2/28/2007

Fumador activo - Contra o higieno-fascismo e o papel higiénico

Os fumadores passivos organizam-se. Preparam falanges, como no tempo das brigadas de temperança contra o álcool no Massachusets. A cruzada está prestes a partir para varrer os cães infiéis dos lugares santos - restaurantes, bares, bancos de jardim, paragens de autocarro ou até da sua própria varanda.



Esta semana um saudável engenheiro informático de 33 anos decidiu escrever uma queixinha ao Presidente da República, dizendo que o seu direito constitucional à saúde estava ameaçado pelos facínoras dos fumadores, e que a lei anti-tabaco nunca mais saía da gaveta do Governo.
Apesar de não alimentar preconceitos raciais contra engenheiros informáticos de 33 anos, deveria apenas recomendar a este aspirante a Jorge Miranda da cigarrada, que se esforce para que o mesmo "pacote" legislativo integre uma cláusula de defesa do seu inalienável direito constitucional a levar na peida. A mesma peida preocupada que porventura se está a cagar para, por exemplo, o facto de 20 por centos dos seus compatriotas viver abaixo do limiar da pobreza (de acordo com estudo da CE). Mas isso não tira o sono ao nosso engenheiro cívico, o que o preocupa é o seu direito constitucional à saúde que é ameaçado em restaurantes que não frequenta (no McDonalds á áreas restritas de fumadores, e a telepizza não tem política de impedir o fumo no domicílio); o que preocupa o engenheiro é a fumarada dos bares e discotecas onde nunca pôs o rabo (porque certamente pouca gente tem cú para ir beber copos com um gajo destes). Este engenheiro informático quer ter o papel higiénico da nação, e como ele muitos outros perigosos higieno-fascistas se preparam já pra a batalha, para a denúncia, para a perseguição.
Enquanto isso, os fumadores activos, como eu, preparam-se para o inevitável, para a fatalidade de terem de passar "à clandestinidade", como tão bem explica o "Grande" Miguel Esteves Cardoso, na sua "recôndita" e deliciosa coluna na "Única" e que são os melhores 3 mil caracteres que se publicam na imprensa portuguesa.

Está na hora dos fumadores de todo o mundo se unirem para travar os cruzados higieno-fascistas.

2/16/2007

Aqui fuma-se!

Antecipando a campanha anti-tabagista que se organiza na sombra, Vodka7 declara desde já a liberdade de fumo no seu estabelecimento. Mais do que liberdade, o culto de fumar. Para começar, Vodka7 apenas aceita dois tipos de patrocinadores, como aliás se verá pela publicidade que passará a ornamentar o bar - fabricantes de bebidas alcoólicas e fabricantes de cigarros.

Toda a outra publicidade, especialmente a que instigue ao culto de estilos de vidas saudáveis, nomeadamente iogurtes magros, cereais e termas, está banida deste bar.

Para já, um cigarro tranquilo com Charlize Theron.


2/15/2007

The Breeders ao vivo no Vodka7

Vodka7 prepara festinha de carnaval caseiro, com Kim Deal e as Breeders, para uma respiração ofegante.
Na lista de convidados estão também Groucho Marx e seus "fratelos" que trazem piadas novas e um paquete de luxo com champagne e jogadores profissionais de gamão. Hemingway vem mascarado de gorila e se calhar traz a sua boémia de Paris, talvez Anais Nin e Henry Miller cheguem mais tarde.
Quatro poetas farão ponche e pimentos padrón, são eles Alexandre O`Neill, Rimbaud, Álvaro Campos e Bocage.
Dos históricos, Napoleão mascarado de czar, e Catarina a Grande disfarçada de candelabro estão também confirmados.Os fumícios são de Janice Joplin e a Rita Hayworth vem se se despachar a tempo do cabeleireiro. A Uma Thruman ficou de confirmar, mas eu espero que venha. Segunda feira a festa é no Vodka7, traga pevides e uma amiga também. Drinks are on the house.

Filosofia de bar

"Nada em excesso" (Inscrição no oráculo de Delfos)
"Tudo em moderação" (Aristóteles).

É por causa desta falsofia que Aristóteles daria um péssimo barman e em Delfos não se podia beber um copo descansadamente.
No bar do Vodka7, o articulado correcto é:
"Tudo em excesso, nada em moderação.
Beber imoderadamente é a única salvação."
Sai um whisky trouble para a mesa do canto

História militar

In "memórias de um cabo miliciano na quermesse dos oficiais"




Raios os Espartam

Encurralados e em inferioridade numérica, as divisões hoplitas de Leónidas lançaram-se numa temerária manobra ofensiva sobre as fileiras persas. Os mil homens do General espartano Leónidas, despiram as armaduras, tiraram as caneleiras e as túnicas interiores, e todos os nus, apenas com o elmo ático na carola, lançaram-se com lancinantes gritos sexuais pelo desfiladeiro das Termópilas em direcção às tropas de Dário. Receosos pela sua masculinidade, os persas debandaram em pânico, tendo muitos deles sido esmagados pelos seus companheiros, e outros caído ao mar. Os homens de Leónidas acabaram por perecer, vítimas de escaldões, mas ainda hoje a praia de “termo pilas” é uma das estâncias de nudismo gay mais procuradas da Grécia.


Condecorado e enlatado

O velho General foi amplamente condecorado.
O ministro fez um discurso longo e cheio de floreados. Dois soldados imberbes dispararam uma salva de tiros para o ar (tendo atingido dois papagaios inocentes – danos colaterais, dizia o relatório) e o ordenança murmurou no espaço entre os dentes da frente:
- Até que enfim.
O general, visivelmente comovido, beijou a bandeira da República, bateu continência ao Ministro e mergulhou nas águas da Ericeira, passando à reserva como atum.

Cabo do medo
O cabo suspirou de alívio, ao ler o telegrama do Ministério da Defesa.
Afinal já não havia o perigo de invasão e por isso podia continuar pacatamente a beber minis e a fumar SG Ventil.
A metralhadora, essa, amuou.

Batalha do amor naval
Duas fragatas apaixonaram-se perdidamente por um porta-aviões. Este, galante e indiferente, disse que a vida militar não lhe permitia constituir família.
As fragatas, despeitadas, decidiram afundá-lo com a ajuda de um submarino ciumento.
Depois de ter ido ao fundo o porta-aviões, as fragatas envolveram-se sexualmente com o submarino, barco de um cano, mas grosso.

Império no Bósforo, foi-se num fósforo
O contra-almirante Brás pegou num fósforo e ateou fogo à réplica de uma trirreme grega que o Almirante Gomes de Sá construía laboriosamente há mais de 20 anos com palitos surripiados na messe de oficiais.
Os coríntios que tinham patenteado a embarcação, viram os seus planos de expansão militar ir por água abaixo. Foram ocupados por Atenas, e contentaram-se em passar à posteridade como clube de futebol em São Paulo.

Segurança estratégica
Depois de se borrar todo com a carga da cavalaria ligeira dos hussardos, Clausewitz subiu as calças e fugiu para um hotel nos Alpes, onde escreveu uma obra sobre estratégia militar.
Sempre era mais seguro e o chocolate quente era melhor.

Politicamente incorrecto
A política é uma coisa demasiado importante para ser deixada ao cuidado dos políticos, disse o sargento aos microfones da rádio, momentos antes de atacar o Parlamento à morteirada.

A revolta dos gatilhos ou
o inevitável destino de Yuri Tupolev

Yuri Tupolev enfrentou corajosamente o pelotão de fuzilamento do Exército Vermelho.
Rejeitou a venda e gritou a plenos pulmões:
– Liberdade ou morte!
Os carrascos tentaram premir o gatilho, mas estes recusaram obedecer e ao abrigo da Convenção de Genéve declararam-se objectores de consciência. Furioso, Estaline condenou os gatilhos a servir como rodas dentadas nos motores de tractores na Sibéria e ordenou a um sabre obediente que separasse a cabeça do tronco de Yuri Tupolev.

Pontaria afinada
O soldado fez pontaria com a sua bazuka e conseguiu acertar em cheio no boneco da barraca de feira que se desfez em mil pedaços.
Sorridente o soldado piscou o olho ao menino e pegou no Noddy de pelúcia a que tinha direito.
O menino olhou desconfiado para a sua pressão de ar, que prontamente lhe respondeu:
- Nem pensar nisso é bom!

Air is all i need

Para respirar fundo

2/13/2007

Encontro imprevisto na Bulhosa

O Central Park estava à pinha, parecia um refeitório colectivo de yuppies apressados e carrancudos. Desisti do sumo de melancia e da kiche de cogumelos e refugiei-me na Bulhosa. Gosto da Bulhosa por causa do nome.
Soa bem, parece uma iguaria antiga, uma receita perdida de um molho - pato com pinhões e recheio à Bulhosa.
Bertand não gosto, tem nome de televisor ou transistor para ouvir o relato da bola.
Também gosto de Bucholz. Soa a filosofia séria, a santuário de amor aos livros; respeitável e com ressonância de negócio de família, como uma mercearia de serviço austero, mas atencioso.
Entrei na Bulhosa e fintei os escaparates com uma simulação de corpo à Garrincha, driblei depois as estantes dedicadas aos nados bestsellers de fabrico nacional.
De fabrico nacional gosto do vinho, do queijo e das bolachas maria.
Parece que agora o romance histórico ou de inspiração histórica varreu os teclados dos escrivões lusos. Bocage e D. Sebastião exibiam sorrisos amarelos e cúmplices, expunham-se lado-a-lado como temível e travessa duplas de centrais paraguaios.
Com uma revienga à Tostão, passei pelo meio de ambos sem lhes passar cavaco.
Confesso que hesitei na lateral direira, a estante da Tachen impunha-se como uma Tágide traiçoeira. Audrey Hepburn dissimulava aquele sorriso cândido capaz de destruir um império. Mas quase perdia a compustura de avançado mortífero quando fui barrado por "A History of breaths trough time", que é como quem diz "História de mamas através dos tempos".
Pin-ups de calendários dos anos 50 sussurravam com lascívia - leva-me contigo.
Foi por um triz. Felizmente o preço (quase 50 euros) impediu-me de ornamentar a minha estante onanista.
Que nem uma seta apontei ao cantinho escondido da poesia. Respirei fundo e aliviado, folheei Sophia, cusquei Eugénio, fingi concentrar-me em Verlaine, até que por fim, lá estava ele, bonacheirão, velhinho e simpático.
Manuel Bandeira, brasileiro, pai do modernismo transantlântico, poeta grande, coração ainda maior. Sorri-lhe e pedi para me ler um poema. Ele pigarreou a cigarrilha turca e disse:

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha de horizonte.
O que eu vejo é o beco."

