4/15/2007

A Regra do Jogo

Os cientistas malucos querem acabar com a formiga atómica. Os jornalistas, agências de comunicação e lobistas querem acabar com o Sócrates.

PS: Pica, como bem notado, aqui fica a Formiga

Cadernos do Molusco - Licenciados e licenciosos

"Sempre preferi licensiosos a licenciados."

"Depois de um primeiro-ministro licencioso, como Santana Lopes, temos agora um que nem sequer é licenciado."

Cadernos do Molusco - Idiota gelataria capitalista

"Isso é o mesmo que tentar vender gelados a esquimós".
Não sei porquê, esta assenta que nem uma luva a muitos pseudo-empresários portugueses.

Poesia em flor






Entre Março e Abril



Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva me traz o sol,

me traz o rosto,

entre março e abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?



Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil,

entre limão e vinho

entre marfim e mel,

abertas no canteiro, junto ao tanque



Frésias,

ó pura memória

de ter cantado -

pálidas, fragantes,

entrechuva e sol

e chuva

- que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas.



Eugénio de Andrade

Flores a dias


Nasce uma flor num ramo.

Nasce uma flor na terra.

Nasce um sorriso tranquilo de esperança no presente.

Nascem dias bonitos comos as flores das cerejeiras que saboreamos antes do sabor nos lábios. Flores que anunciam beijos carnudos e o sangue cálido das cerejas.

Barman, um iogurte duplo


O manel sai ao tio, não suporta ver um copo vazio.

3/25/2007

Termopilas - Loja dos 300

Parece que Ahmadinejadn e os iranianos ficaram um bocado chateados com este filme.
A julgar pelo trailler, acho que eu também.

De qualquer forma, bom pretexto para revisitar a grandiosa história militar de Vodka7.


Raios os Espartam

Encurralados e em inferioridade numérica, as divisões hoplitas de Leónidas lançaram-se numa temerária manobra ofensiva sobre as fileiras persas. Os 300 homens do General espartano Leónidas, despiram as armaduras, tiraram as caneleiras e as túnicas interiores, e todos os nus, apenas com o elmo ático na carola, lançaram-se com lancinantes gritos sexuais pelo desfiladeiro das Termópilas em direcção às tropas de Dário. Receosos pela sua masculinidade, os persas debandaram em pânico, tendo muitos deles sido esmagados pelos seus companheiros, e outros caído ao mar. Os homens de Leónidas acabaram por perecer, vítimas de escaldões, mas ainda hoje a praia de “termo pilas” é uma das estâncias de nudismo gay mais procuradas da Grécia.

3/24/2007

Cadernos do Molusco - Frases perigosas à solta

«Não confundir uma salada de mamão, com uma mamada no salão»
Anónimo

«Isso é o mesmo que confundir um toucinho com a electricidade».
Anónimo

«As mulheres precisam de uma razão para ter sexo, os homens só precisam de um local».
Billy Cristal (via "Público")

3/23/2007

Claudette Colbert

"Ii happened one night", uma noite com Claudette Colbert. Adeus

Cadernos do Molusco - Eça reloaded

Os labrostes, lapuzes e lamechas deveriam ser proibidos de ir à televisão.
Portugal não é um país, é um sítio mal frequentado.
Major Valentão leva o roupão para a prisão.

Cadernos do Molusco - Achamento no Brasil

«Pedro Álvares Cabral,
Inventô do telefone,
Começou tocar trombone
Na volta de Zé Leal.
Mais como tocava mal,
Arranjou dois instrumento;
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três,
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento.»

Zé Limeira, brasileiro e poeta do absurdo. Não necessariamente por esta ordem.
Bendita cachaça.

Cadernos do Molusco - Convite cacofónico

Recebi um convite para assistir quinta-feira ao lançamento de um carrinho, uma vérnisage motorizada que promete o seguinte: "A pintura, a escultura, a dança, a música, a gastronomia, o golfe e diversos oásis de bem estar em plena sintonia neste lançamento".
Tenho de me lembrar de não ir.
Detesto jogar golfe com uma escultura ou dançar com um hors d `oueuvre.

3/21/2007

Ratos e homens

O Paulo Portas e o Pedro Santana Lopes têm a mania que são o Mighty Mouse. Mas não, nem sequer são o Rato Mickey. São apenas ratos ...

Licor beirão

Um beirão não bate em mulheres, pelo menos nas mulheres dos outros.

Wolf! Wolf! -- PP wolf

Ainda a propósito da crise do PP, um cartoon que conta toda a história.
Descubra as semelhanças com o partido de Wolfman Portas e seus lapuzes.

