável de Guterres.
Um ano depois de ter criado a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, o Governo prepara-se para apertar a coleira com o novo Estatuto do Jornalista e com o reforço dos poderes dessa entidade das trevas que é a Comissão da Carteira de Jornalista.

A experiência de um ano da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) é aliás exemplar. Como se adivinhava em texto escrito nestas páginas há um ano, este organismo nefasto é uma extensão instrumental da vontade de um partido traumatizado pela decapitação política do seu secretariado devido aos “danos colaterais” do caso Casa Pia.
Formado por comissários políticos, onde pontifica por exemplo Estrela Serrano, antiga assessora de imprensa de Mário Soares e do Partido Socialista, a ERC notabilizou-se neste seu ano de estreia por ser um polícia de giro a mando do chefe-de-esquadra.
Distribuiu raspanetes e pequenos açoites em meia dúzia de “prevaricadores”; defendeu abnegadamente o Serviço Público de Televisão (agora criou uma tabela numérica para alegadamente defender o pluralismo político-partidário dos telejornais) e foi incapaz de molestar o poder, mesmo quando este tentou alegadamente fazer pressão nos directores de jornais, no director de informação da RTP ou quando Pina Moura anunciou gongoricamente que a sua nomeação para a administração de uma empresa privada, mas com uma licença de televisão emitida pelo Estado e fiscalizada pela ERC, era uma nomeação “ideológica”.
Escusado será dizer que este organismo é ricamente financiado pelos cofres públicos, os mesmos que estão depauperados para manter centros de saúde no interior. Há dinheiro para os “bófias” do Sr. Silva limparem as sarjetas do jornalismo, não há dinheiro para ajudar um velho mineiro de Sobral de São Miguel a ir a Coimbra fazer quimioterapia ao pulmão envenenado pela silicose.

Mas nem só pela liberdade de informação passa a obsessão pela rédea curta deste Governo, que no tempo de Santana Lopes teria dado direito a levantamento de rancho.
O projecto de criar um Intendente-Geral das polícias, um Pina Manique da era tecnológica que fique na dependência directa de Sócrates é também um reflexo desta veia autoritária, a mesma que entronca na nova lei anti-tabágica aprovada com sonolenta benevolência pelos deputados da AR. Ambas as iniciativas são faces da mesma moeda, uma servida sob o manto da eficácia-securitária, a outra sob a lógica higieno-fascista do politicamente correcto.
Fazendo aqui a minha declaração de interesses de fumador activo de quase duas ininterruptas décadas de prazer consciente dos malefícios, gostava apenas de lembrar os 70 por cento de não fumadores deste país que decerto regozijam com esta nova lei, que não se trata apenas de um problema de saúde pública ou de poderem saborear umas favas no tasco sem levarem com os bafos do cliente da mesa do lado.
Trata-se de um princípio de liberdade individual que nos permite viver a vida como entendermos ou até destruirmo-nos como bem entendermos. Hoje são os cigarros, amanhã são as favas e as gorduras.
A nova lei anti-tabágica é fascista porque persegue os fumadores remetendo-os para “guettos”; iliberal porque não permite a livre empresa, ou seja, que o proprietário de um restaurante ou de uma discoteca escolha, e por fim é uma lei repressiva, que prefere a multa à prevenção.
O Estado não está preocupado com a saúde dos não fumadores; está preocupado com a sua saúde financeira e dá-se a desplante de fingir cuidados com a saúde dos fumadores que todos os anos contribuem com 1400 milhões de euros em impostos sobre o tabaco.
Ora eu cá passo bem sem fumar um cigarro em restaurantes de não fumadores, mas também passo muito bem sem este paternalismo-maníaco do Sr. Correia de Campos que nos quer obrigar à força a cultivar modos de vida saudáveis que lhe encurtem as listas de espera dos hospitais.
Bernard Shaw dizia que a última vez que andou uma longa distância a pé foi para acompanhar o funeral de um amigo que morreu a fazer jogging.

Cá por mim com um Governo destes, que nos quer impingir adesivos de desabituação tabágica nos ombros e adesivos na boca da imprensa, o melhor é mesmo começar a fumar charros para esquecer (as multas sempre são mais leves), ou então pedir emprestado ao Bordalo Pinheiro o Zé Povinho e esse gesto caído em desuso, mas nunca tão necessário, como o saudoso manguito.
Ora toma !


(Publicado no Jornal do Fundão, nos idos de Maio)

5/24/2007

Have a bite

O ministro Mário Lino dá um contributo inestimável à ciência oculta do marketing político, ao criar soundbytes de uma nova estirpe. São soundbytes que se viram ao dono e lhe mordem na língua.

5/23/2007

Calor: Chris Rea e Drumond de Andrade

Consolo na Praia


Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizaram.
Mas, e o humor?

Fumador activo - How To Smoke A Joint

Pedagogic for the people.
Proponho sessão de esclarecimento na Comissão de Saúde da AR.