Encurralado, meti-o no bolso e fui-me embora para Pasárgada, "lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei".
Pelo caminho, raptei Zeus e seus panteão, os deuses celtas e até ugro-filandeses, levei-os todos empacotados por Félix Guirand na monumental "História das Mitologias".
Paguei e fui-me embora sem almoçar.
Em casa fiz sandes de queijo da serra para todos, abri uma garrafa de vinho.
Foi uma paródia até às tantas. Manuel Bandeira a recitar poesia e os deuses gregos numa grande orgia.
Dionísio podre de bêbado a ver se levava para a cama Nijola, a sensual deusa da fertilidade lituana. Zeus ressonava e Apolo jogava canastra com Rá. Foi até de madrugada, mas por fim,
lá corri com eles para a estante do Círculo de Leitores, depois de deitar Manuel Bandeira, exausto, ao lado do seu amigo Drummond.
Meti-me no endrendon, apaguei a luz e num suspiro lembro-me de ter ficado a pensar que devia ter trazido a "história das mamas ao longo do tempo".

Públicozinho

O novo “Público” está nas bancas, se por acaso o tema venha à baila num almoço de negócios à laia de desbloqueador de conversas, e se não teve vagar de ver o novo jornal, eis algumas dicas para se desenrascar e não passar por bronco ou info-excluído:

Se quiser parecer “fashion”, positivo, anglo-saxónico e politicamente correcto diga: “Está tão clean e arejado, parece o Guardian. Tem mais leitura”

Se preferir a dúvida como método, diga: “Acho que está bem arrumado, mas agora tudo depende dos conteúdos. Já se sabe que ninguém tem paciência para ler, ainda mais com a Internet.”

Se preferir a verdade pode dizer simplesmente e por batidas, como se fosse um rapper:

“O Público está cor de laranja”

“O Público parece aquelas laranjas viçosas que se vêm nos supermercados, mas que quando se descascam estão mais secas que uma pevide”

“O Público está muito parecido com o DN”

“O Público agora é a cores, mas as notícias ainda são a preto-e-branco”

“Desculpe, mas o único diário de referência que conheço em Portugal é o El País”

“Dizer que se abre o jornalismo a uma nova era, e à sociedade só porque se tem duas páginas sobre o fenómeno You Tube, parece-me um bocadinho pretensioso.”

Se preferir ser lacónico e místicos:
“Como dizia um velho provérbio chinês que acabei de inventar - Não basta mudar de peúgas para encontrar um novo caminho.”

Segunda-feira de cinzas

No rescaldo do referendo, tomar a pílula do dia seguinte e ficar a saber que:

- Em Portugal há tiranetes aos pulinhos em cada esquina. Que querem ajuizar, sentenciar, condenar e mandar. Portugal parece uma esquadra cheia de bófias, polícias de giro e juízes de comarca.

- Que quando alguém se abstém de votar nalguma coisa, está a dar o seu voto à minoria derrotada, o que significa que a solução para a crise da democracia representativa é passar a atribuir os votos da abstenção entre os grupúsculos sem assento parlamentar.

- Que em Portugal, as convicções são meras sombras da obstinação.

- Que o que as pessoas importantes e respeitáveis que aparecem na televisão não gostam mesmo é de perder. O mau perder é apenas o rosto visível da hipocrisia. Mais do que com o "protagonista" estes entes estão é preocupados com o seu protagonsimo.

- Que mesmo assim, ainda conseguimos ser livres de pensar pelos nossos próprios meios, sem ajuda de muletas; autocolantes, gráficos do Eurostat ou médicos loucos.

Respiração

Hummm! O sol frio da manhã quente.
Respira-se melhor em Portugal.

Desconstrução do Não (II)

7 - Tese do contribuinte ofendido
Porque é que os contribuintes hão-de financiar com os seus impostos as clínicas de aborto?

Simplesmente porque o aborto clandestino é um problema de saúde pública e um flagelo social, que deve ser enquadrado no âmbito do SNS, ou de eventuais contratualizações que este decida celebrar, como aliás o faz para centros de tratamento de toxicodependência, tratamento da tuberculose ou para tratamento de doentes de SIDA. Colocar a questão nesses termos é o mesmo que perguntar a um contribuinte se acha que deve comparticipar tratamentos de metadona a um toxicodependente, ou retrovirais a um doente da SIDA. Além disso, as mulheres também pagam impostos.
Este é uma pergunta que qualifica bem quem a faz.



8 - Tese eugenista
Com o problema demográfico e o envelhecimento da população é um absurdo estar a ceifar potenciais vidas

Pela mesma ordem de razões os defensores desta tese colocam-se ao lado de teses eugenistas e das restritas políticas de natalidade da China.
O problema demográfico não se resolve penalizando penalmente a interrupção de gravidezes indesejadas, até porque está provado que a ameaça da punição não impede a sua consumação; apenas impede que seja feito em condições clínicas seguras.
Estes “Eugénios” sociais poderiam também defender a “obrigatoriedade da reprodução” limitando o recurso a contraceptivos, proibindo as vasectomias e os laqueamentos de trompas, os DIAP`s ou até a pílula e os preservativos. Na sua sinistra linha de raciocínio, a fertilidade e a constituição de família devem ser impostas e reguladas pelo Estado em nome de um suposto interesse superior, e independentemente das condições económicas, sociais e psicológicas de cada indivíduo. Este pensamento tem um nome simples – chama-se fascismo.


9 - Tese médico-legal
Os médicos são contra a interrupção voluntária da gravidez. Por isso é uma violência impor-lhes uma prática condenada pelo seu código deontológico

Louvável esta sensibilidade com a consciência dos médicos. Acontece, que há muitos médicos que são a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, porque colocam a saúde dos seus pacientes acima dos seus juízos morais. Nenhum código deontológico é imutável e nenhuma regra de conduta profissional se sobrepõe à lei geral da nação. E se a lei geral da nação passar a permitir a prática de interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas em estabelecimento de saúde autorizado, a Ordem dos Médicos deve rever o seu código deontológico e permitir que os médicos contribuam para o saneamento de um problema de saúde pública. Todos os que preferirem por questões de consciência não o fazer, devem invocar um estatuto de objector de consciência devidamente justificado e enquadrado. A única violência é haverem milhares de portuguesas que sofrem problemas de saúde devido a abortos clandestinos e não recorrem aos hospitais e centros de saúde com medo das consequências penais. Por mais que gostassem alguns médicos, um hospital não é um tribunal.

10 - Tese do vanguardismo humanista
Apesar de noutros países haver leis mais condescendentes com o aborto, Portugal podia ser pioneiro e vanguardista no humanismo de proteger a vida

Pioneiro significa ser o primeiro. Não se percebe o pioneirismo de manter uma lei conservadora e retrógrada que existiu em muitos países da Europa, mas que foi sucessivamente abandonada em nome de um realismo humanista que acompanhou a evolução da sociedade.
Por cá, luminárias toscas e tiazinhas ungidas como Matilde Sousa Franco acham que vanguardismo é sinónimo de imobilismo. Esta é uma tese que não resiste a uma consulta breve do dicionário, quanto mais a um manual de direito comparado.
Será que há menos ética e respeito pela vida em países como a Suécia, França, Inglaterra, Alemanha, EUA ou Canadá?

11 - Tese utópico-social
Devem-se atacar as causas do aborto e defender a maternidade em vez de liberalizar o aborto

Tese preferida dos corações bondosos e brandos, mas que encerra um idealismo funesto e instrumental. Ainda que num súbito golpe de mágica fosse possível criar uma sociedade de bem-estar, onde as causas prováveis do aborto fossem completamente erradicadas, jamais seria possível acabar com as gravidezes indesejadas e com o aborto clandestino.
Por isso mesmo, combater as causas do aborto não justifica “per se” uma oposição à despenalização do mesmo. Justíssimo que se lute por planeamento familiar, educação sexual nas escolas, apoio sólido à maternidade, combate à pobreza, mas não percebo porque é que essa defesa tem de ser feita em justaposição à obstinação em manter a interrupção voluntária da gravidez como crime punível por lei. Se pensarmos que um senhor como Bagão Félix é um destes arautos da boa causa, e que foi ele, enquanto Ministro do Trabalho e da Segurança Social, que assinou uma lei que reduz o período de licença de parto, então percebemos que a utopia se confunde perigosamente com hipocrisia. As preocupações com as causas do aborto terminam no dia em que o seu dogma for imposto à restante sociedade. O que lhes interessa verdadeiramente é manter o aborto como crime, “no matter what”.


12 - Tese do protagonista
Desde que é gerado, o embrião goza de direito à vida e a vida deve ser protegida

É no fundo a tese central dos defensores do Não e a única a merecer consideração do ponto de vista filosófico, ético e científico. Trata-se de matéria de convicções, e nessa qualidade devem ser respeitadas.
Mas, para haver coerência nesta tese do absoluto e sagrado direito à vida do embrião, então estas pessoas devem ser contra as excepções inscritas na presente lei, nomeadamente, o aborto em caso de malformação do feto ou em caso de violação.
Admitindo estas excepções, abrem a “caixa de Pandora” e deixam de ter idoneidade ideológica, já que consideram que o tal sagrado direito à vida do embrião não é total, absoluto e inviolável, havendo “protagonistas” de primeira e segunda categoria.
Mesmo que respeitáveis, os argumentos filosóficos, éticos e científicos não são absolutos e categóricos, já que para o mesmo problema é possível encontrar formulações filosóficas, éticas e científicas que caucionem o juízo diametralmente oposto. Significa isto tão somente que não havendo consenso social, deixa de haver razão para legitimar o uso da força penal, através do Estado, para impôr à restante sociedade as nossas próprias convicções.
É livre de não o fazer quem nisso acreditar, é livre do fazer quem necessitar. Trata-se de uma elementar questão de liberdade individual, que tanto parece acicatar um país povoado de tiranetes. Para os partidários do “Não”, o protagonista deste referendo é um conjunto de células em formação, sem autonomia da vida da mãe.
Para mim, o protagonista deste referendo é a liberdade.
A liberdade, essa sim o dom mais precioso da vida.

2/06/2007

Desconstrução do Não (I Parte)

As principais teses do Não, porque por vezes as piores tarefas são feitas com os melhores dos propósitos:

1 - Tese da pergunta com malformação congénita
A formulação da pergunta do referendo é capciosa e não introduz a necessária regulamentação da interrupção voluntária da gravidez

A pergunta é idêntica à colocada em 1998, tendo sido duas vezes escrutinada e aprovada pelo Tribunal Constitucional e votada maioritariamente na Assembleia da República. Como já foi explicado até à exaustão, seria impossível e inconstitucional a pergunta do referendo conter todo o enquadramento legal para a prática de interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas por decisão da mulher em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.
Essa será a tarefa do legislador, que só o poderá fazer depois de votada em referendo a despenalização nas condições enunciadas na questão.
Tudo o resto são subtilezas de tribunos, indignas num debate desta índole.


2 - Tese do cheque em branco
Votar Sim é votar a favor da liberalização do aborto passando um cheque em branco à mulher que o queira fazer.