The PSL - Baby Love

O loverboy PSL quer regressar à liderança do PSD.
Eu cá quero ir para casa ler o Spirou numa banheira cheia de espuma.

A dieta do Horla

“O Horla” é um dos mais fantásticos contos fantásticos de Guy de Maupassant.
Horla é um ser invisível que se mete no quarto de um gajo durante a noite bebericando água e leite e à maneira dos faunos romanos tenta fazer uma espécie de respiração boca a boca para nos “aspirar” os sonhos e a vida (consta que as mulheres têm direito a outro tipo de “atenções”).
Curiosamente, o Horla deixa de lado bolachas, morangos e brandy. A sua dieta exclusiva é água e leite.
Ora, apesar da tese de Maupassant, que considerava o Horla o primeiro de uma nova raça superior, dificilmente concebo como é que uma inteligência vasta e invisível apenas bebe água e leite.
Por isso decidi fazer o teste, e deixei um decantador com umas deliciosas lágrimas de vinho Quinta da Bacalhoa, uma caixa de chocolates belgas e um prato de cerejas da Cova da Beira.
Na manhã seguinte, quando acordei, o vinho estava no jarro, os chocolates na caixa e as cerejas no prato, com um pequeno bilhete rascunhado: “Obrigado pela atenção, mas o meu médico apenas me permite beber leite e água por causa das minhas úlceras. Atentamente seu, Horla”.
Um ente superior com úlceras invisíveis? Pobre alma.

Horla em casa

Há já duas semanas que Horla está hospedado em minha casa, e confesso que já começo a ficar farto. Foi num domingo chuvoso, estava de pijama a tentar escalfar um ovo para atirar sem piedade às ervilhas da Iglo, quando tocam à porta.
A um domingo só pode ser uma Testemunha de Jeová ou o Homem do Círculo de Leitores.
Decidido a fingir que não estava em casa, espreitei pela TV interna das escadas, mas não vi ninguém. Espreitei pelo ralo e apenas o tapete felpudo do meu vizinho da frente se aventurava no meu campo visual. Entreabri a porta, e foi então que senti uma espécie de calafrio, como se uma brisa gelada soprasse pelo corredor dentro.
- Brrrrr! Está um frio de rachar.
Era uma voz alegre e à vontade, parecida com a de um calista de Algés, que agora é vendedor da Herbalife.
Esfreguei os olhos, mas não vi ninguém. Talvez fosse o eco da ressaca.
- Então, não fiques com esse ar. Eu sou o Horla, foi o Guy de Maupassant que me deu a tua morada.
- Fechei a porta, combalido e avancei rapidamente para o bar, sólida fortaleza para o sobrenatural.
- Excelente ideia, para aquecer os espíritos nada como um brandy. Eu cá não posso, as minhas úlceras … mas um cacau quente, ou um copo de leite sabiam-me bem.
Depois de ter derramado um super-petroleiro de whisky no meu copo, fui obedientemente à cozinha, como que guiado por uma vontade hierarquicamente superior, preparei um cacau quente e cancelei as ervilhas.
Regresso à sala e lá não estava ele, refastelado no meu puff. Apesar de Horla ser invisível o puff fazia uma cova e assim a sua presença tornava-se notada. Estendi a caneca de cacau em direcção ao puff e senti uma força invisível erguê-la no ar. A caneca de cacau levitou graciosamente como num filme de desenhos animados.
- Humm! Bom cacau meu chapa! O Guy bem me disse que eras bacano.
- Então o Horla contou-me a sua longa história.
Era um ser invisível de boas famílias, o pioneiro de uma nova raça superior que estudava a humanidade para ver se ela servia para alguma coisa.
Vivera numa favela em São Paulo e levara todo o mundo à loucura com os seus caprichos e a sua mania de beber água e leite às escondidas.
Teve de fugir de São Paulo escondido no porão de um navio porque se envolveu com uma “nega” que era amante de Zé Pequeno, chefe de um gang, que lhe jurou morte.
Foi parar a Rouen e abancou durante uns tempos em casa de Guy Maupassant, num solar rural nas margens do Sena.
– Ia dando com o Guy em maluco – gargalhou Horla
- Ele já não me suportava, e um dia fechou-me no quarto e pegou fogo à casa. Morreram os criados todos, mas eu consegui escapar pela chaminé.
Na altura fiquei zangado, mas acabámos por fazer as pazes. Percebemos que o melhor para a nossa amizade era separarmo-nos. Ele deu-me a tua morada, e por isso cá estou.
Não me queres mostrar a casa?
- Compreendi então que aquela não era uma mera visita sobrenatural de cortesia, era um hóspede de longa duração que se preparava para acampar em minha casa. Horla, o ente invisível estava determinado em morar comigo.
Guiado por uma vontade estranha, como estivesse hipnotizado, mostrei a casa a Horla, arranjei-lhe umas toalhas e dei-lhe uma cópia das chaves. Sorriu amigavelmente e disse:
- Acho que disso não vou precisar.

As primeiras duas semanas da minha vida com Horla foram pacíficas. Era um pouco estranho chegar a casa e ver o comando da PlayStation a pairar no ar, e uma voz aos urros – é golo, é golo!
Mas além disso, apenas tenho de à noite deixar na mesa de cabeceira um jarro de água e um copo de leite, que desaparecem durante a noite, saciando o hóspede aquófilo.
Os problemas começaram quando a Playstation se avariou e ele me começou a censurar quotidianamente:
– És um desleixado, quando é que mandas arranjar a Playstation? Não se faz nada nesta casa. É uma seca
- Já começava a ficar farto dos seus queixumes insuportáveis e para não o aturar, comecei a ouvir o Messias de Haendel para sua suprema irritação; começava a fungar ruidosamente e a teclar com os dentes na ária de contralto “But who may abide the day of is coming”.
Percebi então que a música erudita dava com o Horla em doido, e insisti nesta estratégia, aliás decalcada do filme “Mars Attack”.
Fui à FNAC e comprei uma colecção completa da Deutsche Gramophon, e a partir daí a minha sala parecia uma sala de concertos. Bach, Puccini, Mozart, Sibelius, Tchaikovski, Vivaldi, e Shostakovich eram os meus aliados para a defenestração do hóspede incómodo.
Horla fungava, assoprava, teclava com os dentes, grunhia, guinchava, lamuriava-se:
- Quero a minha Playstation, quero jogar Pro Evolution Soccer2.
Mas apesar das fúrias, não havia forma de Horla, a lapa invisível, ir arengar para outra freguesia.
Depois de consultar um volume da “História da Música” que o Homem do Círculo de Leitores me impingira, estudei cuidadosamente o mais adequado exorcismo sinfónico para espantar aquele espírito alegadamente superior.
Uma noite preparei um cacau quente para Horla, um cognac para mim e afinei a Pionner num nível decibélico razoavelmente perturbador.
Acendi um charuto, recostei-me na poltrona e convoquei nove trombetas, nove trompas, vinte e quatro oboés, doze fagotes e três pares de tímbales.
No céu limpo e brilhante desenhava-se um festim de cor e luz - era noite de fogo de artifício encomendado por Isaltino de Morais para celebrar a sua reeleição.
O meu hóspede obrigatório parecia suspenso. Durante La Paix, uma siciliana lenta de subtis efeitos de eco, consegui escutar a respiração ofegante de Horla. Na “réjouissance” (Júbilo) regressam as trombetas e os tímbales, e um gemido vago e aterrorizado, emanava do habitualmente jactante puff.
Finalmente, um allegro festivo provoca um grito lancinante e angustiado em Horla. Uma espiral de vento ergue-se em turbilhão do puff e sopra pela janela fora como um redemoinho que se afasta com longínquo lamento, juntando-se ao fogo de artifício que lacrimeja no céu.
Aspirei duas longas baforadas no meu Coiba, acompanhando os dois minuetes que colocam término à partitura que celebra o fim da guerra de Sucessão austríaca e também a uma hospedagem invisível e forçada. Adeus Horla, desampara-me a loja maçónica e o “puff”.

A partir daí comecei a receber testemunhas de Jeová, o Homem do Círculo de Leitores, cobradores da água, porteira carrancuda, parentes afastados e outras visitas indesejáveis com “Música para os Reais Fogos de Artifício” de George Friedrich Haendel, e posso garantir, que não me tenho dado nada mal. A minha vida está, digamos, mais allegro vivace, e as ervilhas com ovos escalfados têm um sabor sinfónico.

Cadernos do Molusco - Blake and Decker

«Aqueles que resistem ao desejo, fazem isso, porque o seu desejo é suficientemente fraco.»
William Blake

Nunca foi tão verdade, caro Blake. O prazer ou a preguiça?

3/20/2007

Mr. Smith Goes To Washington, and i`m going home!

"I think this is just another lost cause, Mr. Paine"

Vou para casa ver Capra, beber vinho e ficar longe da política caseira.

So long

Cadernos do molusco - O conselho de Maugham

Conselho de Somerset Maugham a jovens autores, segundo Woody Allen, extensível a velhos jornalistas e cronistas cá da choça, acrescento eu.

«No fim de uma frase interrogativa, coloque um ponto de interrogação.
Ficará surpreendido com a eficácia que tem.»