Votar sim é votar na despenalização penal da interrupção voluntária da gravidez, desde que ela seja feita nas primeiras 10 semanas em estabelecimento de saúde autorizado e por decisão da mulher, o que exclui as intervenções feitas fora desse período, desses locais e por decisão de outrém.
Liberalizar o aborto seria permiti-lo em qualquer tempo de gestação, sob quaisquer condições e a mando de qualquer um. Curioso o labéu com que se pretende crivar a palavra liberalização, sobretudo por muitos defensores do “Não” que se pavoneiam na vida pública como liberais.
O seu liberalismo confina-se às negociatas. Não são liberais, são meros comerciantes. Um liberal é alguém que defende a liberdade e a procura da felicidade individual, sem que ela seja tutelada pela vontade do Estado, ou pela moral dominante.


3 - Tese da má-consciência
Somos contra a liberalização do aborto, mas consideramos que as mulheres que abortam não devem ser punidas, aliás não há uma única mulher na cadeia por ter cometido esse crime.

Mirabolante e estapafúrdia tese do Prof. Marcelo que rapidamente fez escola. Mantendo a actual moldura penal, o aborto é passível de acção criminal, que em última instância pode levar mulheres à cadeia.
O facto de não haver mulheres na cadeia não impediu que muitas fossem levadas a tribunal, sofrendo a humilhação e devassa da sua vida privada, típica destes casos.
Aliás, nada garante que no nosso kafkiano sistema de justiça não apareça um destes dias um juiz imbuído dos axiomas do fundamentalista-biológico que decida não fazer vista grossa e aplicar a lei “avant la lettre”.
A lei deve ser clara e transparente e deixar o mínimo de latitude às discricionárias interpretações da magistratura
De qualquer forma não se vislumbra como é que se pode defender a criminalização do aborto e simultaneamente “descriminalizar” quem o pratica, mesmo com originais artifícios jurídicos, como a suspensão do processo penal ou a invocação de causas desculpabilizantes, como tão facilmente demonstrou Vital Moreira no seu artigo do Público “A estratégia da confusão”.
Este argumento é um sintoma de má consciência e enferma de uma insanável contradição que faria o Professor Marcelo chumbar em qualquer oral de liceu.
É um argumento hipócrita que aceita a “despenalização” da mulher que pratica o aborto, desde que o faça longe dos estabelecimentos de saúde devidamente autorizados, os únicos que lhe podem oferecer aconselhamento psicológico, bem como actos médicos seguros.
A isto pode com propriedade chamar-se – a tese da liberalização do aborto clandestino – cuja autoria moral é dessa reverenda e cabotina figura, e que pelos vistos se transformou rapidamente no mais popular argumento dos defensores do “Não”.

4 - Tese do equilibrismo
Devem ser calibrados os direitos da mulher com os direitos do embrião. A liberdade deixa de ser absoluta quando os direitos de outro estão em causa

Inteiramente de acordo com esta formulação.
Acontece que sob a actual forma de lei, essa equitatividade está descalibrada, já que o embrião goza de direitos quase absolutos sobre a liberdade de escolha individual da mulher.
Ao votar Sim está-se a introduzir um maior equilíbrio entre os direitos da mulher e do embrião, já que a primeira pode fazer em consciência a sua escolha no primeiro terço do período de gravidez, e o segundo goza de protecção penal no restante período da gravidez.
A “bondade” deste argumento encerra também um sinistro raciocínio ortodoxo-católico que relega a mulher a uma mera função reprodutora e hospedeira. Curiosamente, esta é a tese defendida, por exemplo, por Laurinda Alves.

5 - Tese do efeito multiplicador ou do telemóvel
Despenalizar o aborto é uma forma de facilitismo que vai aumentar exponencialmente o número de abortos em Portugal

Formulação da famosa tese dos telemóveis do sr. César das Neves, que encerra um obsceno juízo moral em tom de jocoso paternalismo.
Não havendo números fidedignos sobre o aborto clandestino em Portugal (calcula-se que sejam 18 mil por ano), é natural que a despenalização permita identificar a dimensão do fenómeno, e que numa primeira fase ele pareça “exponencial”. Muitos partidários do “Não” evocam estudos e números do EuroStat em relação a países onde o número de abortos tem vindo a crescer.
Mesmo tomando como bons esses estudos, acontece que os números são como o cubo mágico, tudo depende da cor que se quer mostrar. Porque os números evocados são absolutos e não cruzam variáveis tão importantes como: mulheres em idade fértil, condições sócio-económicas, números de consultas de planeamento familiar, acesso a meios contraceptivos ou até diminuição do número de abortos clandestinos com natural “migração” para os números da legalidade oficial.
É natural que, caso seja despenalizada a interrupção voluntária da gravidez, o número de abortos a praticar em Portugal seja superior a 18 mil, porque a clandestinidade favorece a ocultação; já para não falar dos outros milhares de portuguesas que deixarão de ir a Espanha ou Londres, e poderão passar a ser assistidas legalmente no seu país.
A tese do facilitismo pressupõe que o aborto é uma decisão “fácil” e leviana e que a despenalização vai permitir fazer abortos de ânimo leve, como se fosse um mero método contraceptivo.
Este grotesco raciocínio revela um total desconhecimento da natureza dramática e solitária decisão de fazer um aborto, e pior, da natureza das mulheres, como se fosse plausível pensar que até hoje muitas mulheres decidiram deixar de fazer um aborto porque era ilegal.
O mesmo é dizer que agora passarão a fazer mais porque é legal. Os defensores desta tese ainda têm o atrevimento de se auto-proclamar humanistas? Que a vergonha se abata sobre vós.

6 - Tese da pílula do dia seguinte
Com o acesso ao planeamento familiar, a métodos contraceptivos e inclusive à pílula do dia seguinte, deixa de haver qualquer justificação para o aborto.

Em primeiro lugar não está totalmente garantida a fiabilidade da generalidade dos métodos contraceptivos.
Ainda que estivesse, continuaria por generalizar o acesso a esses meios, quer por uma questão de informação, quer por uma questão económica.
Quem (re)produz este argumento teima em olhar o mundo através do seu umbigo e do seu círculo restrito de conhecimentos. Num país onde há bolsas de miséria, onde se calcula que haja mais de um milhão de pessoas que vivem no limiar da pobreza (sem condições sanitárias e educacionais mínimas), defender que o acesso a meios contraceptivos “é generalizado” é um autêntico insulto à pobreza e às condições de vida de muitos dos nossos compatriotas.
Em consciência, todos aqueles que assim pensam deviam defender a Educação Sexual nas escolas, a distribuição gratuita de meios contraceptivos a grupos de risco (nomeadamente nas escolas secundárias); o aumento exponencial das consultas de planeamento familiar e a redução dramática do tempo de espera para essas consultas (que nalguns casos ultrapassa os seis meses). Curiosamente não consta que o façam.
Entre as muitas causas possíveis que contribuem para a prática clandestina do aborto em Portugal, a pobreza e a falta de informação não serão certamente desprezíveis. Todas as pessoas dos círculos dos autores deste argumento estão certamente informados sobre os métodos contraceptivos, mas também sobre as clínicas em Espanha e Londres, onde podem fazer um aborto seguro. O aborto só é clandestino para quem não pode pagar um legal e seguro.

2/04/2007

No one expects the spanish inquisition!

Se Torquemada abrisse os jornais desportivos deste fim-de-semana era gajo para lançar uma nova caça às bruxas. Mas como ninguém espera a Inquisição espanhola vamo-nos entretendo com as bolas na trave e os fogaréus do "Não".

I'm Your Man

If you want a doctor, i will examine each inch of you

1/31/2007

Interrupção voluntária da inteligência

“Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros.”
Françoise Sagan


Já começou a peixeirada. A histeria pré-referendo abancou na sociedade mediática, e por contaminação, na vida quotidiana e real das pessoas. Mesmo quando se trata de um tema complexo e sensível como o aborto clandestino, que de acordo com dados da Associação Portuguesa de Planeamento Familiar afecta anualmente 18 mil mulheres, o nível de debate roça o da praça e a linguagem de um vulgar carroceiro.
No meio da algazarra, pouco importa o esclarecimento, o respeito pela opinião dos outros, e acima de tudo, o respeito pela dignidade da vida humana, que é obliterado nesta campanha abjecta.

A radicalização do discurso, procurando extremar posições e fazer saltar os “inimigos” das trincheiras, foi a táctica adoptada por alguns partidários do “Não” face à sua desvantagem numérica (pelo menos a julgar pelas sondagens de há dois meses).
E a julgar pelas últimas sondagens, esta estratégia surtiu os seus efeitos, porque apelou aos instintos básicos do tuga – a mesquinhez, o preconceito e a moralzinha de pacotilha.
É sintomático que os campanhistas do “Não” tenham abandonado a defesa da vida do feto como objecto central das suas teses, colocando a tónica na questão economicista.
É uma lógica de impostores que decerto se oporiam ao tratamento de toxicodependentes com metadona, ou até à comparticipação em medicamentos para doentes da SIDA. São argumentos que qualificam quem os produz.
Os impostos também são meus e prefiro que sejam utilizados com esses fins, do que redistribuídos entre os partidos ou para pagar chorudas indemnizações às administrações da Caixa Geral de Depósitos, ou mesmo ajudar a financiar campanhas da índole desta.
Com acesso a meios financeiros pouco habituais na dita sociedade civil, a campanha do “Não” conseguiu mobilizar a sociedade pacóvia e atávica; a mesma que na sua vidinha pessoal comete todo o tipo de sacanices e que espasma de indignação com a ideia dos seus impostos (os tais que evita pagar) irem financiar clínicas de aborto espanholas.
Uma indignação esbaforida e barriguda, que porventura é a mesma que esfrega a pança nos lençóis de um bordel de má catadura em Ciudad Rodrigo.


As vozes tonitruantes da campanha do “Não” são do calibre de uma sinistra ratazana de sacristia como o Abominável César das Neves, que profere impunemente barbaridades como esta: “A vitória do sim torna o aborto tão normal como comprar um telemóvel”; outro diácono dos remédios, Sarsfield Cabral, vocifera por seu turno que o aborto será tão fácil como ir de férias para o Brasil; enquanto um bispo ébrio de ódio compara a descriminalização do aborto ao enforcamento de Saddam Hussein.
Perante o silêncio cúmplice de mais respeitáveis e moderados defensores do “Não”, só me resta concluir que partilham estes argumentos sacripantas, e em vez de colocarmos esta “querela” num plano de consciência individual, devíamos era sugerir que dessem mais um apertão no cilício.
Como se vê, também não passo imune à febre nacional do insulto, como também não o fizeram os paulatinos do “Sim”, com o tele-evangelista Louçã e o seus acólitos bloquistas a empunhar o estandarte de uma cruzada politicamente correcta, ou melhor politicamente interesseira, no sentido de ressuscitar um partido tagarela e inútil.
O ataque jacobino que alguma esquerda decidiu fazer à Igreja Católica a pretexto da sua posição pública sobre o referendo é tão previsível e desajustado, como no geral esta esquerda luminária é.
A Igreja Católica tem, à luz da sua doutrina, toda a legitimidade de se manifestar publicamente contra a interrupção voluntária da gravidez, e mesmo de vincular os seus crentes a esse “dogma”. Aos católicos resta acatar ou não o guionismo moralista da sua fé.
Aos outros, que nasceram no catolicismo mas agora professam o narcisismo (piada roubada a Woody Allen), os assuntos da Igreja e a forma como esta faz catequese, pura e simplesmente não lhe dizem respeito.
Aliás, é de sublinhar a moderação e sensibilidade com que o Cardeal Patriarca de Lisboa expressou a sua opinião sobre um tema tão delicado, contrastando com as afirmações grotescas com que alguns dos seus prelados e “mujahedins” da Opus Dei conspurcaram o debate.

Mais preocupante do que o folclore habitual num país atrasado mental, são os sintomas que perpassam deste referendo - A tentação do totalitarismo, a intolerância e a apetência por um sistema de escrúpulo “orwelliano” em que a sociedade organizada em torno de um “bem comum” se permite a estropiar e sacrificar o património mais valioso do ser humano – a sua liberdade individual.
Como Graça Franco defende, o referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez é uma questão civilizacional, mas não nos termos que ela julga correctos e até convenientes.
Não se trata de “defender a vida” ou uma questão de saúde pública como advoga a esquerda-higiénica. Trata-se de criar fronteiras à liberdade individual. Eu acredito que o nosso corpo e até o uso que lhe damos são o nosso último santuário de liberdade individual. Não é de estranhar que é sobre ele que ao longo da história da humanidade foram exercidos flagelos, punições e torturas como forma de submeter o nosso livre-arbítrio ao jugo dos “valores civilizacionais” que em tempos mandavam pessoas para a fogueira porque acreditavam que o Sol girava em volta da terra.
Em pleno século XXI anda para aí muita boa alminha com fósforos no bolso, prontos a atear uma fogueira a todos aqueles que não se convertam à sua visão, aos seus dogmas e ao seu totalitarismo moralista.
Toda a moral é relativa e instrumental, e por isso prefiro a ética da liberdade, cuja única fronteira plausível é a responsabilidade social.
Despenalizar a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas é uma forma de dar às mulheres do nosso país a soberania sobre o seu próprio corpo, por isso mesmo nem acho que esta seja matéria referendável. Mas já que infelizmente é por culpa de um PS calculista e cobardolas, votar “Sim” no referendo é também uma forma de repudiar todos aqueles que fizeram uma campanha ordinária, machista e injuriosa, tratando as mulheres que recorrem à interrupção voluntária da gravidez como libertinas, levianas e lascivas.
O mais obsceno de tudo isto é que nenhum dos proeminentes líderes da campanha do “Não” ou do “Sim” teria de passar pela experiência traumática de um aborto clandestino, porque todos eles teriam desafogo económico para ir fazer o desmancho a Espanha ou a qualquer outro país civilizado da Europa.
É essa altivez da moral burguesa e desligada da miserável realidade, que por vezes torna este país irrespirável.

Publicado no JF um destes dias

1/30/2007

A razão à maior de doze

Sinceramente, alguém que pensa votar "Não" no referendo de domingo devia ser primeiro obrigado a ler o artigo de Vital Moreira no "Público" de terça-feira passada, não são simples argumentos a favor do "Sim", é tão somente a razão e a verdade.

Chocolate Jesus

Chocolate amargo para todos aqueles que se levantam domingo para ir perorar sobre o ventre dos outros

Prós e Contras - Serviço de desinformação pública

O programa Prós e Contras é um galinheiro de desinformação pública.
Conduzido por essa sopeira com tiques de governanta chamada Fátima Campos Foleira, o respeitadissimo programa é o retrato do jornalismo populista, gaiteiro e cabotino que se pratica na TV nacional.
O debate sobre o referendo à interrupção voluntária da gravidez foi um espelho daquilo que é este pais artificial e supérfulo criado para o prime time da satisfação da populaça ululante que coça os tomates de indignação lá em casa.
Por isso mesmo um programa desta índole seria sempre um palco mais adequado à grosseira demagogia e voluntarismo hipócrita dos partidários do Não, do que aos argumentos realistas e friamente humanistas do Sim.

Num palco de demagogia, uma voz séria e esclarecida como a de Vital Moreira seria sempre abafada pela estrindência sofismática de Aguiar Branco, que polarizou o debate em torno da peregrina tese de Marcelo Rebelo de Sousa de que "seria a favor da despenalização ou da criação de uma nova moldura penal para a interrupção voluntária da gravidez, mas que sou contra o aborto livre".
Dirigindo-se insistetemente "às pessoas lá de casa", este advogadote farsolas que já foi Ministro da Justiça e é um dos "cardeais elegíveis" do PSD, fez de um debate pretensamente "esclarecedor", uma sala de reuniões de uma qualquer distrital do seu partido, utilizando "truques" parlamentares para iludir as questões sérias que lhe eram colocadas e fazer vingar a sua tese de "aborto livre".

Vital Moreira tentou centrar o debate na questão penal e nas liberdades individuais, que penso eu serem o "coração" deste referendo, mas fê-lo por vezes numa linguagem meio criptada que dificilmente é "ouvida lá em casa", quando do outro lado se ouvem berros a gritar "ò da guarda, querem matar bébés".
E penso que, infelizmente, o bom senso sossobrou deste debate, porque se há combate difícil a travar em qualquer debate, é contra a demagogia.
Como se pode argumentar com pessoas que como a fadista Kátia Guerreiro são contra a despenalização do aborto "porque isso vai criar desigualdades sociais. Por exemplo as mulheres do interior vão ter vergonha de ir aos hospitais, porque toda a gente as conhece, enquanto nos grandes centros urbanos há a defesa do anonimato". Inacreditável monumento à burrice este raciocínio que qualifica bem quem a produz.

Depois é o tom moralista de defesa da vida que é insano e insuportável, como se todos nós os outros fossemos assassinos de crianças.
A falange do "Não" que ontem esteve representada no programa, é um retrato bem triste de um país mesquinho, hipócrita, intolerante e totalitarista que está escondido sob o verniz estaladiço destas elites bem pensantes. O país do Botas continua insepulto!

Pelo sim à liberdade

A campanha para o referendo de dia 11 de Fevereiro arranca hoje, e por isso deixo aos distraídos que por aqui passam uma leitura obrigatória sobre o tema. Da Princesa Politicamente Incorrecta, sem papas na língua, Rititi, igualmente publicado na Revista Atlântico (publicação que tem entrada barrada neste bar, mas neste caso abro uma excepção).

História improvável das coisas - O palito


Degustar um opíparo bacalhau à Zé do Pipo pode ser tão angustiante como esperar pela nossa vez na consulta do dentista.
Os fios de bacalhau prendem-se nas falhas dos dentes como os limos se agarram às rochas costeiras, políticos ao poder,fiscais de impostos à nossa declaração de IRS, ou a broca com flúor às tribos de tártaro.
Felizmente as sequelas da experiência degustativa de um bacalhau ou de um tornedó a derreter-se na língua são hoje menos maçadoras, graças a um pequeno e insignificante utensílio que marcou o início da história da higiene oral, ainda antes de Santa Apolónia, padroeira dos tira-dentes, ter sido martirizada.
Com efeito, a higiene é mais uma consequência de civilização do que uma necessidade fisiológica, facto que os belgas tão bem sabem, porque pouco a praticam.
Desde muito cedo, o homem percebeu que até podia não tomar banho com regularidade, mas ter comida entalada nos dentes podia ser muito incómodo.
Foi isso que fez nascer a higiene oral, ou seja, a necessidade de ter os dentes bem tratados e reluzentes.
Os primeiros a preocuparem-se com o bom hálito foram os gregos, porque precisavam de ter um sorriso impecável para fazer prevalecer as suas filosofias e ideias políticas nas reuniões da Sala do Aerópago.
Tucídides, historiador grego autor da monumental “História da Guerra do Peloponeso” e do opúsculo “A Importância do bom hálito para a Democracia Ateniense” atribuiu a invenção do palito dos dentes a Sólon.
Nascido por volta de 639 ac (todos os gregos nasceram em data incerta, excepto Onassis que tem certidão de nascimento), Sólon era um intelectual respeitado em Atenas, não só por ter um nariz aquilino e pontiagudo, (estigma de respeitabilidade), mas também porque costumava ter opinião formada sobre tudo e sobre nada. Esse proselitismo valia-lhe a veneração dos seus contemporâneos que o consideravam um grande carola e um enorme nariz – “Tem faro para a política”, sussurrava-se nos banhos públicos.
Tucídides, que era um conhecido higieno-maníaco (usava luvas de peliça e máscara de guerreiro para arrumar a estante), conta como tudo se passou: “Antes de ir fazer as suas prelecções num centro comercial em Atenas, Sólon gostava de parar numa tasca da Acrópole para fazer um lanchinho. Nesse dia optou por uma salada de anchovas com couves, azeite e bolinhos de bacalhau, cujos fios lhe ficaram entrelaçados na dentuça.
Após a refeição jogou uma partidinha de gamão com um agiota manhoso. Indisposto com os dentes, Sólon que era um exímio jogador de gamão, desconcentrou-se e começou a perder. Com o seu orgulho ferido apostava cada vez mais alto, mas não conseguia concentrar a sua superior inteligência nas jogadas do adversário, já que a sua língua tentava sem sucesso desalojar o obstinado bacalhau do seu molar.
Foi assim desbaratando os seus bens, até tudo perder a favor do agiota, que ardilosamente lhe foi passando notas de crédito.
No fim do jogo, e de acordo com a lei grega, Sólon passou a escravo do agiota.
Perturbado com o inesperado desenlace da infeliz jogatana, o filósofo grego socorreu-se de uma das peças de gamão (que eram rectangulares e feitas de madeira da Macedónia), e descolou uma pequena ripa, com que começou imediatamente a escarafunchar a cavidade entre o molar e o dento do siso (a preferida do bacalhau parasita).
Aliviado pela limpeza, Sólon mirou o pequeno pauzinho, e recuperando o seu sangue frio, pensou com os botões da sua túnica manchada com nódoas de azeite e tinto de Efeso: “Eureka! Porque é que nunca me lembrei disto”.
O agiota perguntou-lhe então quando é que podia começar a limpar a estrebaria e a fritar ovos lá em casa. Sólon pediu apenas mais umas horas para resolver os seus assuntos e poder depois honrar a sua dívida. Pegou em três ou quatro peças de gamão que desfez cuidadosamente escondendo-as na túnica.
Quando chegou ao Partenón, os seus camaradas filósofos e cidadãos estavam com cara de poucos amigos, porque também eles tinham lanchado bolinhos de bacalhau.
Sólon, exibindo um sorriso resplandescente (que a partir daí começou a ser a imagem de marca dos políticos), disse com a sua voz tonitruante de oráculo de Delfos: “Cidadãos, tenho aqui o remédio para o incómodo que sei que vos atormenta. Mas só o desvendarei se aprovarem a lei que agora redigi.” Curiosos e rezingas, os cidadãos concordaram, e Sólon exibiu triunfante as ripas das peças de gamão, que distribuiu na assembleia, exemplificando com graciosidade a sua enorme utilidade dentária.
Aliviados do tormento, os cidadãos aprovaram de bom-grado as alterações ao “Livro dos Códigos”, que abolia a escravatura por dívidas, prática bárbara e deselegante, que foi sorrateiramente retomada pelas modernas instituições bancárias.
Sólon ficava assim livre das garras do agiota e a alta-sociedade ateniense podia entregar-se ao pensamento, sem delongas com questiúnculas dentais.
A higiene oral passou assim a ser um sinal de civilização e os dentistas começaram a ser convidados para festas e orgias do jet-set ateniense.
O uso do palito estendeu-se a toda a bacia do Mediterrâneo e foi Anonimus Palitius, um carpinetiro de Roma, que patenteou o paliteiro que passou a ser presença habitual em todos os banquetes de bacalhoada, muito antes do galheteiro.
Na era moderna, de La Renne deu outro uso aos palitos, embebendo-os em Vinho do Porto. Na gíria dos adúlteros pôr os palitos a alguém passou a ser uma forma mais “light” de apontar a dedo um cornudo na fila da padaria.