Cadernos do Molusco - Acatalepsia

Fui a uma exposição de jovens criadores com dezenas de "instalações". Senti umas tonturas e uma angústia estranha e tive de comer uma dúzia de pasteis de nata com canela.
Como continuei angustiado fui a umas urgências em vias de extinção.
O médico de banco perguntou-me se tinha visto um filme português, lido um Comic da Marvel, ou assistido a uma exposição de arte contemporânea.
Respondi-lhe que sim, e foi então que ele me diagnosticou uma acatalepsia aguda.
Uma acatalepsia é aquilo que os cépticos helénicos designavam por "incompreensibilidade das coisas" que se manifesta pela dúvida definitiva.
O médico receitou-me umas drageias de encatolepsia e um prato de Francis Bacon com ovos e disse-me: «A acatalepsia só se cura com a dúvida metódica».
Pelo sim pelo não, voltei a ler "A Bola" e cortei nos pastéis de nata e nas exposições de jovens criadores.

Cadernos do Molusco - iracundo

Oferece-se um prémio chorudo (para aí uma dúzia de alheiras de Mirandela) a quem descobrir quantas vezes Vodka7 tem publicada a palavra iracundo neste seu bar.
Ainda por cima, desconfio que iracundo é uma invenção dos tradutores portugueses de Heminghway que banalizaram o seu uso até alguém acreditar que era Aquilino o maior utilizador do iracundo na língua mátria.
Aquilino não precisava da palavra iracundo, porque era demasiado orgulhoso para a pedir emprestada a Miguel Torga, e além disso tinha para aí outras 23 que queriam dizer sensivelmente a mesma coisa (apesar de só ele e o Houssais o saberem).
Mesmo assim, gerações de escritores insistiram no uso do iracundo. Daí a imitação e a repetição nesta tribo de papagaios e monges copistas, da qual faço, evidentemente, parte.

Cadernos do Molusco - A propósito da crise no PP

«A "euforia nos caracóis" como zénite do pensamento monglóide» Woody Allen.
Leitura recomendada para Paulo Portas, Telmo Correia e seus capangas

Boring, where is my tea?

Comprei uma lata de ervilhas enlatadas (redundância premeditada), uma caixa com cinco filmes do Frank Capra e um livro do Joseph Conrad. Apesar de tudo sinto-me tão boring. Acho que só as Pierces é que me animavam.
Pepita descoberta via bomba e via tradução simultânea.

Depois de Amy Whinehouse, mais duas divas lá para casa.
PS: Rodrigo, segue já um alerta!

Alheiras passam à clandestinidade

As alheiras vão ser proscritas pelo higieno-totalitarismo da UE.
Brevemente as alheiras de Mirandela passarão à clandestinidade e talvez à luta armada.
Certo é que os almocreves que vendem droga no Chiado vão poder alargar a sua oferta, abrindo a gabardines-montra, dirão: «queres haxe? coca? ecstasy? e que tal umas alheiras de Mirandela, humm.»
Para os enconados de Bruxelas tenho uma sugestão - e que tal uma boa dose de chouricinho aos empurrões?

Papagaios do compromisso pessoal

- Uma mentira repetida, acaba por se tornar verdade.
A imprensa e a blogosfera portuguesa são o melhor exemplo desta máxima.
Há uma semana o Ministro das Obras Públicas afirmou o seu compromisso pessoal em fazer cumprir as regras e o calendário de obras da OTA.
No dia seguinte, Fernando Sobral, no "Jornal de Negócios", mandou-se ao ministro com a tese de que Mário Lino tinha um empenho pessoal em construir a OTA.
A tese do "compromisso pessoal" amplificou-se e propagou-se com a rapidez de um vírus, tendo nela embarcado cronistas como Francisco José Viegas, Clara Ferreira Alves e José Manuel Fernandes, entre muitos outros.
Acontece que se algum destes veneráveis plumitivos desta nossa choça se tivesse dado ao incómodo de escutar as declarações do ministro, perceberiam que este se limitou a afirmar o seu compromisso pessoal com o cumprimento das regras dos concursos e da calendarização das obras. Isto não é a mesma coisa que dizer que "A OTA é um compromisso pessoal" como o quiseram fazer crer Fernando Sobral e todos os papagaios-iracundos que cacarejaram as suas diatribes após ele.
Independentemente da posição de cada um em relação à OTA, o que não é admissível, nem desculpável é que se descontextualize, distorça e manipule as declarações de alguém, para as colocar ao serviço das nossas opiniões. Isso talvez se faça na política-chiqueiro, mas era bom que não se fizesse nos jornais.
Esta foi uma mentira útil que acabou por se cristalizar numa verdade conveniente, com a conveniência dos papagaios da corte.
Moral da história, nunca acreditar no diz-que-disse, que em Portugal é matéria-prima de jornalismo preguiçoso.