1/29/2007

Rabos de palha

O PS não tem rabos-de-palha.
É mais difícil encontrar alguém corrupto no PS do que uma agulha no palheiro.
Num palheiro também dificilmente se encontra um apito, um autarca de mãos untadas, uma arma de destruição maciça, ou um avião da CIA.
Por mais que se vasculhe um palheiro, dificilmente se encontra uma agulha, quanto mais um rabo de palha.

Fossanguice e esperança

“Detestava os bacorinhos, com a pele cor-de-rosa, a suar de gordura, fossando até aos olhos, grunhindo de gozo, na lavagem das gamelas”.
Eça de Queiroz, “Capital”



Esperança em melhores tempos é o apelo que Cavaco Silva fez até ao bocejo do pagode no seu primeiro discurso de ano novo como Presidente da República.
Ora em relação à esperança, nada como revisitar as palavras do escritor francês Céline, um avinagrado pessimista (estilo Vasco Pulido Valente).
Derramava ele: “Ter esperança é acreditar que um dia a merda cheire bem”. Apelar à esperança é por isso convocar uma impossibilidade escatológica, sobretudo num país como o nosso, que é um bocado como aqueles futebolistas das camadas juniores que nunca singram nas equipas principais – somos, como país, uma eterna esperança, uma espécie de país-Litos (o tal que era melhor que o Futre e acabou a treinar e mal o Estoril).
Conviria aliás recordar o nosso proeminente Presidente que a última vez que o país teve razões para ter esperança, foi quando ele próprio tomou conta dos destinos da carroça e esporeou o jumento atrás da cenoura europeia. Foi-se a cenoura e ficámos na mesma carroceiros e burros de carga, alimentados a varapau e a renovadas esperanças, que é o pão dos idiotas.
Isso são águas passadas, mas é sempre bom espevitar a memória, contra os políticos-borracha-de-apagar.

Esperança e mudança são duas palavras tão carregadas de vazio como um discurso presidencial, que as luminárias amortalhadas nos jornais e têbês, tratam de analisar, descodificar e escalpelizar, como se um discurso de ano novo do Presidente da República tivesse um prazo de validade maior do que um iogurte do Lidl ou um episódio de “Morangos com Açúcar”. É apenas um formalismo vácuo, e quem ocupa a vida a analisar o vazio só pode ser nihilista ou tão intruja como um prestidigitador de feira.
O discurso da esperança apenas pode surtir naqueles que têm motivos para aspirar a um BMW novo, umas férias na Polinésia, uma casa rústica na Serra da Estrela ou um “aumentozinho” como deve ser. Esses podem ter esperança.
Quanto aos outros, os que vivem no limiar da pobreza, que contam os tostões para comer e vestir os filhos, os que têm reformas que se consomem em medicamentos; para esses um apelo à esperança só deve dar para encher a barriga … de riso. Um riso amargo.
O caminho para a esperança, faz-se, segundo o nosso Presidente, de trabalho, responsabilidade (individual e social) e sobretudo de produtividade.
Mais uma vez, a glorificação do trabalho num país de calões, como subtilmente se induz.
Ora, eu cá sou menos ambicioso do que o nosso Presidente e tenho apenas um desejo para o meu país em 2007. Esse desejo é erradicar a fossanguice, ou pelo menos combatê-la como autêntico flagelo nacional, que mina a nossa coesão como povo.


Fuçar ou fossar é a forma como o individualismo lusitano se exprime na sua vida quotidiana e no seu devir colectivo.
Tal como os bácoros fuçam na pocilga para botarem dentuça na melhor bolota, os portugueses encaram a vida como uma desenfreada competição, em que a lei da fossanguice é uma variação da lei do mais forte, ou no nosso caso, do mais espertalhão.
No reino da trafulhice organizada, a arte da fossanga é uma competência importante para sobreviver; é a partir dela que nascem alguns dos grandes furúnculos que se instalam no nosso tecido social. Fenómenos como a corrupção, compadrio, tráfico de influências, ganância colectiva, crédito malparado ou até simples engarrafamentos de trânsito são consequência desse código genético que transportamos desde que D. Afonso Henriques deu uma golpada na mãe e construiu uma nação-fossanga à força da espada e da esperteza saloia.
Como a força da espada há muito esmoreceu, sobram-nos neurónios dedicados à arte de fuçar e passar a perna no próximo.
Num país tão católico e de boas famílias como o nosso, é bom ver que o “amor ao próximo” é comungado uma vez por ano na missa do galo a abarrotar de bons cristãos, acabadinhos de desembrulhar os telemóveis 3G, os carrinhos telecomandados e as roupas caras, que escutam com murmurante concordância o sermão do pároco sobre a interrupção voluntária da gravidez e o mistério da vida.
O amor ao próximo destes cristãos é ensinamento para usar duas vezes este ano – o primeiro no dia do referendo sobre o ventre de outras pessoas, e o outro na dízima da missa do galo. Quantos aos outros trezentos e tal dias, são dias de São Fução.
Para fuçar na fila do supermercado e passar à frente do miúdo com ar de tótó; para fuçar pelas traseiras e fintar os voluntários que recolhem arroz para o Banco Alimentar Contra a Fome; para fuçar no trânsito e ultrapassar os outros papa-açordas; para ser o primeiro a e estacionar em cima do passeio tornando-o uma fortaleza inexpugnável para velhinhos de bengala e carrinhos de bebé; para fuçar por uma boa posição naquele novo Centro Cultural graças à tal cunha do primo no Partido; para fuçar uma cunha lá na câmara a aprovar o campo de golfe numa reserva agrícola; para fuçar uma nova dotação orçamental do Estado; para fuçar pelo subsídio do décimo curso de formação profissional; para fuçar por uma promoção no emprego; para fuçar por mais senhas de gasolina ou ajudas de custo; para fuçar por um desconto na compra do chaço novo; para fuçar por mais um DVD à borla com o Expresso; para fuçar por um bilhetinho à borliú para um concerto do Represas (a mim nem que me pagassem); para fuçar pela melhor pata de sapateira num jantar com amigos; para fuçar por copos à borla no bar do Leonel; para fuçar por uma fotografia da festa de anos na revista “Caras”; para fuçar por um papel de acne secundário na “Floribela”; para fuçar por um lugar de destaque nesse altar da fossanguice ufana que é a blogosfera portuguesa; para fossangar por um canto na prateleira do hipermercado para um novo livro de confissões flatulentas; ou até para fossangar por um lugar fora da prisão, que é tarefa que ocupa uma quinhão importante dos nossos compatriotas.
Fossangar, pedinchar e andar à mama são “full time jobs” dos portugueses, e o meu desejo para 2007 é que se proceda a despedimentos massivos nas fileiras dos fossangas, dos pedinchas e dos mamões.
Deslocalize-se a fossanguice para o Ártico Sul, onde até focas, ursos polares e pinguins convivem com maior cordialidade e generosidade do que nós por cá, que vamos à missa comungar o amor ao próximo e escutamos embevecidos os discursos da vã esperança do nosso Presidente da República, enquanto grunhimos “de gozo, na lavagem das gamelas”. Os grunhos para o Ártico, já!

(Publicado no JF, um destes dias)

12/30/2006

O demónio veste galochas

Sobre as galochas muito se escreveu e raramente se acertou. O mistério permanece, alimentando hordas de místicos da alquimia que se dedicam ao estudo da Queda de Adão e aos recantos mais ocultos dos vestíbulos de Los com a mesma paixão que esmiúçam um antigo par de galochas.
Como nos vestíbulos de Los o máximo que a moderna ciência do ocultismo encontrou foi um par de peúgas brancas com um símbolo hieroglífico (duas raquetes de ténis em riste) bem como uma velha revista “Gina”, ocorreu um natural cisma durante uma reunião numa “licor store” junto ao Tamisa, em que se tentava converter à pureza original do ouro uma armação de sombrinha. Dessa cisão nasceu a Sociedade Secreta Noite de Saturno, comandada pelo proeminente poeta William Blake, que defendia a utilização de galochas de pé alto para a pesca à linha de salmão nos lagos da Escócia.
Foi precisamente na Escócia que a alquimia neoplatónica obteve os seus maiores sucessos ao submeter a matéria primordial às sete fornalhas da alma (o número sete das sublimações foi atribuído a Saturno como sétimo planeta cosmológico), resultando daí, não ouro, como se pretendia, mas um líquido de voz grossa e sabor intenso, que os monges irlandeses chamaram de água da vida, e que nos bares de hotéis e snack-bar de bairro se conhece simplesmente como whisky.
Ferozes adeptos da destilação, os membros da Sociedade Secreta Noite de Saturno costumavam reunir-se em Inverness, em dias de conjugação cósmica, para beber o produto da destilaria mais próxima com galochas calçadas e jogar bridge.
Foi assim que ficaram célebres os simpósios de Inverness, sabendo-se agora que os gregos utilizavam a palavra simpósio para aquilo que os modernos definem como “apanhar uma bebedeira com os amigos.” Nesses simpósios era debatido o papel das galochas na subida dos trinta degraus da escada que “representa as trinta virtudes enunciadas por John Klimakos, abade do Mosteiro de Santa Catarina no Sinai, num tratado para a firmeza moral dos monges.” Para subir essa escada em direcção ao céu, William Blake e seus compinchas defendiam a utilização de galochas de cano alto e tingidas de verde, de preferência as da secção de pesca e caça do Harrod`s, que pela sua textura e impermeabilidade eram as mais convenientes a escaladas divinas.
A sociedade cultora de Saturno produziu vasta bibliografia sobre o mistério das galochas, mas a eclosão do espírito científico das newsmagazines de meados do século XX acabou por desmistificar as galochas e reduzi-las ao seu utilitarismo sequinho.
Foi na revista “Selecções do Reader`s Digest” de Outubro de 1951 que Jonathan Kepler, repórter, atribuiu a invenção das galochas ao italiano Ferrucio Lamborghini. Este notável e inventivo toscano fabricava tractores, e um dia a sua casa no Piemonte foi abalada por uma diluviana inundação. A signora Lamborghini havia despejado na sanita os restos de um lauto “farfalle”, que entupiram os canos, provocando o cataclismo.
Ferrucio, que acabara de comprar um luzidios sapatos italianos, temeu estragá-los e recortou os pneus do seu tractor, desenhando uma protecção para o seu fino calçado, podendo assim enfrentar de piaçá e balde na mão as cataratas de Niagara que escorriam pela sua marmórea escadaria. Mal sabia que havia sido o primeiro homem a descobrir uma das características mais apreciadas da borracha – a impermeabilidade – e assim dar o tiro de partida para uma grande indústria organizada em torno da simples necessidade de nos protegermos da chuva.
Foi também um grande avanço civilizacional para os pescadores de água doce, cuja população se reproduziu exponencialmente graças à diminuição de casos de tuberculose, na razão inversa da defenestração do salmão de água doce que é hoje tão provável de encontrar no Loch Ness, como a própria Nessie. Com o capital que somou a vender galochas, Ferrucio Lamborghini abandonou o negócio dos tractores e passou a fabricar automóveis super-desportivos, como o mítico Lamborghini Diablo, que deve ser guiado envergando um fato Armani e calçando sapatos italianos. Actualmente as galochas são utilizadas na pesca, na agricultura e também em clubes fétiche em Manilla.
No seu último bestseller “O tormento dos metais” o escritor sado-masoquista Joselu Pixoto escrevia: “foder só com galochas é sublime, é como trepar as escadas divinas com belas arcanjas-demónio a cravarem-nos a longas unhas envernizadas de escarlate nas costas.”
Hummm, só com galochas…

Late Call

Publicado no belo número um da revista A23, sonhada pelos meus talentosos amigos Ricardo, Salvado, Margarida e com contribuições de outros tantos amigos, quando fazer uma revista é como um serão de Agosto a beber copos com os amigos numa esplanada. Isto não é uma republicação, apenas uma boa recordação da noite em que o Ricardo me ligou a dizer - precisamos de um texto teu que temos que fazer mais um caderno para fechar a revista hoje de madrugada. You are the boss, meia garrafa de whisky e uns quantos charutos depois deu nisto, e deu um prazer dos diabos sabendo de antemão para quem e para onde era.

Cerco de Jericó

“Uma cidade é uma possibilidade, desde que se cultive a arte do possível”

Tom Waits e o meu avô Manuel Vitorino partilham uma filosofia diurética. Ambos são extraordinários bebedores e apreciam uma pequena particularidade da vida no campo – Mijar ao ar livre.
No pico de Dezembro o meu avô prefere regar as suas viçosas couves, enquanto Tom Waits montou o seu estúdio num galinheiro para gravar “Mule Variations” e nos “intermezzos” poder mijar ao luar do Arizona.
Há quem viva com a eterna melancolia da vida no campo, sem saber que a vida no campo se resume a mijar sob o luar calado e cúmplice e escutar a chuva a bater na terra, emanando aquele cheiro a fecundação da Gardunha.
Nas cidades, mijar na rua é punível com coima, e por isso inventaram o urinol, que pode ser um equipamento sanitário ou um meio de financiar a nova decoração do gabinete do vereador local. Felizmente, mijar nas cidades em Portugal é uma borla, ainda que meio secreta. Nas cidades da Mittleurope só mija quem paga.
Essa pequena diferença reflecte-se na qualidade do serviço. Trata-se da melhor publicidade à liberalização capitalista do xixizinho público. Enquanto em Portugal um urinol cheira a mijo e tem aquele encanto sórdido da poesia ejaculada nas paredes e na loiça da fábrica de Valadares, no meio da Europa as “toillets” cheiram a alfazema e o papel higiénico é mais do que suficiente para garatujar um volume de “A memória do mundo – das origens até ao ano 2000”. Este opus magnum da história da humanidade foi a última aquisição da minha mãe nas promoções do Círculo de Leitores. Ela ficou com o triturador Moulinex (a terceira, para o caso de avarias). e eu fiquei com a história do mundo, desde Lucy, a remotamente sexy avó de todos nós, até à última entrada que relata o problema da sobrepopulação no planeta terra: “Com uma taxa de crescimento de 2 por cento ao ano, a população mundial duplica em cada 35 anos. A manter-se assim o mundo terá 56 biliões de habitantes em 2100”.
Os catastrofistas, estilo Malthus, diriam que não haveria croissants quentes e sushi para todos, mas um inabalável optimista pensaria de imediato nas vastíssimas possibilidades de encarar de frente um problema de sobrepopulação de mulheres boas, e sobretudo disponíveis…
Na mesma obra enciclopédica que serve de base para os meus copos de whisky, conta-se a história de Jericó, oficialmente a “mais antiga cidade do mundo”. Mais interessante do que a sua fundação, que data do VIII milénio, é a história do seu cerco e destruição, como reza o livro de Josué do Antigo Testamento: “No sétimo dia, as muralhas de Jericó caíram, o povo entrou na cidade e passou a fio de espada homens, mulheres, crianças e velhos, até mesmo os bois, as ovelhas e os jumentos. Os muros de Jericó não voltaram a erguer-se.”
Esta carnificina recoloca o problema do trânsito em Lisboa num patamar ético completamente diferente, e leva-nos à inevitável catalogação das cidades modernas – entidades devorativas de terra e homens? Santuários do anonimato? Território da solidão pura?
Eu cá, que a Malthus prefiro o malte, gosto de pensar que uma cidade é acima de tudo uma possibilidade; um território de escolha, um caminho só nosso que eventualmente se cruza com outros. Uma cidade é uma liberdade vigiada, mas a liberdade possível de espetar o nariz na “Ronda da Noite” do Reijk Museum depois de um charro de “White Widow” num “coffe shop” em Amsterdão, ou de um mergulho na praia de Copacabana e depois comer um bolinho de bacalhau e ver as bundinhas cariocas a passar ao som do choppe; ou beber vinho e comer queijo em Paris, andar de táxi em Roma, ir às putas nos arranha-céus de Tóquio e nas catacumbas do Cais do Sodré, ou simplesmente dizer adeus ao homem que diz adeus nos semáforos do Saldanha.
Uma cidade é ir até Cabul no bolso de Vasquez Montalban e na companhia “groumet” do seu detective Pepe Carvalho, entre acepipes e iguarias.
É isso que vale a pena nas cidades – a possibilidade de conhecer as pequenas aldeias que somadas e multiplicadas fazem uma metrópole de sensações e descobertas. E isso é quase tão bom como mijar ao ar livre sob a sombra de uma Gardunha de Dezembro.

postal@apartado

James martin 30 anos
Estou a guardá-la para um ocasião especial – confidenciou Luís – a james martin 30 anos é o meu bem mais precioso. - Mas ela evapora-se – esclareceu Ricardo.
- No dia especial em que a beber sim. A fatalidade das ocasiões especiais é que se evaporam mais depressa do que os whiskys.


Intimidade

- Posso dormir de peúgas? Sussurrou Álvaro.
- Sim querido – respondeu Lena, puxando suavemente o edredão sobre os seus corpos. E dormiram juntos depois do amor, aquecidos por um sono a dois.

Espumante dos dias
Gosto de tactear a lombada dos meus livros como se fossem um harém de mil e uma noites.
Vê-los todas as noites, na intimidade enquanto me visto e pensar nas aventuras que a vida nos reserva. Tenho livros que cheguem até ao fim dos meus dias, mas mesmo que não os leia, sei sempre que os meus livros são a “esperança e a angústia de um futuro que passa.”


Sal, mar salgado

Eu preferia sol, ele preferia sal.
Eu preferia chocolate quente, ele preferia um jardim botânico.
Eu preferia uma viagem, ele preferia uma paragem.
Eu preferia telefonar, ele preferia não atender.
Eu preferia um jantar, e ele lanchar.
Eu preferia uma BD cómica, e ele um livro de arte.
Ainda assim
Eu preferia-o a ele
E ele a mim.

11/29/2006

Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro

Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

(Sofia Melo Breyner)

11/19/2006

Johnny Cash God's Gonna Cut You Down

Where the hell is Dennis Hopper?
God is cutting us all down, specially me, today. I´m down forever.
Probably the best video-clip of the territory

História improvável das coisas - O lenço de assoar

A Kleenex vende anualmente cerca de um zilhão de lenços de assoar em 134 países, à excepção da Coreia do Norte e de outros países do dito eixo do mal, que como se sabe são tramados de assoar.



Em pacotes de bolso ou caixinhas para colocar no tablier do carro ou ao lado do agrafador na mesa do escritório, os lenços Kleenexsão responsáveis directos pelo abate directo de cerca de dois milhões e trezentas mil árvores por ano.
Este intróito ecologicamente correcto serve para explicar porque é que tornar o lenço de assoar obsoleto foi um retrocesso civilizacional e também um mau negócio para a indústria de bordados à mão, já para não falar dos tarados de brasões, heráldica e filigranas. Longe vai o tempo em que o barão Karl-Heinz Von Foerster der Briegel Rummeninge et Haupsburgo on Baden podia assoar sonoramente as suas imponentes narinas austro-húngaras no linho macio e nas suas próprias iniciais KHVFBRH.
Actualmente o lenço de assoar é uma mera recordação de um tempo faustoso de público asseio e imundície privada. Um tempo em que os nossos egrégios avós depositavam meticulosamente a ranhoca no lenço de assoar, dobrando-o repetidas vezes até à capacidade de carga máxima aconselhar uma lavagem, e um novo lenço de assoar a despontar elegantemente no peitoril do paletó.
De acordo com a enciclopédia Brytannica o lenço de assoar começou a ser usado abundantemente na corte de Luís XIV, um costume introduzido pelo próprio Louis-Dieudonné (Luís Deusdado), que se celebrizou pelo seu mobiliário de quarto e pelo facto de proferir balelas grandiosas do estilo “O estado sou eu”, ou sábias verdades como “É mais fácil reconciliar a Europa inteira do que duas mulheres”.
A história da invenção do lenço de assoar está, segundo a enciclopédia brytannica, intimamente associada à aparição do guardanapo nas mesas da Velha Europa. Aquela pantagruélica enciclopédia remete esse facto para as memórias íntimas de Madame Valery Bicot, cortesã de opulento busto, que privou com os maiores taradões da corte de Luís XIV, incluindo o próprio, e que reuniu em opúsculos muito apreciados à época, um conjunto de picarescas confissões e depravações que lhe foram passando pelos cetim dos lençóis.
Na sua obra “Maneirismo: Retratos de más-maneiras”, Madame Bicot conta que o Rei era um grande consumidor de rapé e passava a vida a snifar aquele bendito aspergivo, que lhe originava cataratas de pingos no nariz.
Além disso, Louis Dieudonné era também alérgico a tapeçarias, huguenotes e pintelhos, o que lhe causava grande incómodo, já que passava a vida a assoar-se aos punhos folhados de renda, que naturalmente andavam sempre encardidos e faziam com que a sua diplomacia de punhos de renda fosse um bocado porcalhota.
Outra prática pouco elegante do absoluto suserano de toda a França era limpar o mangalho aos reposteiros depois de fornicar com as suas amantes, o que trazia grandes problemas à lavandaria de Versalhes e à côr do real instrumento, que por causa dos pigmentos dos reposteiros andava sempre esverdeada ou azulada, conforme o reposteiro.
Consultado o médico da corte, o Rei foi vivamente aconselhado a deixar-se dessas práticas de devassa higiene que lhe debilitavam a saúde e até podiam fazer perigar a sua masculinidade.
Com o terrível medo de se tornar panasca, o Rei convocou a sua modista preferida Madame Maria Lençot, expôs-lhe o problema. A desembaraçada mulher, descendente de emigrantes portugueses oriundos de Fornos de Algodres, rapidamente recortou com uma tesoura um quadrado de pano da almofada de linho, estendendo-o bem dobradinho ao rei, que grato lhe respondeu com as célebres palavras: “Lençot, tu peut t`assoir”.
A partir daí o rei passou a utilizar aqueles paninhos brancos para se assoar, e mais tarde, para limpar as beiças depois de se empanturrar em faisão com castanhas, já para não falar da terceira e última finalidade, que poupou os reposteiros de Versalhes a uma vida para a posteridade como banco de esperma real. De qualquer forma, a prudência aconselha os visitantes do Palácio Versalhes a levarem a sério o aviso “por favor não tocar”.