Cadernos do Molusco

"Acta diurna"

Apesar do que João Marcelino e o Arquitecto Saraiva pensam, não foram eles que inventaram os jornais.
Já no tempo do imperador Marco Aurélio se publicava a "Acta Diurna", um vespertino gratuito que era afixado em locais públicos, com notícia sobre o saneamento básico de Roma, casamentos, funerais e baptizados (tipo Caras), e claro, os jogos do coliseu, com bolsas de apostas e o equivalente aos Rui Santos da época (mas sem as aberrantes gravatas) a comentarem o momento de forma dos gladiadores e as probabilidades dos cristãos sobreviverem aos leões.
Desconhece-se se o horóscopo e o oráculo tinham periodicidade fixa, mas é improvável, já que se tivesse sido publicado o oráculo de Júlio César nas suas "instruções públicas" (antepassado da "Acta diurna"), ele dificilmente teria ido trabalhar naqueles idos de Março, alegando uma enxaqueca súbita ou uma praga de chatos egípcios.O bridge também não merecia uma página na "Acta Diurna", para grande aborrecimento do seu provedor, que semanalmente recebia três cartas de jogadores de bridge iracundos, exigindo um espaço para bridge no jornal.

Vasco Pulido Valente ainda não assinava uma coluna na "Acta Diurna", porque estava a dar os primeiros passos na profissão e era considerado pouco acutilante nos seus escritos. Calígula chegou mais tarde a dizer sobre VPV: «É bom rapaz, mas tem demasiado bom feitio para ser jornalista. Falta-lhe instinct killer».
Foi então que um desolado VPV começou a beber, o que acabou por se revelar um contributo inestimável para a higiene intelectual pública do povo Lusitano no dealbar do Séc. XXI.
O tal povo de quem os romanos prudentemente diziam:
- Não se governam, nem se deixam governar.

Cadernos do Molusco

Fátima Campos Foleira levou ao Prós e Contras, Balsemão, Morais Sarmento, Augusto Santos Silva e Almerindo Marques para discutirem os problemas da televisão em Portugal.
Como Fátima Campos Foleira faz parte do problema, absteve-se de fazer as suas intempestivas interrupções ou cagar as suas brilhantes sentenças e Almerindo pôde fazer uma exposição que faria os discursos de Fidel parecer uma prova de sprint.
O respeitinho é de facto muito bonito, sobretudo quando se tem o patrão e o ministro da tutela no programa.

Cadernos do Molusco

Hoje fui almoçar com o Freitolas e o Helix ao "Caçador". No armazém da frente entravam e uma série de pessoas que pareciam saídas de um filme porno alemão de muito baixo orçamento. Um deles tinha blazer vermelho, bigode destemido e óculos escuros de feira.
Perguntamos a S. que tipo de armazém era.
S. disse que era uma produtora de vídeo da Castelo Lopes.
Pois a nós também nos parecia.
Helix atacou a costeleta de borrego com uma fúria de Carrie e Freitolas pediu mais um whisky. Eu fiquei-me por uma apple struddle que parecia saída da forja de Vulcano.
As claras em castelo estavam mal batidas, presumo eu.

Do Moleskin aos Cadernos do Molusco

“Já tenho um blogue e um Moleskin. Só me falta o resto.”
Álcoolico anónimo



Jenny Jameson, a porno-star do momento também tem um Moleskin, só não sabemos onde o guarda


A última vez que tive uma sensação de posse de um bem cultural parecida com o meu prmeiro Moleskin foi quando a minha mãe me ofereceu uma caixa de marcadores Molin com 36 cores e rótulo Zé Carioca. Fiquei radiante com as possibilidades cromáticas de devastar o papel de parede do meu quarto e de ocupar as aulas de Ciências com exercícios dadaístas nas carteiras, fazendo os primeiros esboços de cerâmica das Caldas.

Agora que tenho um Moleskin, já me imagino um Bruce Chatwin urbano, de caderninho em punho passando multas a pratos “gourmet” e a barman mal encarados, ou tirando notas sobre um quotidiano que tem tanto de estimulante como a vida sexual dos cágados.
O Moleskin será o meu fiel escudeiro, o meu secretário pessoal a quem ditarei brilhantes notas e apontamentos sobre os momentos que me passam sob a biqueira dos sapatos.
É isso, o Moleskin é um notário do momento, um arquivista das memórias efémeras. Parece-me bem.

O único problema é que já o tenho há quatro dias e continua tão limpo e branco como a dentuça do Paulo Portas.
Já tenho um Moleskin, mas não sei o que hei-de fazer dele. Depois de uma sessão auto-hipnótica, percebi que o Moleskin apenas serviria para guardar pensamentos e dixotes iluminados por uma cerveja no inferno.
Quando estou bêbado, confundo-me com um pequeno génio da garrafa. O único problema é que quando estou bêbado, dificilmente consigo soletrar a palavra tirolês, quanto mais escrevê-la.
A caligrafia de um bêbado é uma instalação de arte moderna - indecifrável. Resulta pois que o Moleskin me é completamente inútil, a não ser para monge copista de leituras, palavras e frases soltas. Inauguro por isso os Cadernos do Molusco, como breviário do tudo e mais alguma coisa, na esperança de que a minha mãe me volte a oferecer uma caixa de canetas de feltro “Molin- Carioca” – com 36 esfuziantes cores.

Incontinência

Não aguentava nem mais um minuto. Contorcia-se, soprava, tentava pensar em coisas mórbidas como um discurso de ano novo do Presidente, um programa do Herman, uma tarde no Colombo ou um jogo do Sporting. Mas a natureza era implacável e as forças começavam a abandoná-la. Resistiu até ao limite, até não poder mais. Finalmente, aliviada, a torneira soltou um sonoro pingo.
O fogão, sempre vigilante e inquisitorial, rosnou – Sua incontinente!

3/19/2007

Traduttore traidore!

O tradutor inventou uma nova e bonita palavra, olhou à sua volta, e seguro de que não estava a ser observado, decidiu inclui-la naquela opus magnum de Ornitologia Medieval, de um monge capuchinho do séc. XV.
(in)felizmente ninguém reparou, e assim a palavra mais bonita da língua romena passou despercebida entre um esvoaçante bando de colibris. O tradutor, apesar da traição, morreu de morte natural aos 93 anos, no mesmo dia em que o Conde Guilhotine patenteou a sua nova invenção, que faria furor entre as cabeças coroadas da Velha Europa.

Paulinho das feiras e a peixeirada

O Conselho Nacional do CDS/PP acabou numa peixeirada que faria corar de vergonha as vendedoras do Bulhão.
Paulinho das Feiras está definitivamente de regresso à política para a contaminar com o seu insuportável pedantismo idólatra e populismo de pacotilha. Felizmente, a bulha ocorreu num partido cuja representatividade é pouco superior a uma associação de moradores da Lapa.

Commercial: Betty Boop - 409 Cleaner (1960's)

Mr. Maggo fazia publicidade a cervejas e Betty Boop a detergentes.
Se fosse agora já haveria manifestações, impugnações, erupções e recomendações da CE e das ligas evangélicas feministas. O melhor é mesmo beber uma cerveja e ver desenhos animados vintage.

Mr. Magoo Beer Commercials

Antes do politicamente correcto o Mr. Magoo podia beber cerveja descansadamente. E nós também.

3/17/2007

Dia sem juízo - final

O homem gamou a enguia na peixaria do supermercado. Enrolou-a na gabardina e passou incólume pelo detector de espécies protegidas.
Dias mais tarde uma enguia de gabardine foi vista de braço dado com um Livro de Pantagruel sub-nutrido a passear numa exposição de Tintoretto. Do larápio nunca mais se ouviu falar.

Entretanto a semana do arroz de enguia de Monção foi adiada sine diem. As autoridades locais escusaram-se a tecer comentários no telejornal das 9, que assim teve de se resumir a um bombardeamento na Faixa de Gaza e a um vox populi sobre a importância de Arquimedes para a indústria dos sais de banho.

Jambalaya - Hank Williams

Para baralhar as referências de trintinha óbvio.
Ou talvez não. Daqui a Nashville é um saltinho e a Betty Boop ainda é o meu primeiro amor.

Quando o telefone toca

O Público organizou uma colecção de trinta CD`s com o melhor da música portuguesa.
Cá por mim, um duplo álbum chegava e sobrava.

Monstro metrosexual com almôndegas

Ao passar por uma loja da Baixa, Frankenstein apaixonou-se por um manequim na montra de uma loja de roupa íntima e a partir daí começou a ter mais cuidado com o seu aspecto. Comprou um estojo de cosméticos para homem, e todas as noites hidratava cuidadosamente a pele.
Fez dieta, cortando nas almôndegas e nos molhos (especialmente o tabasco) e trabalhou os abdominais. Finalmente, encheu-se de coragem e foi declarar o seu amor à manequim exposta na loja, que nessa tarde vestia uma sedutora libré preta.
Desdenhosa, a manequim respondeu-lhe que preferia homens feios.
De coração destroçado, Frankenstein vingou-se numa pratada de almôndegas com molho de tabasco.

Carnaval de Torres

O Conde Drácula vestiu a sua elegante sobrecasaca, perfumou o seu hálito pestilento com um spray de amoras, colocou os seus novos óculos escuros Ray-Ban e saiu do seu castelo para ir ao Carnaval de Torres Vedras, como era seu hábito.

BA Hong Kong

As noites de sexta no Bairro Alto parecem o fim-de-ano em Honk Kong. O que não é necessariamente mau, desde que não se tenha agorafobia, ou haja algo que beber.

3/15/2007

MAI Way

António Costa e José Magalhães têm um novo blog. "A nossa opinião", ou MAI way é uma forma de poderem responder aos comentários mais jocosos da imprensa. É o Governo a exercer a liberdade de opinião e o seu direito de legítima defesa (como se não tivessem já a RTP para o fazer).
O MAI way serve para comentar os comentadores, mas não aceita comentários ...

3/14/2007

This day is long gone, dogs

"Every dog has it`s day".
Este foi o meu Tarantino Day, em 1992, ou seja, precisamente há 15 anos. Reservoir dogs, para dois cães danados no King - eu e o Bigi-Bigi - metade da audiência saíu a meio. Nós ficámos, até hoje.
This dog is getting old, como aliás se percebe pela generalidade das referências pop-culturais esplanadas neste bar. Sou aquilo que se pode chamar um trintinha óbvio, a caminho da nostalgia. Mad Dog!

Já agora, Michael Madsen torture style para animar o dia

"Stuck in the middle with you", provavelmente a música mais ouvida em Guntanamo, a seguir, claro está, ao "Guantanamera"

Contos paragráficos

Mais sobra
Quatro canibais convidaram um antropólogo para um fondue. Como este nunca mais aparecia, jantaram-se uns aos outros.

Contos paragráficos

A surpresa de Haydn
Surprise! berrou Haydn aos tímbalos da abundante duquesa, que como habitualmente ressonava na primeira fila do Royal Albert Hall.


Já não há nódoas no céu
O céu tingiu-se e nem com tira-nódoas se conseguiu apagar a mancha.

Leão fleumático
Dr. Livingstone, i presume – perguntou educadamente o enorme leão africano, antes de engomar o fleumático caqui do famoso explorador com os seus poderosos incisivos.

Observatório do palheiro

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha de horizonte.O que eu vejo é o beco."
Manuel Bandeira, “Poema do beco”


O palheiro da quinta é um ecossistema. Dormitório das cabras, quartel de retaguarda da legião de gatos de vadiagem, “resort” de escaravelhos da batata que se saracoteiam com a graça de “pin-ups” patinantes em Palm Beach.
O palheiro da quinta é um mundo sombrio e bafiento, atulhado de bicicletas pernetas, sombrinhas rotas, cavacos de lenha sisudos, estrume, rações e víveres de sustento dos poucos vivos que ainda vão emprestando ruralidade a uma quinta envelhecida, tanto como quem a amanha.
Mas o que faz de um palheiro, um palheiro, é a palha.
A palha onde se aninham as carraças, pulgas, ratos, e por vezes alguma cobra hibernante.
Antes dos colchões ortopédicos, a palha era cama e multibanco. Quem nunca dormiu no pináculo um monte de palha, com a lua como cobertor, não sabe a que sabe a palha, nem a vida.
A palha que enchia os colchões antigamente - os tais listados que deram o nome à claque do Atlético Madrid (os colchoneros) -, é hoje uma espécie em vias de extinção, tanto como os lagartos que se estendiam ao sol no alto dos muros, ou as borboletas que cirandavam nas camélias.
Extintos pelos pesticidas, pela morte lenta da agricultura de subsistência, pela cultura do consumo Lidl, com iogurtes estrambólicos e sumos sulfurados de conservantes.
O aconchego incómodo da palha é hoje uma recordação antiga, como as fotografias de família guardadas na escrivaninha, e que só de lá saem quando algum ente querido se fina, para uma consulta nostálgica aos dias felizes.

É talvez por isso, que o nosso primeiro-ministro diz que não há rabos de palha no PS, a propósito das propostas de combate à corrupção legadas por João Cravinho.
Com aquele seu semblante carregado de homem empossado por um destino messiânico que não se compadece com minudicências, José Sócrates decretou a ausência de rabos de palha num partido, que há semelhança do país, é um autêntico palheiro.
Portugal é um palheiro de corrupção activa, passiva, cúmplice, “voyeurista”. É um palheiro onde os escaravelhos da política se passeiam ufanos pelos cargos, benesses e negociatas que a camorra partidária lhe estende; é um palheiro onde carraças-chupistas sugam à descarada; onde as cobras esguias dos negócios e das empresas se furtam à justiça ao fisco e já agora às OPA`s; é um imenso palheiro onde os gatos se desunham por um favor, uma cunha, um palavrinha, um “toque” à pessoa certa, e certamente com poder.
Portugal é um palheiro onde as sombrinhas rotas não conseguem tapar o sol, e por isso desviamos os olhos, metemos as mãos nos bolsos e assobiamos para o ar.
De acordo com um estudo conduzido por investigadores do Observatório para a Corrupção do ISCTE os portugueses acreditam que há um problema generalizado de corrupção, mas a maioria é complacente, destrinçando a corrupção que envolve dinheiro, da outra que “apenas” envolve tráfico de influências, favores, cunhas, compadrio, nepotismo ou a forma mais generalizada de corrupção nacional – o jeitinho.
Os portugueses não são complacentes com a corrupção; são cúmplices. Estão dispostos a atirar umas pedrinhas para outros telhados, mesmo sabendo que as suas clarabóias são frágeis.
Indignam-se com a corrupção na administração pública, nas autarquias, no futebol, no emprego; mas essa iracunda indignação cala-se que nem um ratinho no momento de obter uma cunha para a filha recém-licenciada entrar para os quadros da câmara municipal, ou quando reelegem o seu edil, acusado de irregularidades, mas que tantas novas rotundas e relvados sintéticos deu à sua terra.
A indignação com a corrupção em Portugal só serve para enxofrar o vizinho e acaba na soleira da nossa porta, como Testemunha de Jeová barrada pelo cão de guarda.
Por isso, e como bem explicou António Barreto no “Público”: «Não se pode confiar na opinião pública ou na sociedade civil. (…) além de impotentes, vivem bem com a corrupção. Condenam a dos outros, mas acarinham a sua.»
Consciente dessa lassidão e complacência, o Governo prefere varrê-la para debaixo do tapete e entregar-se a outras batalhas mais urgentes e tonitruantes, como o encerramento de maternidades e de urgências de hospitais pacóvios; o choque tecnológico para ligar a malta toda à Internet a ver vídeos dos Gato Fedorento no Youtube; ou o plano Simplex (bom nome para uma marca de papel higiénico) para poupar post-its e agrafos ao dispensário real.
Montado num TGV-alado e nessas medidas de fundilho das calças, Portugal vai finalmente alçar-se à sela da modernidade, e com um maquinista do calibre do nosso, chegamos à Finlândia num tirinho. Não tardará muito para estarmos todos ligados à Internet de banda larga, a comer ostras e a beber Moet&Chandon com o nosso crédulo e complacente rabo sentado na palha.

O choque ético que devia ser a primeira batalha de um político moderno e determinado, como é o nosso maquinista de serviço, esse fica para as calendas.
A corrupção é o sustento da nossa economia paralela, a nossa mais poderosa vaselina social, o nosso Simplex de sempre para tratar da papelada, e é, por muito que custe ao nosso maquinista, o estrume onde prospera o sistema político português.
Para acabar com o palheiro da corrupção portuguesa não basta palheta politiqueira; não basta criar um observatório para a corrupção (que aliás já existe), porque como o próprio nome indica, um observatório serve para observar, e isso é o que fazemos há séculos.
Para acabar com o palheiro, basta coragem e um fósforo. Precisa de lume, caro engenheiro José Sócrates?


PS: Publicado no JF um deste dias, e reproduzido porque não sou assinante, e esta é uma forma tão boa como outra qualquer de organizar o meu arquivo

Quadros da vida militar

Ataque da cavalaria ligeira
Descontente com a velocidade de ponta das suas divisões de cavalaria ligeira, o coronel hussardo decidiu cortar na ração dos cavalos e no cognac dos oficiais.
- A cavalaria ligeira está lenta porque os cavalos estão gordos e os soldados bêbados – explicou ao seu lugar-tenente, antes de devorar uma barra de chocolate suíço.

História militar

Xeque-morte a título póstumo
O general Parsching sonhava em ser um grande mestre de xadrez e costumava dizer que gostava de conquistar a imortalidade com o seu nome gravado numa jogada de xadrez
Infelizmente, era um péssimo jogador de xadrez e conquistou a imortalidade com o seu nome gravado num míssil terra-ar.
Ele conquistou a imortalidade graças à mortalidade de muitos outros, como aliás costuma acontecer com os generais.