A cavalgada heróica continua em ...

A saga de Lost West, o primeiro western português continua em Lost West
So long strangers ...


11/12/2006

Joni Mitchell - A Case of You

Joni Mitchell - A Case of you, para um anónimo famoso. Canada dry with whisky for both of us.

11/10/2006

Crónica de uma reportagem anunciada - Nos bastidores de "Lost West", o primeiro western português


Regresso ao velho Oeste
“Make my day”
Clint Eastwood

Durante três semanas o Oeste do concelho do Fundão e a pacata aldeia de Janeiro de Cima foram tomadas de assalto por uma quadrilha selvagem, liderada pelo jovem realizador Mário Fernandes, autor do primeiro western português. Uma cavalgada aos bastidores hilariantes de “Lost West” na sela de Kit Carson, o mais rápido pistoleiro do Velho Oeste e com a mira afinada de Diamantino Gonçalves, o mais impiedoso fotógrafo do Velho Oeste.

Take 1 -Bebo whisky maçã e cuspo balas, my dear little Ford


Nos bastidores de “Lost West”, o primeiro western português

“Make my day”Clint Eastwood


Um pistoleiro do diabo em Janeiro de Cima. Vestido de negro, com chapéu de aba larga escondendo o olhar gélido e o “colt” pendendo da cintura em pose ameaçadora, franqueia a porta do “saloon” El Passadiço.
O som das esporas corta o silêncio sepulcral que os pacatos aldeões dedicam à sinistra figura. Carlito Quijote, o pistoleiro mais rápido do Velho Oeste lança-me um olhar mortal e engole de um trago um copo de whisky aviado por Sam, o barman. Cospe-o de imediato e vocifera – Isto não é sumo de maçã, é mesmo whisky! – Corta!
Gargalhada geral - Mais uma cena para o “making of” - sorri o jovem realizador Mário Fernandes que é também o autor do guião de “Lost West”, o primeiro western português, que esteve em rodagem em Janeiro de Cima e nas majestosas paisagens da zona Oeste do Concelho do Fundão.

Leg: Martha é uma mulher de armas e de muitos recursos ... só para a ver vale a pena ir ao cinema

Foram três semanas de tiroteios nas escarpas do Cabeço do Pião, duelos nos açudes da Barroca, espectaculares fugas a nado no Zêzere, pancadaria e beberagem à farta no bar Passadiço, cenas de amor na Praia Fluvial e nas grutas de Janeiro de Cima, deambulações fantasmagóricas na antiga Lavaria do Couto Mineiro, conspirações no cume da pirâmide de desperdícios das Minas da Panasqueira, reino de Beralt, o vilão da história, que exerce um magistério de terror quase alegórico sobre El Caballero (Janeiro de Cima).
Se John Ford tinha o seu Monument Valley, o nosso “little” Ford encontrou na sua própria terra as paisagens assombrosas para a sua primeira longa-metragem, que é simultaneamente um tributo à sua paixão pelo western como género maior do cinema clássico americano. Tudo graças a esse trota-terras de olhar apurado e espírito irrequieto que é também o director de fotografia do filme, Diamantino Gonçalves, o homem que nos obrigou a “torrar” nos 42º à sombra das ruínas dos Buchinos (acho que nunca uma Mini me soube tão bem) e que nos deu a conhecer uma região inóspita e apaixonante como aquela que se espraia ao longo do Zêzere do fim do mundo.
Já agora, convém explicar que eu sou Kit Carson, o pistoleiro que regressa à sua terra para vingar a morte da família e acabar com o império do mal de Beralt e seus capangas.

Leg: Kit Carson aperta uma faca de mato em Angel, depois de terem passado a rodagem em apertos

Take 2 – A quadrilha selvagem no manico-cómico

Os capangas de Beralt dão uns bofetões no padre.
A bandidagem ecuménica, ámen!


- Ainda vamos fazer disto um épico! É o grito de guerra da quadrilha selvagem do “summer fun productions”, um grupo de actores e técnicos improvisados entre os amigos e familiares do realizador. O guião foi escrito em menos de dois meses e muitas das personagens foram moldadas aos actores, o que facilitou o “casting”.
A belíssima heroína Martha é prima do realizador, o vilão Beralt é seu irmão, o Padre Holmes é colega finalista do curso de Direito, a Maria é a amiga franca-atiradora e anotadora crítica; alguns dos capangas, como Black Jack, já faziam parte da sua “entourage” das curtas-metragens e eu sou o nómada que abanca lá em casa para grandes maratonas cinéfilas a papar as obras completas do John Ford e Sam Peckinpah.
Outras personagens foram contratadas para breves e meteóricas aparições, como foi o caso de Jerónimo, o Bob Dylan da Beira Baixa, que além de assinar alguns originais da banda sonora, vestiu também a pele de um bandido mexicano cujas primeiras e últimas palavras foram - Se tocas en la botella, te hincho de granos de plomo, cábron!
Até o pai do realizador foi convocado para esta superprodução caseira. O “Pai” Fernandes acumulou funções. Além de ter de morrer cerca de três vezes no mesmo filme (estávamos curtos de figuração), foi também o responsável pelo pelouro das refeições e o comandante das tropas aquarteladas na casa Alvim Costa que durante duas semanas foi o manico-cómico que alojou a nossa quadrilha selvagem.
Sob a divisa “barriga vazia, não conhece alegria”, o hilariante Pai Fernandes iniciou-nos nos doces prazeres da cozinha Lavoisier, em que nada se perde e tudo se transforma, nem que seja numa bela massada do dia seguinte. Benditas saladinhas de tomate e tinto do garrafão que nos davam alento para as duras filmagens. É que isto fazer “western no budget” (sem apoios) não é banana, sobretudo para meninos da cidade pouco habituados às agruras da vida no campo.
Eu que o diga, que os únicos exercícios físicos que estou habituado a fazer são o haltero-copismo e o lançamento da beata, e quando muito um joguito de matraquilhos. Na pele de Kit Carson tive de andar a cavalo (ou pelo menos tentar), trocar umas boas murraças no lodo com Angel antes de lhe “apertar uma” faca de mato no bucho, subir e descer penedos de matagal cerrado, comer uma cabeça de cabrito assada que tresandava mais que o Zêzere em dias de descargas, ou até afogar-me no meio do rio, quando as botas e o pistolão comprado na Feira da Ladra a dois tipos com pinta de neo-nazis começaram a pesar mais do que a força do braço nadador.
Valeu a prontidão do realizador-salvador que me pescou do rio, depois dos lancinantes pedidos da ajuda, para descobrir, perante gargalhada geral, que afinal aqui o cowboy-herói se afogava numa zona com pé – mais uma para o “making of”, corta!
Como eu, todo o elenco teve de desafiar os medos e enfrentar com paciência estóica as exigentes provas físicas que nos habilitariam para os jogos sem fronteiras do Eládio Clímaco, já que sem “budget” não há duplos, e o realizador, tão embrenhado no perfeccionismo da obra e na beleza plástica das cenas, se esquece que somos simples mortais.
Grande respeito ganhámos todos aos actores profissionais, porque provámos um pouco do árduo e desgastante esforço de ter de repetir a mesma cena umas dez vezes, já que o realizador e os “cameraman” Bruninho, Jorge Souto e Zina Caramelo precisavam sempre de mais um plano da mesma cena. Só para terem uma ideia, fui obrigado a “repetir” cerca de dez “shots” de whisky às dez da manhã, podem pois imaginar o resultado, já que ao contrário de Carlito Quijote, eu não trabalho com sumo de maçã, prefiro o realismo. A partir de agora tiro sempre o meu chapéu ao Jackie Chan e jamais direi mal de qualquer actor.

Take 3 - Western-chanfana ou será barroco?

Leg: Pelos cornos de Belzebu, o Beralt Tin recusou carne pela primeira vez na vida. Pudera, comer uma cabeça de cabrito às onze, só com o estômago forrado a whisky! O barroco alegórico ou um bom gregório


Mas afinal que filme é este, um western português, para quê?
É a pergunta meio incrédula, meio divertida que toda a gente nos faz.
Ora a resposta é fácil - é um filme para nada, e por isso até pode bem ser um filme nihilista. Nós entendemos que é um filme gótico e barroco, imoral e moral, expressionista e “noir”, humano e desumano, um filme esperança e um filme desesperado.
Como dizia numa das entrevistas para o “making of” Leonel Barata, o nosso agente de ligação a Janeiro de Cima, produtor-para-todo-o-desenrascanço e também actor nas horas vagas da sua outra paixão, o restaurante “Fiado”:
- Não sei bem o que vai ser este filme ou se as pessoas vão gostar, mas sei se o filme transparecer todo o trabalho, voluntarismo e paixão que lhe dedicamos, então será certamente um épico!

- É pegar-lhe pelos cornos e dar uma dentada, tás a ver. Mário Fernandes, Marius, Tigana ou Little Ford mostra como se pega nos cornos da besta e se dá uma épica dentada


Depois desta grande aventura que foi fazer um western na Beira Baixa, o único público que queríamos mesmo que gostasse do filme é o bom povo de Janeiro de Cima, que recebeu esta cambada de malucos da quadrilha selvagem com carinho e apoio incondicional. A ante-estreia está marcada para daqui a um ano no Bar Passadiço, mas antes a quadrilha selvagem mais divertida do western-chanfana (e não spaghetti, como rezam as más línguas) regressa ao local do crime, porque ainda me falta limpar o canastro ao Beralt.
Make my day, punk!

Take 4 – O que é preciso para fazer um western? Um Cristo amputado, garrafas de whisky, charutos e muita imaginação

É simples. Basta ter um feroz cinéfilo de 22 anos, que devora filmes, sobretudo clássicos e é uma enciclopédia sobre o género western. Fechá-lo durante um mês num quarto andar em Lisboa a escrever um guião e a enviar SMS`s à borla para o elenco com notas de produção, estilo: Deixa crescer a barba; arranja chapéus de cowboy e pistolas; preciso de livros do Lucky Lucke, são fixes para ver os enquadramentos.
Uma visita à Feira da Ladra ajuda para os objectos e o guarda-roupa: uma estátua de Cristo amputado, um cinturão de um velho General na reforma, uma derringer de imitação.

Leg: Kit Carson tenta adoçar o pistolão do realizador mais rápido do Oeste, para ver se deita fumo. Química mal aplicada.

Depois é preciso cravar e planear. Cravar espingardas de caça de colecção ao tio, o cavalo do Leonel, pás para enterrar os mortos, cordas para enforcamentos, ovelhas, escadotes, muitas garrafas de whisky e algumas de sumo de maçã, cabeças de cabrito, charutos e sei lá mais o quê.
Tudo se arranja, tudo se desenrasca. E lá vamos para o fim do mundo com a tralha toda na velha carripana de caixa aberta do “Pai Fernandes”, mais habituada a transportar ameixas de exportação para a República Checa do que “estrelas” de cinema.
Depois é a logística e o plano de rodagens. Uns actores metem férias, outros fazem piscinas entre o Fundão e Janeiro de Cima. O dia começa sempre às 8 da manhã e não há dia sem imponderáveis: as cólicas do realizador, a chuva a potes e alguns “arrufos” entre a equipa – Eu cá não salto desse penhasco para o rio, tu és mas é maluco, salta tu!
Tudo na boa, que o filme é para fazer, custe o que custar, doa a quem doer. Mais do que um western-chanfana, “Lost west” é uma grande cóboiada.

Take 5 – Cumplicidades, ameixas que são boas para o cérebro (e para as checas) e o luar de Janeiro de cima

Fotos: Diamantino Gonçalves

Juntar uma dúzia de pessoas com idades compreendidas entre os 21 e os quase 60 anos num ambiente agreste do Velho Oeste e num manico-cómico de produção durante duas intensas semanas podia dar para o azar, tipo casa do Big Brother.
A verdade é que não deu, antes pelo contrário. Provavelmente o melhor de “Lost West” não se vai ver no ecrã. O melhor é ver como se cria uma pequena família, forjada na paixão pelo cinema e numa louca aventura idealizada pelo Mário Fernandes, e que todos abraçamos com entusiasmo e total dedicação. O mesmo entusiasmo que se calhar nos falta nas nossas vidas reais e que realizamos nesta ficção. Dei comigo a pensar várias vezes, se todas as pessoas fizessem na vida aquilo que gostam e com quem gostam, seriam felizes.

A voz doce de Maria e a guitarra de Tito. Para a próxima fazemos um musical on the road

E, foi esse bocado de felicidade que encontrámos no inóspito território do Oeste do Fundão e na acolhedora aldeia de Janeiro de Cima; a felicidade das pequenas coisas: a camaradagem, a entreajuda, a amizade e o humor, ah, esse humor que nos faz sentir vivos e que ilumina os dias cinzentos dos sorrisos calados nos lábios.
Perdoem-me a lamechice, mas em Janeiro de Cima redescobrimos a verdadeira importância das coisas, como as noites de lua cheia e do céu estrelado de Verão com conversas longas e saborosas como o whisky com água de castelo, ou os olhares cúmplices que só a minha querida quadrilha selvagem sabe trocar, porque partilhamos uma experiência pessoal e afectiva única.


O descanso do guerreiro, Pai Fernandes e o "Mundo a seus Pés"

A lua cheia de Janeiro de Cima e o brilho do olhar no reencontro com a minha quadrilha selvagem é motivo mais que suficiente para fazer de “Lost West” o filme da minha vida e daquela terra a minha nova terra. Vim de coração cheio.

As personagens e os diamantes de Diamantino

As personagens ainda se estão a vestir, mas elas são

O Vilão - Beralt Tin
Os maus - Carlito Quijote
Black Jack
Angel
Manelito
Os bons - Kit Carson
Martha
Tito
Padre Holmes
Maria
Sam
Charles
Os indiferentes - O coveiro
O mineiro
Os figurantes pagos para morrer

OS DIAMANTES DE DIAMANTINO



Carlito Quijote e o seu olhar à el matador



Black Jack e o sabor das framboesas silvestres



Black Jack é um bad mother fucker, lá isso é!



Padre Holmes e Martha partilham um sorriso evangélico



Aqueles que vão morrer te saúdam, Je te salut Maria



Martha e Kit - ser actor de cinema também tem partes boas




Angel sob a influência da bota de Kit



Kit Carson e Padre Holmes nos copos ( não foram poucos, hic!)


PS: cara quadrilha se tiverem mais fotos, mandem para rpelejao@gmail.com, para completar este portfólio, faltam-me fotos do Sam, do Tito, do Angel, do Diamantino, do Pai Fernandes, do realizador, do Bruninho, do Souto e do Zina, e claro do Beralt, mandem-lá para completar este portfólio, beijinhos e abracinhos

11/07/2006

História improvável das coisas - A banheira

Uma coisa é certa, se a banheira não tivesse sido inventada, provavelmente Marat ainda estaria vivo, gozando a reforma choruda que a Revolução francesa reserva para todos os seus filhos não decapitados.
Outra coisa é certa, a cantora Rita Lee provavelmente não teria vendido tantos discos já que não faria sentido "e só nós dois, numa banheira de espuma", se a banheira não tivesse sido inventada, e sem banheira a espuma seria também uma coisa que apenas coroaria as imperiais da Trindade e os dias de Boris Vian.
A importância da banheira para as sociedades industriais e para o cinema erótico só começou seriamente a ser investigada por P.T. Polyban, cientista norte-americano radicado no Alasca.
Corria o ano de 1898 e Polyban realizava um estudo sobre as rotas das invasões napoleónicas em períodos glaciares, quando subitamente ficou com o fogão a lenha do seu bungalow engripado, et pour cause, sem água quente para o banho e para o chá.
Com isto a sua banheira de pé alto perdeu o sentido da vida e iniciou uma espiral depressiva que a levou a várias tentativas de suicídio com a ingestão de enlatados de arenques em escabeche fora do prazo de validade importados de Peniche que, para quem não sabe, é uma terra pesqueira em Portugal de que Freud dizia - as mulheres têm inveja de Peniche.
Preocupado com a saúde mental da sua banheira e com o cheiro do seu sovaco, Polyban meteu ombros a uma investigação que seria determinante para o orgulho histórico da banheira e também para a história da higiene íntima.

Durante anos percorreu o mundo e visitou casas de banho nos locais mais recônditos, desde Salvaterra de Magos até à Pensão Vitória em Agadir, procurando pistas para encontrar a banheira original, ou seja, o momento na história em que o engenho humano fabricou um recipiente para se meter lá dentro nú e esfregara as virilhas com sabão azul.
No mar morto encontrou uns manuscritos a que não ligou peva, por lhe parecerem evangelhos, ou seja um tema batido, mas teve a sorte de conhecer Yuri Bidokov, considerado à época o segundo maior especialista em bidés e bechichés e o maior especialista em Proust, a seguir ao próprio, que há época ainda era vivo e continuava em busca do tempo perdido.
Quem não perdeu tempo foi Polyban que envenenou Bidokov com sais de banho, e lhe ficou com uma mala cheia de papéis que continham a morada de um místico hindú que sabia tudo sobre banhos, e também os planos secretos para uma revolucionária invenção que tornaria a banheira obsoleta.

Dois meses depois Polyban batia à porta de uma pira de paus de canela erguida na margem dos ganges, sobre a qual estava sentado Marabuta, o místico hindú, de pernas cruzadas à maneira dos eremitas, e a coçar vigorosamente os dedos dos pés, afectados por micoses.
Depois de obrigar Polyban a purificar-se nas águas do Ganges, Marabuta contou então a história da banheira original, que está contida na obra "O dia do primeiro banho, a humanidade lavadinha por baixo", que valeu a Polyban o reconhecimento da sociedade higiénica mundial, com sede em Basileia. A história era simples. Um chinês badalhoco, com aquafobia foi deportado pela dinastia Ming dentro de uma jarra para a costa sudoeste da Indía onde foi recolhido por um grupo de saltimbancos sikh.
Em tourné pelos palácios dos marajás, os saltimbancos eram obrigados a despiolharem-se nos lagos, antes de poderem meter pé nos palácios.
O chinês apátrida recusou-se a banhar-se nos lagos, por causa da sua religião. Carrancudo o guarda do Marajá mandou-o dar banho ao cão, e por tamanha blasfémia foi desmembrado do seu turbante, porque o marajá repeitava as religiões dos outros.

Homem culto e interessado por outras culturas, o marajá convidou o chinês Já Po Ban para tomar um duche com ele. Vieram dois criados e preparavam-se para os regar com uns funis de marfim. Mas o chinoca recusou-se a tomar banho nú com o marajá, porque desde as aulas de educação física em Xangai achava que tinha a pilinha pequenina, e por isso tinha vergonha.
Irado mas justo o marajá disse-lhe: Vais tomar banho comigo, e se o duche não te serve diz-me tu como iremos tomar banho juntos. Se não, o teu corpo vai tomar uma banhoca no Ganges e dar de comer aos crocodilos.
Com este ultimato, o chinoca não teve outro remédio senão pedir emprestadas duas enormes caldeiras das cozinhas do marajá, cheias de água previamente aquecida. Quando os corpulentos criados da copa chegaram ao jardim com os fumegantes tachos, o marajá perguntou - Vamos fazer sopa? Não sabes que o canibalismo foi abolido há 35 anos?
- Por quem sois meu caro marajá, vamos tomar os dois um banho de imersão em água quente neste banheira.
Assim reza a história de Polyban, nos jardins do marajá de Jaipur, foi tomado o primeiro banho de água quente da história, e nascia a banheira onde Marat encontraria a morte e Arquimedes ou lá como é que se chama o grego, encontraria inspiração para umas leis da física.
Quanto a Polyban, ficaria um homem rico e lavadinho, porque substituiu a banheira-depressiva da sua cabana por um revolucionário sistema de duche em casa, roubado da pasta de Bidokov, a que deu evidentemente o seu próprio nome.

11/05/2006

Bons olhos o escutem seu Chico

Tão bem que está cá, com o seu Chico cá. Terça-feira estamos lá. Dançou e gargalhou como se ouvisse música. E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

Construção(1971)
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado