12/30/2006

O demónio veste galochas

Sobre as galochas muito se escreveu e raramente se acertou. O mistério permanece, alimentando hordas de místicos da alquimia que se dedicam ao estudo da Queda de Adão e aos recantos mais ocultos dos vestíbulos de Los com a mesma paixão que esmiúçam um antigo par de galochas.
Como nos vestíbulos de Los o máximo que a moderna ciência do ocultismo encontrou foi um par de peúgas brancas com um símbolo hieroglífico (duas raquetes de ténis em riste) bem como uma velha revista “Gina”, ocorreu um natural cisma durante uma reunião numa “licor store” junto ao Tamisa, em que se tentava converter à pureza original do ouro uma armação de sombrinha. Dessa cisão nasceu a Sociedade Secreta Noite de Saturno, comandada pelo proeminente poeta William Blake, que defendia a utilização de galochas de pé alto para a pesca à linha de salmão nos lagos da Escócia.
Foi precisamente na Escócia que a alquimia neoplatónica obteve os seus maiores sucessos ao submeter a matéria primordial às sete fornalhas da alma (o número sete das sublimações foi atribuído a Saturno como sétimo planeta cosmológico), resultando daí, não ouro, como se pretendia, mas um líquido de voz grossa e sabor intenso, que os monges irlandeses chamaram de água da vida, e que nos bares de hotéis e snack-bar de bairro se conhece simplesmente como whisky.
Ferozes adeptos da destilação, os membros da Sociedade Secreta Noite de Saturno costumavam reunir-se em Inverness, em dias de conjugação cósmica, para beber o produto da destilaria mais próxima com galochas calçadas e jogar bridge.
Foi assim que ficaram célebres os simpósios de Inverness, sabendo-se agora que os gregos utilizavam a palavra simpósio para aquilo que os modernos definem como “apanhar uma bebedeira com os amigos.” Nesses simpósios era debatido o papel das galochas na subida dos trinta degraus da escada que “representa as trinta virtudes enunciadas por John Klimakos, abade do Mosteiro de Santa Catarina no Sinai, num tratado para a firmeza moral dos monges.” Para subir essa escada em direcção ao céu, William Blake e seus compinchas defendiam a utilização de galochas de cano alto e tingidas de verde, de preferência as da secção de pesca e caça do Harrod`s, que pela sua textura e impermeabilidade eram as mais convenientes a escaladas divinas.
A sociedade cultora de Saturno produziu vasta bibliografia sobre o mistério das galochas, mas a eclosão do espírito científico das newsmagazines de meados do século XX acabou por desmistificar as galochas e reduzi-las ao seu utilitarismo sequinho.
Foi na revista “Selecções do Reader`s Digest” de Outubro de 1951 que Jonathan Kepler, repórter, atribuiu a invenção das galochas ao italiano Ferrucio Lamborghini. Este notável e inventivo toscano fabricava tractores, e um dia a sua casa no Piemonte foi abalada por uma diluviana inundação. A signora Lamborghini havia despejado na sanita os restos de um lauto “farfalle”, que entupiram os canos, provocando o cataclismo.
Ferrucio, que acabara de comprar um luzidios sapatos italianos, temeu estragá-los e recortou os pneus do seu tractor, desenhando uma protecção para o seu fino calçado, podendo assim enfrentar de piaçá e balde na mão as cataratas de Niagara que escorriam pela sua marmórea escadaria. Mal sabia que havia sido o primeiro homem a descobrir uma das características mais apreciadas da borracha – a impermeabilidade – e assim dar o tiro de partida para uma grande indústria organizada em torno da simples necessidade de nos protegermos da chuva.
Foi também um grande avanço civilizacional para os pescadores de água doce, cuja população se reproduziu exponencialmente graças à diminuição de casos de tuberculose, na razão inversa da defenestração do salmão de água doce que é hoje tão provável de encontrar no Loch Ness, como a própria Nessie. Com o capital que somou a vender galochas, Ferrucio Lamborghini abandonou o negócio dos tractores e passou a fabricar automóveis super-desportivos, como o mítico Lamborghini Diablo, que deve ser guiado envergando um fato Armani e calçando sapatos italianos. Actualmente as galochas são utilizadas na pesca, na agricultura e também em clubes fétiche em Manilla.
No seu último bestseller “O tormento dos metais” o escritor sado-masoquista Joselu Pixoto escrevia: “foder só com galochas é sublime, é como trepar as escadas divinas com belas arcanjas-demónio a cravarem-nos a longas unhas envernizadas de escarlate nas costas.”
Hummm, só com galochas…

Late Call

Publicado no belo número um da revista A23, sonhada pelos meus talentosos amigos Ricardo, Salvado, Margarida e com contribuições de outros tantos amigos, quando fazer uma revista é como um serão de Agosto a beber copos com os amigos numa esplanada. Isto não é uma republicação, apenas uma boa recordação da noite em que o Ricardo me ligou a dizer - precisamos de um texto teu que temos que fazer mais um caderno para fechar a revista hoje de madrugada. You are the boss, meia garrafa de whisky e uns quantos charutos depois deu nisto, e deu um prazer dos diabos sabendo de antemão para quem e para onde era.

Cerco de Jericó

“Uma cidade é uma possibilidade, desde que se cultive a arte do possível”

Tom Waits e o meu avô Manuel Vitorino partilham uma filosofia diurética. Ambos são extraordinários bebedores e apreciam uma pequena particularidade da vida no campo – Mijar ao ar livre.
No pico de Dezembro o meu avô prefere regar as suas viçosas couves, enquanto Tom Waits montou o seu estúdio num galinheiro para gravar “Mule Variations” e nos “intermezzos” poder mijar ao luar do Arizona.
Há quem viva com a eterna melancolia da vida no campo, sem saber que a vida no campo se resume a mijar sob o luar calado e cúmplice e escutar a chuva a bater na terra, emanando aquele cheiro a fecundação da Gardunha.
Nas cidades, mijar na rua é punível com coima, e por isso inventaram o urinol, que pode ser um equipamento sanitário ou um meio de financiar a nova decoração do gabinete do vereador local. Felizmente, mijar nas cidades em Portugal é uma borla, ainda que meio secreta. Nas cidades da Mittleurope só mija quem paga.
Essa pequena diferença reflecte-se na qualidade do serviço. Trata-se da melhor publicidade à liberalização capitalista do xixizinho público. Enquanto em Portugal um urinol cheira a mijo e tem aquele encanto sórdido da poesia ejaculada nas paredes e na loiça da fábrica de Valadares, no meio da Europa as “toillets” cheiram a alfazema e o papel higiénico é mais do que suficiente para garatujar um volume de “A memória do mundo – das origens até ao ano 2000”. Este opus magnum da história da humanidade foi a última aquisição da minha mãe nas promoções do Círculo de Leitores. Ela ficou com o triturador Moulinex (a terceira, para o caso de avarias). e eu fiquei com a história do mundo, desde Lucy, a remotamente sexy avó de todos nós, até à última entrada que relata o problema da sobrepopulação no planeta terra: “Com uma taxa de crescimento de 2 por cento ao ano, a população mundial duplica em cada 35 anos. A manter-se assim o mundo terá 56 biliões de habitantes em 2100”.
Os catastrofistas, estilo Malthus, diriam que não haveria croissants quentes e sushi para todos, mas um inabalável optimista pensaria de imediato nas vastíssimas possibilidades de encarar de frente um problema de sobrepopulação de mulheres boas, e sobretudo disponíveis…
Na mesma obra enciclopédica que serve de base para os meus copos de whisky, conta-se a história de Jericó, oficialmente a “mais antiga cidade do mundo”. Mais interessante do que a sua fundação, que data do VIII milénio, é a história do seu cerco e destruição, como reza o livro de Josué do Antigo Testamento: “No sétimo dia, as muralhas de Jericó caíram, o povo entrou na cidade e passou a fio de espada homens, mulheres, crianças e velhos, até mesmo os bois, as ovelhas e os jumentos. Os muros de Jericó não voltaram a erguer-se.”
Esta carnificina recoloca o problema do trânsito em Lisboa num patamar ético completamente diferente, e leva-nos à inevitável catalogação das cidades modernas – entidades devorativas de terra e homens? Santuários do anonimato? Território da solidão pura?
Eu cá, que a Malthus prefiro o malte, gosto de pensar que uma cidade é acima de tudo uma possibilidade; um território de escolha, um caminho só nosso que eventualmente se cruza com outros. Uma cidade é uma liberdade vigiada, mas a liberdade possível de espetar o nariz na “Ronda da Noite” do Reijk Museum depois de um charro de “White Widow” num “coffe shop” em Amsterdão, ou de um mergulho na praia de Copacabana e depois comer um bolinho de bacalhau e ver as bundinhas cariocas a passar ao som do choppe; ou beber vinho e comer queijo em Paris, andar de táxi em Roma, ir às putas nos arranha-céus de Tóquio e nas catacumbas do Cais do Sodré, ou simplesmente dizer adeus ao homem que diz adeus nos semáforos do Saldanha.
Uma cidade é ir até Cabul no bolso de Vasquez Montalban e na companhia “groumet” do seu detective Pepe Carvalho, entre acepipes e iguarias.
É isso que vale a pena nas cidades – a possibilidade de conhecer as pequenas aldeias que somadas e multiplicadas fazem uma metrópole de sensações e descobertas. E isso é quase tão bom como mijar ao ar livre sob a sombra de uma Gardunha de Dezembro.

postal@apartado

James martin 30 anos
Estou a guardá-la para um ocasião especial – confidenciou Luís – a james martin 30 anos é o meu bem mais precioso. - Mas ela evapora-se – esclareceu Ricardo.
- No dia especial em que a beber sim. A fatalidade das ocasiões especiais é que se evaporam mais depressa do que os whiskys.


Intimidade

- Posso dormir de peúgas? Sussurrou Álvaro.
- Sim querido – respondeu Lena, puxando suavemente o edredão sobre os seus corpos. E dormiram juntos depois do amor, aquecidos por um sono a dois.

Espumante dos dias
Gosto de tactear a lombada dos meus livros como se fossem um harém de mil e uma noites.
Vê-los todas as noites, na intimidade enquanto me visto e pensar nas aventuras que a vida nos reserva. Tenho livros que cheguem até ao fim dos meus dias, mas mesmo que não os leia, sei sempre que os meus livros são a “esperança e a angústia de um futuro que passa.”


Sal, mar salgado

Eu preferia sol, ele preferia sal.
Eu preferia chocolate quente, ele preferia um jardim botânico.
Eu preferia uma viagem, ele preferia uma paragem.
Eu preferia telefonar, ele preferia não atender.
Eu preferia um jantar, e ele lanchar.
Eu preferia uma BD cómica, e ele um livro de arte.
Ainda assim
Eu preferia-o a ele
E ele a mim.

11/29/2006

Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro

Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

(Sofia Melo Breyner)

11/19/2006

Johnny Cash God's Gonna Cut You Down

Where the hell is Dennis Hopper?
God is cutting us all down, specially me, today. I´m down forever.
Probably the best video-clip of the territory

História improvável das coisas - O lenço de assoar

A Kleenex vende anualmente cerca de um zilhão de lenços de assoar em 134 países, à excepção da Coreia do Norte e de outros países do dito eixo do mal, que como se sabe são tramados de assoar.



Em pacotes de bolso ou caixinhas para colocar no tablier do carro ou ao lado do agrafador na mesa do escritório, os lenços Kleenexsão responsáveis directos pelo abate directo de cerca de dois milhões e trezentas mil árvores por ano.
Este intróito ecologicamente correcto serve para explicar porque é que tornar o lenço de assoar obsoleto foi um retrocesso civilizacional e também um mau negócio para a indústria de bordados à mão, já para não falar dos tarados de brasões, heráldica e filigranas. Longe vai o tempo em que o barão Karl-Heinz Von Foerster der Briegel Rummeninge et Haupsburgo on Baden podia assoar sonoramente as suas imponentes narinas austro-húngaras no linho macio e nas suas próprias iniciais KHVFBRH.
Actualmente o lenço de assoar é uma mera recordação de um tempo faustoso de público asseio e imundície privada. Um tempo em que os nossos egrégios avós depositavam meticulosamente a ranhoca no lenço de assoar, dobrando-o repetidas vezes até à capacidade de carga máxima aconselhar uma lavagem, e um novo lenço de assoar a despontar elegantemente no peitoril do paletó.
De acordo com a enciclopédia Brytannica o lenço de assoar começou a ser usado abundantemente na corte de Luís XIV, um costume introduzido pelo próprio Louis-Dieudonné (Luís Deusdado), que se celebrizou pelo seu mobiliário de quarto e pelo facto de proferir balelas grandiosas do estilo “O estado sou eu”, ou sábias verdades como “É mais fácil reconciliar a Europa inteira do que duas mulheres”.
A história da invenção do lenço de assoar está, segundo a enciclopédia brytannica, intimamente associada à aparição do guardanapo nas mesas da Velha Europa. Aquela pantagruélica enciclopédia remete esse facto para as memórias íntimas de Madame Valery Bicot, cortesã de opulento busto, que privou com os maiores taradões da corte de Luís XIV, incluindo o próprio, e que reuniu em opúsculos muito apreciados à época, um conjunto de picarescas confissões e depravações que lhe foram passando pelos cetim dos lençóis.
Na sua obra “Maneirismo: Retratos de más-maneiras”, Madame Bicot conta que o Rei era um grande consumidor de rapé e passava a vida a snifar aquele bendito aspergivo, que lhe originava cataratas de pingos no nariz.
Além disso, Louis Dieudonné era também alérgico a tapeçarias, huguenotes e pintelhos, o que lhe causava grande incómodo, já que passava a vida a assoar-se aos punhos folhados de renda, que naturalmente andavam sempre encardidos e faziam com que a sua diplomacia de punhos de renda fosse um bocado porcalhota.
Outra prática pouco elegante do absoluto suserano de toda a França era limpar o mangalho aos reposteiros depois de fornicar com as suas amantes, o que trazia grandes problemas à lavandaria de Versalhes e à côr do real instrumento, que por causa dos pigmentos dos reposteiros andava sempre esverdeada ou azulada, conforme o reposteiro.
Consultado o médico da corte, o Rei foi vivamente aconselhado a deixar-se dessas práticas de devassa higiene que lhe debilitavam a saúde e até podiam fazer perigar a sua masculinidade.
Com o terrível medo de se tornar panasca, o Rei convocou a sua modista preferida Madame Maria Lençot, expôs-lhe o problema. A desembaraçada mulher, descendente de emigrantes portugueses oriundos de Fornos de Algodres, rapidamente recortou com uma tesoura um quadrado de pano da almofada de linho, estendendo-o bem dobradinho ao rei, que grato lhe respondeu com as célebres palavras: “Lençot, tu peut t`assoir”.
A partir daí o rei passou a utilizar aqueles paninhos brancos para se assoar, e mais tarde, para limpar as beiças depois de se empanturrar em faisão com castanhas, já para não falar da terceira e última finalidade, que poupou os reposteiros de Versalhes a uma vida para a posteridade como banco de esperma real. De qualquer forma, a prudência aconselha os visitantes do Palácio Versalhes a levarem a sério o aviso “por favor não tocar”.

A cavalgada heróica continua em ...

A saga de Lost West, o primeiro western português continua em Lost West
So long strangers ...


11/12/2006

Joni Mitchell - A Case of You

Joni Mitchell - A Case of you, para um anónimo famoso. Canada dry with whisky for both of us.

11/10/2006

Crónica de uma reportagem anunciada - Nos bastidores de "Lost West", o primeiro western português


Regresso ao velho Oeste
“Make my day”
Clint Eastwood

Durante três semanas o Oeste do concelho do Fundão e a pacata aldeia de Janeiro de Cima foram tomadas de assalto por uma quadrilha selvagem, liderada pelo jovem realizador Mário Fernandes, autor do primeiro western português. Uma cavalgada aos bastidores hilariantes de “Lost West” na sela de Kit Carson, o mais rápido pistoleiro do Velho Oeste e com a mira afinada de Diamantino Gonçalves, o mais impiedoso fotógrafo do Velho Oeste.

Take 1 -Bebo whisky maçã e cuspo balas, my dear little Ford


Nos bastidores de “Lost West”, o primeiro western português

“Make my day”Clint Eastwood


Um pistoleiro do diabo em Janeiro de Cima. Vestido de negro, com chapéu de aba larga escondendo o olhar gélido e o “colt” pendendo da cintura em pose ameaçadora, franqueia a porta do “saloon” El Passadiço.
O som das esporas corta o silêncio sepulcral que os pacatos aldeões dedicam à sinistra figura. Carlito Quijote, o pistoleiro mais rápido do Velho Oeste lança-me um olhar mortal e engole de um trago um copo de whisky aviado por Sam, o barman. Cospe-o de imediato e vocifera – Isto não é sumo de maçã, é mesmo whisky! – Corta!
Gargalhada geral - Mais uma cena para o “making of” - sorri o jovem realizador Mário Fernandes que é também o autor do guião de “Lost West”, o primeiro western português, que esteve em rodagem em Janeiro de Cima e nas majestosas paisagens da zona Oeste do Concelho do Fundão.

Leg: Martha é uma mulher de armas e de muitos recursos ... só para a ver vale a pena ir ao cinema

Foram três semanas de tiroteios nas escarpas do Cabeço do Pião, duelos nos açudes da Barroca, espectaculares fugas a nado no Zêzere, pancadaria e beberagem à farta no bar Passadiço, cenas de amor na Praia Fluvial e nas grutas de Janeiro de Cima, deambulações fantasmagóricas na antiga Lavaria do Couto Mineiro, conspirações no cume da pirâmide de desperdícios das Minas da Panasqueira, reino de Beralt, o vilão da história, que exerce um magistério de terror quase alegórico sobre El Caballero (Janeiro de Cima).
Se John Ford tinha o seu Monument Valley, o nosso “little” Ford encontrou na sua própria terra as paisagens assombrosas para a sua primeira longa-metragem, que é simultaneamente um tributo à sua paixão pelo western como género maior do cinema clássico americano. Tudo graças a esse trota-terras de olhar apurado e espírito irrequieto que é também o director de fotografia do filme, Diamantino Gonçalves, o homem que nos obrigou a “torrar” nos 42º à sombra das ruínas dos Buchinos (acho que nunca uma Mini me soube tão bem) e que nos deu a conhecer uma região inóspita e apaixonante como aquela que se espraia ao longo do Zêzere do fim do mundo.
Já agora, convém explicar que eu sou Kit Carson, o pistoleiro que regressa à sua terra para vingar a morte da família e acabar com o império do mal de Beralt e seus capangas.

Leg: Kit Carson aperta uma faca de mato em Angel, depois de terem passado a rodagem em apertos

Take 2 – A quadrilha selvagem no manico-cómico

Os capangas de Beralt dão uns bofetões no padre.
A bandidagem ecuménica, ámen!


- Ainda vamos fazer disto um épico! É o grito de guerra da quadrilha selvagem do “summer fun productions”, um grupo de actores e técnicos improvisados entre os amigos e familiares do realizador. O guião foi escrito em menos de dois meses e muitas das personagens foram moldadas aos actores, o que facilitou o “casting”.
A belíssima heroína Martha é prima do realizador, o vilão Beralt é seu irmão, o Padre Holmes é colega finalista do curso de Direito, a Maria é a amiga franca-atiradora e anotadora crítica; alguns dos capangas, como Black Jack, já faziam parte da sua “entourage” das curtas-metragens e eu sou o nómada que abanca lá em casa para grandes maratonas cinéfilas a papar as obras completas do John Ford e Sam Peckinpah.
Outras personagens foram contratadas para breves e meteóricas aparições, como foi o caso de Jerónimo, o Bob Dylan da Beira Baixa, que além de assinar alguns originais da banda sonora, vestiu também a pele de um bandido mexicano cujas primeiras e últimas palavras foram - Se tocas en la botella, te hincho de granos de plomo, cábron!
Até o pai do realizador foi convocado para esta superprodução caseira. O “Pai” Fernandes acumulou funções. Além de ter de morrer cerca de três vezes no mesmo filme (estávamos curtos de figuração), foi também o responsável pelo pelouro das refeições e o comandante das tropas aquarteladas na casa Alvim Costa que durante duas semanas foi o manico-cómico que alojou a nossa quadrilha selvagem.
Sob a divisa “barriga vazia, não conhece alegria”, o hilariante Pai Fernandes iniciou-nos nos doces prazeres da cozinha Lavoisier, em que nada se perde e tudo se transforma, nem que seja numa bela massada do dia seguinte. Benditas saladinhas de tomate e tinto do garrafão que nos davam alento para as duras filmagens. É que isto fazer “western no budget” (sem apoios) não é banana, sobretudo para meninos da cidade pouco habituados às agruras da vida no campo.
Eu que o diga, que os únicos exercícios físicos que estou habituado a fazer são o haltero-copismo e o lançamento da beata, e quando muito um joguito de matraquilhos. Na pele de Kit Carson tive de andar a cavalo (ou pelo menos tentar), trocar umas boas murraças no lodo com Angel antes de lhe “apertar uma” faca de mato no bucho, subir e descer penedos de matagal cerrado, comer uma cabeça de cabrito assada que tresandava mais que o Zêzere em dias de descargas, ou até afogar-me no meio do rio, quando as botas e o pistolão comprado na Feira da Ladra a dois tipos com pinta de neo-nazis começaram a pesar mais do que a força do braço nadador.
Valeu a prontidão do realizador-salvador que me pescou do rio, depois dos lancinantes pedidos da ajuda, para descobrir, perante gargalhada geral, que afinal aqui o cowboy-herói se afogava numa zona com pé – mais uma para o “making of”, corta!
Como eu, todo o elenco teve de desafiar os medos e enfrentar com paciência estóica as exigentes provas físicas que nos habilitariam para os jogos sem fronteiras do Eládio Clímaco, já que sem “budget” não há duplos, e o realizador, tão embrenhado no perfeccionismo da obra e na beleza plástica das cenas, se esquece que somos simples mortais.
Grande respeito ganhámos todos aos actores profissionais, porque provámos um pouco do árduo e desgastante esforço de ter de repetir a mesma cena umas dez vezes, já que o realizador e os “cameraman” Bruninho, Jorge Souto e Zina Caramelo precisavam sempre de mais um plano da mesma cena. Só para terem uma ideia, fui obrigado a “repetir” cerca de dez “shots” de whisky às dez da manhã, podem pois imaginar o resultado, já que ao contrário de Carlito Quijote, eu não trabalho com sumo de maçã, prefiro o realismo. A partir de agora tiro sempre o meu chapéu ao Jackie Chan e jamais direi mal de qualquer actor.

Take 3 - Western-chanfana ou será barroco?

Leg: Pelos cornos de Belzebu, o Beralt Tin recusou carne pela primeira vez na vida. Pudera, comer uma cabeça de cabrito às onze, só com o estômago forrado a whisky! O barroco alegórico ou um bom gregório


Mas afinal que filme é este, um western português, para quê?
É a pergunta meio incrédula, meio divertida que toda a gente nos faz.
Ora a resposta é fácil - é um filme para nada, e por isso até pode bem ser um filme nihilista. Nós entendemos que é um filme gótico e barroco, imoral e moral, expressionista e “noir”, humano e desumano, um filme esperança e um filme desesperado.
Como dizia numa das entrevistas para o “making of” Leonel Barata, o nosso agente de ligação a Janeiro de Cima, produtor-para-todo-o-desenrascanço e também actor nas horas vagas da sua outra paixão, o restaurante “Fiado”:
- Não sei bem o que vai ser este filme ou se as pessoas vão gostar, mas sei se o filme transparecer todo o trabalho, voluntarismo e paixão que lhe dedicamos, então será certamente um épico!

- É pegar-lhe pelos cornos e dar uma dentada, tás a ver. Mário Fernandes, Marius, Tigana ou Little Ford mostra como se pega nos cornos da besta e se dá uma épica dentada


Depois desta grande aventura que foi fazer um western na Beira Baixa, o único público que queríamos mesmo que gostasse do filme é o bom povo de Janeiro de Cima, que recebeu esta cambada de malucos da quadrilha selvagem com carinho e apoio incondicional. A ante-estreia está marcada para daqui a um ano no Bar Passadiço, mas antes a quadrilha selvagem mais divertida do western-chanfana (e não spaghetti, como rezam as más línguas) regressa ao local do crime, porque ainda me falta limpar o canastro ao Beralt.
Make my day, punk!

Take 4 – O que é preciso para fazer um western? Um Cristo amputado, garrafas de whisky, charutos e muita imaginação

É simples. Basta ter um feroz cinéfilo de 22 anos, que devora filmes, sobretudo clássicos e é uma enciclopédia sobre o género western. Fechá-lo durante um mês num quarto andar em Lisboa a escrever um guião e a enviar SMS`s à borla para o elenco com notas de produção, estilo: Deixa crescer a barba; arranja chapéus de cowboy e pistolas; preciso de livros do Lucky Lucke, são fixes para ver os enquadramentos.
Uma visita à Feira da Ladra ajuda para os objectos e o guarda-roupa: uma estátua de Cristo amputado, um cinturão de um velho General na reforma, uma derringer de imitação.

Leg: Kit Carson tenta adoçar o pistolão do realizador mais rápido do Oeste, para ver se deita fumo. Química mal aplicada.

Depois é preciso cravar e planear. Cravar espingardas de caça de colecção ao tio, o cavalo do Leonel, pás para enterrar os mortos, cordas para enforcamentos, ovelhas, escadotes, muitas garrafas de whisky e algumas de sumo de maçã, cabeças de cabrito, charutos e sei lá mais o quê.
Tudo se arranja, tudo se desenrasca. E lá vamos para o fim do mundo com a tralha toda na velha carripana de caixa aberta do “Pai Fernandes”, mais habituada a transportar ameixas de exportação para a República Checa do que “estrelas” de cinema.
Depois é a logística e o plano de rodagens. Uns actores metem férias, outros fazem piscinas entre o Fundão e Janeiro de Cima. O dia começa sempre às 8 da manhã e não há dia sem imponderáveis: as cólicas do realizador, a chuva a potes e alguns “arrufos” entre a equipa – Eu cá não salto desse penhasco para o rio, tu és mas é maluco, salta tu!
Tudo na boa, que o filme é para fazer, custe o que custar, doa a quem doer. Mais do que um western-chanfana, “Lost west” é uma grande cóboiada.

Take 5 – Cumplicidades, ameixas que são boas para o cérebro (e para as checas) e o luar de Janeiro de cima

Fotos: Diamantino Gonçalves

Juntar uma dúzia de pessoas com idades compreendidas entre os 21 e os quase 60 anos num ambiente agreste do Velho Oeste e num manico-cómico de produção durante duas intensas semanas podia dar para o azar, tipo casa do Big Brother.
A verdade é que não deu, antes pelo contrário. Provavelmente o melhor de “Lost West” não se vai ver no ecrã. O melhor é ver como se cria uma pequena família, forjada na paixão pelo cinema e numa louca aventura idealizada pelo Mário Fernandes, e que todos abraçamos com entusiasmo e total dedicação. O mesmo entusiasmo que se calhar nos falta nas nossas vidas reais e que realizamos nesta ficção. Dei comigo a pensar várias vezes, se todas as pessoas fizessem na vida aquilo que gostam e com quem gostam, seriam felizes.

A voz doce de Maria e a guitarra de Tito. Para a próxima fazemos um musical on the road

E, foi esse bocado de felicidade que encontrámos no inóspito território do Oeste do Fundão e na acolhedora aldeia de Janeiro de Cima; a felicidade das pequenas coisas: a camaradagem, a entreajuda, a amizade e o humor, ah, esse humor que nos faz sentir vivos e que ilumina os dias cinzentos dos sorrisos calados nos lábios.
Perdoem-me a lamechice, mas em Janeiro de Cima redescobrimos a verdadeira importância das coisas, como as noites de lua cheia e do céu estrelado de Verão com conversas longas e saborosas como o whisky com água de castelo, ou os olhares cúmplices que só a minha querida quadrilha selvagem sabe trocar, porque partilhamos uma experiência pessoal e afectiva única.


O descanso do guerreiro, Pai Fernandes e o "Mundo a seus Pés"

A lua cheia de Janeiro de Cima e o brilho do olhar no reencontro com a minha quadrilha selvagem é motivo mais que suficiente para fazer de “Lost West” o filme da minha vida e daquela terra a minha nova terra. Vim de coração cheio.

As personagens e os diamantes de Diamantino

As personagens ainda se estão a vestir, mas elas são

O Vilão - Beralt Tin
Os maus - Carlito Quijote
Black Jack
Angel
Manelito
Os bons - Kit Carson
Martha
Tito
Padre Holmes
Maria
Sam
Charles
Os indiferentes - O coveiro
O mineiro
Os figurantes pagos para morrer

OS DIAMANTES DE DIAMANTINO



Carlito Quijote e o seu olhar à el matador



Black Jack e o sabor das framboesas silvestres



Black Jack é um bad mother fucker, lá isso é!



Padre Holmes e Martha partilham um sorriso evangélico



Aqueles que vão morrer te saúdam, Je te salut Maria



Martha e Kit - ser actor de cinema também tem partes boas




Angel sob a influência da bota de Kit



Kit Carson e Padre Holmes nos copos ( não foram poucos, hic!)


PS: cara quadrilha se tiverem mais fotos, mandem para rpelejao@gmail.com, para completar este portfólio, faltam-me fotos do Sam, do Tito, do Angel, do Diamantino, do Pai Fernandes, do realizador, do Bruninho, do Souto e do Zina, e claro do Beralt, mandem-lá para completar este portfólio, beijinhos e abracinhos

11/07/2006

História improvável das coisas - A banheira

Uma coisa é certa, se a banheira não tivesse sido inventada, provavelmente Marat ainda estaria vivo, gozando a reforma choruda que a Revolução francesa reserva para todos os seus filhos não decapitados.
Outra coisa é certa, a cantora Rita Lee provavelmente não teria vendido tantos discos já que não faria sentido "e só nós dois, numa banheira de espuma", se a banheira não tivesse sido inventada, e sem banheira a espuma seria também uma coisa que apenas coroaria as imperiais da Trindade e os dias de Boris Vian.
A importância da banheira para as sociedades industriais e para o cinema erótico só começou seriamente a ser investigada por P.T. Polyban, cientista norte-americano radicado no Alasca.
Corria o ano de 1898 e Polyban realizava um estudo sobre as rotas das invasões napoleónicas em períodos glaciares, quando subitamente ficou com o fogão a lenha do seu bungalow engripado, et pour cause, sem água quente para o banho e para o chá.
Com isto a sua banheira de pé alto perdeu o sentido da vida e iniciou uma espiral depressiva que a levou a várias tentativas de suicídio com a ingestão de enlatados de arenques em escabeche fora do prazo de validade importados de Peniche que, para quem não sabe, é uma terra pesqueira em Portugal de que Freud dizia - as mulheres têm inveja de Peniche.
Preocupado com a saúde mental da sua banheira e com o cheiro do seu sovaco, Polyban meteu ombros a uma investigação que seria determinante para o orgulho histórico da banheira e também para a história da higiene íntima.

Durante anos percorreu o mundo e visitou casas de banho nos locais mais recônditos, desde Salvaterra de Magos até à Pensão Vitória em Agadir, procurando pistas para encontrar a banheira original, ou seja, o momento na história em que o engenho humano fabricou um recipiente para se meter lá dentro nú e esfregara as virilhas com sabão azul.
No mar morto encontrou uns manuscritos a que não ligou peva, por lhe parecerem evangelhos, ou seja um tema batido, mas teve a sorte de conhecer Yuri Bidokov, considerado à época o segundo maior especialista em bidés e bechichés e o maior especialista em Proust, a seguir ao próprio, que há época ainda era vivo e continuava em busca do tempo perdido.
Quem não perdeu tempo foi Polyban que envenenou Bidokov com sais de banho, e lhe ficou com uma mala cheia de papéis que continham a morada de um místico hindú que sabia tudo sobre banhos, e também os planos secretos para uma revolucionária invenção que tornaria a banheira obsoleta.

Dois meses depois Polyban batia à porta de uma pira de paus de canela erguida na margem dos ganges, sobre a qual estava sentado Marabuta, o místico hindú, de pernas cruzadas à maneira dos eremitas, e a coçar vigorosamente os dedos dos pés, afectados por micoses.
Depois de obrigar Polyban a purificar-se nas águas do Ganges, Marabuta contou então a história da banheira original, que está contida na obra "O dia do primeiro banho, a humanidade lavadinha por baixo", que valeu a Polyban o reconhecimento da sociedade higiénica mundial, com sede em Basileia. A história era simples. Um chinês badalhoco, com aquafobia foi deportado pela dinastia Ming dentro de uma jarra para a costa sudoeste da Indía onde foi recolhido por um grupo de saltimbancos sikh.
Em tourné pelos palácios dos marajás, os saltimbancos eram obrigados a despiolharem-se nos lagos, antes de poderem meter pé nos palácios.
O chinês apátrida recusou-se a banhar-se nos lagos, por causa da sua religião. Carrancudo o guarda do Marajá mandou-o dar banho ao cão, e por tamanha blasfémia foi desmembrado do seu turbante, porque o marajá repeitava as religiões dos outros.

Homem culto e interessado por outras culturas, o marajá convidou o chinês Já Po Ban para tomar um duche com ele. Vieram dois criados e preparavam-se para os regar com uns funis de marfim. Mas o chinoca recusou-se a tomar banho nú com o marajá, porque desde as aulas de educação física em Xangai achava que tinha a pilinha pequenina, e por isso tinha vergonha.
Irado mas justo o marajá disse-lhe: Vais tomar banho comigo, e se o duche não te serve diz-me tu como iremos tomar banho juntos. Se não, o teu corpo vai tomar uma banhoca no Ganges e dar de comer aos crocodilos.
Com este ultimato, o chinoca não teve outro remédio senão pedir emprestadas duas enormes caldeiras das cozinhas do marajá, cheias de água previamente aquecida. Quando os corpulentos criados da copa chegaram ao jardim com os fumegantes tachos, o marajá perguntou - Vamos fazer sopa? Não sabes que o canibalismo foi abolido há 35 anos?
- Por quem sois meu caro marajá, vamos tomar os dois um banho de imersão em água quente neste banheira.
Assim reza a história de Polyban, nos jardins do marajá de Jaipur, foi tomado o primeiro banho de água quente da história, e nascia a banheira onde Marat encontraria a morte e Arquimedes ou lá como é que se chama o grego, encontraria inspiração para umas leis da física.
Quanto a Polyban, ficaria um homem rico e lavadinho, porque substituiu a banheira-depressiva da sua cabana por um revolucionário sistema de duche em casa, roubado da pasta de Bidokov, a que deu evidentemente o seu próprio nome.

11/05/2006

Bons olhos o escutem seu Chico

Tão bem que está cá, com o seu Chico cá. Terça-feira estamos lá. Dançou e gargalhou como se ouvisse música. E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

Construção(1971)
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

11/04/2006

Os Dantas de Caneças, Olé!

Se o Dantas é português eu queria ser espanhol.
É assim que pensam 28 por cento dos descendentes de Viriato, segundo o semanário Sol, que quando nasce é só para alguns.
Nós por cá, que não temos livros de poesia em casa para ler,nem laranjas de casca grossa para descascar, vamos brincando à iberização e escalfando o ovo nas ervilhas. É preciso defender o ovo escalfado e a ervilha contra a invasão da tortilha e da paella. Uma das coisas boas em Portugal é não precisármos de pensar para ter opinião e temos pena, lá isso temos, de não poder responder a inquéritos importantes do estilo - pensa que a extinção do bacalhau no mar do norte vai ter consequências na dieta mediterrânica e na vida privada do Pascoal?
Ora a mim que ninguém me pergunta nada, a não ser se já paguei o IRS (o Estado) ou se já fui ao dentista (a minha mãe), a mim parece-me que 28 por cento dos gajos que suam no metro em hora de ponta querem ser espanhóis por causa do carcanhol e do bom Governo.
Imaginam que se fossem espanhóis não teriam de andar a suar no metro em hora de ponta e que o bom Governo lhes meteria um Mercedes SLK na garagem, uma garrafa de Moet&Chandon no congelador, um Patek Phillipe no pulso e um voucher para uma semana nas Seychelles com uma morena escultural para meter nos lençóis.

Não percebo a indignação furibunda, iracunda, ejaculunda dos nossos putativos opinativos com a singela aspiração de uma população que passa duas horas nos transportes públicos para Caneças para chegar a casa e ainda ter de descongelar as ervilhas e escalfar um ovinho.
Eu próprio partilho daquelas singelas aspirações que o actual modelo de Estado social Europeu não está preparado para me dar.
Para já não preciso de seringas à borla ou desconto nos supositórios, mas uma semanada nas Seychelles dava-me jeito, lá isso dava.
É nisso que discordo dos meus 28 "compagnon de route" do Metropolitano de Lisboa. Mas porque raio havíamos querer ser espanhóis, que têm uma língua de gato vadio assanhado, gritam em vez de falar, aliás só falam e raramente se calam, dobram a voz do Humphrey Bogart e ainda por cima vestem-se sempre como se fossem para uma boda? Nunca me passaria pela cabeça ser espanhol e ter de ser feliz e expansivo por obrigação naciturna
Eu cá, se alguém me perguntasse, queria era ser holandês, fumar erva, ver quadros do Rembrandt e andar de bicicleta, ou então ser do Kuwait e ter uma auto-estrada só para mim, obviamente sem custos para o utilizador e sem limites de velocidade para o meu Ferrari Enzo.
Agora, espanhol!? Para isso prefiro continuar a andar de metro à hora de ponta e a comer ervilhas de pacote com ovos escalfados.

Tower of song

Sábado tingido de cinzento e melancolia. Ideal para café espesso e aromático e um canadiano suave. Leonard Cohen e "Tower of songs", a música de uma vida, quando a vida corre assim como os dias, cinzentos e melancólicos.

E agora a poesia...

Tower Of Song
Well my friends are gone and my hair is grey
I ache in the places where I used to play
And I'm crazy for love but I'm not coming on
I'm just paying my rent every day
Oh in the Tower of Song
I said to Hank Williams: how lonely does it get?
Hank Williams hasn't answered yet
But I hear him coughing all night long
A hundred floors above me
In the Tower of Song
I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice
And twenty-seven angels from the Great Beyond
They tied me to this table right here
In the Tower of Song
So you can stick your little pins in that voodoo doll
I'm very sorry, baby, doesn't look like me at all
I'm standing by the window where the light is strong
Ah they don't let a woman kill you
Not in the Tower of Song
Now you can say that I've grown bitter but of this you may be sure
The rich have got their channels in the bedrooms of the poor
And there's a mighty judgement coming, but I may be wrong
You see, you hear these funny voices
In the Tower of Song
I see you standing on the other side
I don't know how the river got so wide
I loved you baby, way back when
And all the bridges are burning that we might have crossed
But I feel so close to everything that we lost
We'll never have to lose it again
Now I bid you farewell, I don't know when I'll be back
There moving us tomorrow to that tower down the track
But you'll be hearing from me baby, long after I'm gone
I'll be speaking to you sweetly
From a window in the Tower of Song
Yeah my friends are gone and my hair is grey
I ache in the places where I used to play
And I'm crazy for love but I'm not coming on
I'm just paying my rent every day
Oh in the Tower of Song

10/03/2006

Serões de província

Posso ser eu a ter um ataque de snobismo televisivo, mas o Portugal moderninho continua a ser uma autêntica bimbolândia intelectual, onde se glorificam personagens menores e se veneram peidos. Em três dias vi as conversinha melífulas e venenosas do Prof. Marcelo, agora com nova "chaperon" de voz mais gutural, mas postura pseudo-jornalística ridícula - a Flor da voz grossa. A leitura da semana do Prof. Marcelo foi previsível, cinzenta e até básica, longe do brilhantismo que lhe apregoam e que lhe valem um estranho estatuto de eminência parda da análise em Portugal. Apenas o estilo meio histérico de menino hiper-activo conseguem manter alguém acordado ao seu desfiar de banalidades, politicamente convenientes.
Seguiu-se o programa Prós e Contras, estranhamente idolatrado como uma referência no debate televisivo em Portugal. Fátima Campos Ferreira, que em países civilizados não daria mais do que mera locutora de continuidade ou apresentadora de programas de cosmética e jardinagem para donas de casa, é aqui guindada a um estatuto de super-estrela do jornalismo televisivo. Boçal, inconveniente e tendenciosa, esta senhora meio assopeirada lá conduz um debate onde os convidados são normalmente autómatos que debitam meia dúzia de lugares comuns, arregimentados em duas barricadas que pretensamente traduzem duas visões de um determinado problema, mas que na essência representam o problema da vacuidade do pensamento e da reflexão em Portugal. A presença de Aznar a semana passada foi um momento deplorável de jornalismo televisivo.
Para fechar com chave de ouro, Judite de Sousa e António Vitorino, o homólogo de Marcelo para a área socialista. Eis dois exemplos acabados de total sobrevalorização profissional, ela como jornalista ele como político. A conversa é mole e bocejante, as análises medíocres e manipulatórias.
Apesar de tudo a RTP e muitos dos intelectuais-bimbos deste país, espalhados pelos jornais e pelos partidos, aclamam estes três programas como produtos de referência do serviço público de televisão.
Bendito zapping que está a começar o "60 minutes" ou um documentário da BBC sobre a vida selvagem. Mil vezes a vida sexual dos búfalos às graçolas de Marcelo, às venetas de Fátima e ao insuportável pedantismo de Judite e seu comparsa.
A vaidade é das poucas coisas que prospera em Portugal. Um alka-seltzer, por favor.

A Moagem do Fundão

A Moagem do Fundão renasceu das cinzas e abriu as portas esta semana para receber o IMAGO - festival de curtas metragens, e mais que isso grande festa do cinema, da música e da camaradagem cool.
O espaço que todos nós conhecemos em ruínas é agora o orgulho do Fundão como seu novo Centro Cultural. Não são os equipamentos culturais que fazem viver as cidades do interior, mas lá que ajudam a criar apetites culturais e de convívio, lá isso ajudam. Respira-se melhor no Fundão, bem haja bigi-bigi.

9/21/2006

The Wild Bunch Gun Battle Shootout

Não resisti. A mais magistral sequência de Sam Peckinpah de "A quadrilha selvagem".
Dez minutos de brutalidade estilizada, de orgia shakesperiana de sangue. A gatllinger a cuspir balas em corpos que tombam e jorram sangue no pó mexicana.
A chacina do velho western, a morte de Ford. O fim do Oeste. O recomeço do cinema, depois disto só Clint Eastwood conseguiu fazer um western melancólico e nostálgico em "Imperdoável". Imperdoável é mesmo passar ao lado deste filme. The Wild Bunch. Voltaremos ao tema, voltaremos ao farwest. Um dia.
Um momento de cinema

Pat Garret & Billy the Kid e Kit Carson de regresso a Janeiro de Cima

Este fim-de-semana Kit Carson regressa ao velho oeste, leva na bagagem as velhas botas, o revólver e as balas para acabar de vez com Carlito Quijote e Beralt Tin.

Times are changing, not me.
Adiós!

Dinah Washington - All Of Me

Quem me dera lá estar ... You tube takes me there, not all of me, but a part of me. Saudades do tempo do amor

9/20/2006

Direitinha sem norte

Entre todas as vacuidades parolas que o senhor New Democracy Monteiro costuma debitar, salva-se uma reflexão, que vinda de quem vem ganha recauchutada lucidez. Diz o Sr. Monteiro que -à direita falta-lhe fazer o debate ideológico, que tenho de reconhecer, a esquerda tem vindo a fazer.

Ora bem, spoken to the point, ou como diria o Holmes - elementar, meu caro Monteiro,
gargalhou cinicamente o inglês.


LEG: A direita debate-se em think thanks e em reuniões de antigos alunos da Católica

Se repararem bem toda a agenda de tema que esturrem a ideologia é colocada pela esquerda. Não discuto aqui se a mundivisão da esquerda é ou não umbigo-orientada, mas o que é facto é que é possível conhecer uma coerência e uma linha de debate no discurso das várias esquerdas que se polarizam em torno de temas comuns na Europa - o estado social europeu, a diabolização da américa e a expiação da culpa do ocidente no fenómeno do terrorismo, os temas de liberdade individual, os direitos das minorias, o problema da imigração, a agenda politicamente correcta e higiénica, a igualdade feroz, o asco à globalização económica e ao capitalismo, etc, etc.
São tudo discurso martelados e repetidos até à exaustão que criam uma frente unitária de pensamento global que cimenta qualquer dinâmica ideológica.

E o que faz a direita bem pensante e arrogantezinha que emana das canteras civilizadissima das universidades europeias de cariz conservador (os espadinhas cá do burgo)?
Não faz rigorosamente nada.
Limita-se a snobar sardonicamente da agenda da esquerda, floreando umas piadas impertinentes e rebuscadas que servem o seu auto-contentamento e o seu ufanismo militante.
A única barrita energética de ideologia que a direita têm é a sua indomável e dogmática fé no mercado livre e na economia; no neo-liberalismo como santo graal do bem estar das sociedades modernas, nos postulados da Escola de Chicago, nas receitas falidas e sobretudo, numa ensurdecedora falta de ideias e de pensamento, que se escuda sob o seu discurso elegante e culto.
Um imenso discurso sobre o vazio, é o que nos propõe uma direita a reboque da agenda de esquerda.

A direita limita-se a pensar reactivamente ao contrário do que a esquerda pensa, e mesmo alcandorada na sua pretensa superioridade intelectual, ainda não percebeu que dificilmente consegue responder à pergunta - o que é ser de direita hoje? - O mais provável é dizerem que são a favor da economia livre e contra o politicamente correcto, sem saber que o politicamente correcto é nalgumas das suas variantes uma produção da sua própria cepa.



Goste-se ou não, a última vez que a direita se debateu a sério foi com a ofensiva neo-con na América, enquanto a esquerda europeia já anda mergulhada em problemas intestinais e metafísicos desde a queda do Muro de Berlim e da "débacle" da Terceira Via de Tony Blair.
Para visitar esta nova direitinha perfumada e vazia de conteúdo, (apesar do bom estilo) basta passar os olhos pelas crónicas de João Pereira Coutinho, pela revisionista Atlântico ou pela fileira de blogues alegadamente não-alinhados e que demonstram bem que o discurso diletante e o azedume cool contra a esquerdalha anda a precisar de uma organizaçãozinha mental e de causas próprias.
Ou seja, e que tal para variar, uma ideias próprias e não uma gozação com a esquerdinha moderna. Será que em Portugal, o seu Monteiro pode dar uma ajudinha a reunir este rebanho desgarrado e orfão? Ou o melhor é esperarmos pelo regresso do seu Portas?
A direita portuguesa está entalada entre o desafio do pensamento ideológico ou do discurso demagógico, e tem preferido quase sempre o discurso demagógico, o que a coloca muito mais perto da esquerda que abomina, do que os seus arautos gostariam de pensar.
É feio gozar com os vizinhos, quando se está tão perigosamente próximo.

Cá por mim, venha o diabo e escolha, porque de idiotas está o inferno lotado

Santa inocência

A grande diferença entre o mundo muçulmano e o mundo cristão é apenas uma diferença horária. Um fuso de aproximadamente quatro séculos, que foi mais ou menos a época em que o mundo muçulmano parou no tempo, enquanto o fanatismo cristão foi mais ou menos domesticado.
A grande cultura árabe - da geografia à matemática, da arte à astronomia - não deu nenhum contributo que se veja à humanidade nos últimos três séculos, enquanto o mundo ocidental "entrou" com o desenvolvimento da Ciência, da Medicina, das artes e dos direitos humanos e da democracia. Mal ou bem, o grande Satã ocidental avançou porque se livrou dos espartilhos da fé cega e relegou-a para o plano espiritual e secular, enquanto isso os muçulmanos limitaram-se a sentarem-se sobre os seus dogmas, sobre o seu orgulho ferido e sobre os seus barris de petróleo. Eu cá prefiro este fuso horário do que uma hora medieva e das trevas que tantos ocidentais parecem sacralizar, sem saberem bem daquilo que estão a falar. Mas isto sou eu.

Papinha feita

Parece que o Papa é um desbocado. Lançou um labéu sobre uma comunidade religiosa conhecida pela sua tolerância, pacifismo e respeito pelos direitos humanos. Isso não se faz ó sô Papa, que injustiça.

9/16/2006

Regresso do Velho Oeste

Regresso do velho Oeste com a barba por fazer e um poema no bolso do cowboy, Kit Carson.
Uma folha amarfanhada que resistiu no bolso durante toda a rodagem de "Lost West", o primeiro western português.
Um poema para guardar no bolso e no coração, como memória de um tempo maravilhoso onde a amizade, camaradagem e ternura fraterna brotaram no xisto das aldeias perdidas do interior, como flor de esperança no amor. Um poema para guardar no bolso com os meus cowboys e companheiros de viagem - Tigana, bigibigi, leninha, Pai Fernandes, Carlito Quijote, Martha, Angel Carneiro, Adriano Black Jack ,Sam, Tito, Bruninho, Judge Holmes, Diamantino "Diamond", El Soto, Jerónimo, Charles e todos os que ajudaram a montar e produzir aquele que será para sempre - o filme da minha vida.

Obrigado a todos

"Aqui onde chegaste"

Aqui onde chegaste
a tua voz trocou-se
diz-me
onde puseste
o amor com que te sei

Merididano do meu corpo
mundo escorrido limite


"É a carícia da mão"

É a carícia da mão na minha face
o meu olhar repousado
o sorriso que passa
rápido
de mim a ti.

É toda uma ternura que nos chama
é a desolada solidão de quem se ama
e conhece o espaço
que fica
de aqui ali

É uma inclinação suspensa
por toda a pele que nos limita o corpo
gemido, doçura, pena
como o poema
a chamar por mim.

Sallete Tavares


Tantos corações no meu bolso

It`s time for a cowboy to dream

O meu Oeste nunca mais será o mesmo, sem a minha querida quadrilha selvagem de Janeiro de Cima. Just my rifle, my pony and me

8/16/2006

Eu gosto

de Agosto
à chuva...

7/09/2006

Apesar de tudo...

Estou com Deus ...
e Deuz é Zizu Zidane.
Força França

6/12/2006

Pé canhão - Venha mas é a redondinha

Pé-canhão é um rigoroso exclusivo www.sobola.blogspot.com. Em canal aberto e generalista, sem pay-tv.


Depois de semanas a sermos bombardeados com exercícios de aquecimento jornalistiqueiro para o Mundial, chegou finalmente a nossa hora. Como escrevia o Vasco, venha mas é a redondinha, que já basta de funfuns e gaitinhas.
Não me recordo de tamanha imbecilidade colectiva em antecipação de um Mundial, como explicava um dos 160 jornalistas da Globo destacado para o Mundial – se o Ronaldo pegar um resfriado é notícia de abertura, são 160 milhões de brasileiros a torcer por melhoras. Os jornalistas portugueses, que não são tantos nem têm metade da graça e por isso ocupam o tempo a debitar inotícias, a inventar pintelhices e a indignarem-se pelo simples facto dos jogadores da nossa selecção não se predisporem a dar autógrafos 24 horas por dia, a doentes mentais que afirmam com todas as letras que estar na presença de um ídolo de pernas felpudas foi o dia mais feliz das suas vidas.

Os dias mais felizes da minha vida vão ser os que se seguem no mês de Junho. Independentemente dos resultados da nossa selecção e desta febre patrioteira, o que realmente me importa é esse jogo chamado futebol jogado, e não os artistas de bancada.
O mundial de futebol é um momento supremo de felicidade para todos aqueles que amam o jogo, que vibram com as jogadas dos maiores intérpretes desta arte.
Infelizmente o campeonato do mundo de futebol que devia ser património da humanidade foi este ano vedado ao povo. Temos em canal aberto os jogos de Portugal, mas a maior parte vai para a Sport TV, que recorde-se não tem cobertura nacional e é um canal pago, para encher os bolsos da FIFA e do senhor Joaquim Oliveira.
Nada tenho contra o facto do senhor Oliveira comprar os direitos de transmissão e que os tente defender e rentabilizar, parece-me é escandaloso que selecções de futebol e respectivas federações de futebol de países (e não são clubes “privados”) possam impedir o “povão” da grande festa do futebol e entregar esses direitos a um canal de pay-tv. Que o futebol é um grande negócio e uma indústria multinacional já o sabíamos, mas em Portugal este Mundial ficará na história como a primeira vez que a mais universal e fantástica competição desportiva do mundo só seja acessível na íntegra a assinantes da Sport TV que desembolsam 25 euros por mês para ter acesso a esse condomínio privado.
Eu recuso-me a pagar essa pirataria espertalhaça e prefiro gastar 25 euros em imperiais para ir acompanhando o Coreia do Sul- Togo na tasca do sr. Carlos ali na Cruz Quebrada.
Mas voltando ao Vasco, venha mas é a redondinha.

6/03/2006

Eu gosto é do Verão ...



Abriu oficialmente a época balnear, bandeiras azuis há muitas, é fruta ó chocolate, olhó gelado. Mas o melhor do mundo não são as crianças, são mesmo os fatos de banho, os biquinis, os fios dentais, as tatuagens no tornozelo, os umbigos viçosos e pierçados, as peles bronzeadas, eu mirone me confesso - eu gosto é do Verão, de cerveja na mão e solslaio lambão.

Mensagem patrocinada pelo Instituto de Socorros a Náufragos do Discreto Galanço

5/29/2006

Abelha no chuveiro



O som do cortador de relva não é bem o cheiro de napalm pela manhã, mas quase.
A relva decepada emana um cheiro bruto a seiva que entra pelo estore entreaberto e me dá a volta ao estômago.
“Don`t walk on the grass, smoke it!” Já tive uma t-shirt dessas.
Sempre gostei de t-shirts com atitude. Tive uma que dizia “kill all artists”.
Era de um artista plástico americano e a estampa era uma pistola de pequeno calibre, como aquelas que as vamps escondiam na bolsa, nos velhos filmes de Hollywood.
Louras platinadas e mulheres fatais com gatilho mais fácil que cama.
Robert Mitchum conhecia-as como os nós dos seus dedos tatuados de “love and hate”, mas voltava sempre a desfalecer no abismo do desejo, e a passar de caçador a peça de caça.
Em “O Arrependido” de Tourneur foi presa fácil de Jane Greer.

Nesse filme descobri finalmente como distinguir Robert Mitchum de Kirk Douglas, ambos vítimas da predadora. A confusão de identidades devia-se à cova do queixo. Mas, Kirk tem também as faces macilentas, com uma acentuada depressão, tal como esse ícone do vilão western – Jack Palance.

Esta manhã sinto-me um “zombie”. Continuo a pensar que as duas únicas razões válidas para devolver a vida a um dorminhoco são a fome e o desejo.
De resto, não conheço um bom motivo para tirar o cú da cama.
Um mandrião em vale infértil encontra sempre bons pretextos para prolongar a estadia no colchão de última geração, enroscado em lençóis que são a extensão natural do corpo nú e quente.

Lá fora o triturador de relva prossegue o seu sistemático massacre jardineiro, com um som semelhante ao de uma invasão de blindados na II Guerra Mundial.
Existe uma espécie de conspiração matinal para destruir o último reduto do sono.
Um mundo-despertador, vigilante e austero que não permite cigarras desmoralizadoras.
O telemóvel toca repetidamente, e repetidamente lhe descarrego com o dedo silenciador; como um assassino contratado faz na vítima – friamente; sou um snooze killer.

A mulher-a-dias, romena com ar de estalajadeira da Idade Média, inicia o seu lufa de espanador e parafernália de máquinas de lavar tudo e mais alguma coisa.
Infelizmente a porta do quarto não é blindada e não tenho à mão a pistola silenciadora de Walther Matthau em “Hit Man”, nem um andar de altura suficiente para me suicidar, como Jack Lemon.
Dormir fora de horas é crime punível por lei, sobretudo pela lei do trabalho e do chefe.

Mas desta vez resisto, e programo mais uma elaborada desculpa para justificar o atraso matinal – uma inundação no prédio é variante ainda não testada, e até certo ponto verosímil, porque a probabilidade de alguém ter uma inundação no prédio durante a vida é alta, e apesar dos meus 30 e tal anos, nunca tivera que pegar em baldes para salvar a alcatifa, a não ser uma vez em que, podre de bêbado, peguei fogo ao sofá com um cigarro, e acordei quase imolado em fogo, como um suicida palestiniano.

Adio sempre aquele momento de racionalidade forçada, o serviço de despertar obrigatório. Como invejo os animais, que apenas se submetem à tirania dos seus relógios biológicos. Caçar, comer, dormir, foder e fugir.
Tudo a horas marcadas pelo organismo.
A mim apetece-me fugir para sempre nos lençóis, fazer uma apneia de sono e percorrer aquele vale branco, imaculado e tépido, como um Rasmunssen do Ártico, até ninguém se lembrar de mim, submergir-me num lago gelado do esquecimento. Apagar-me na alvura do linho. Os lençóis como metáfora do meu desaparecimento físico! Parece-me que já estou mesmo a precisar de um café forte e odoroso.

Sou um animal pré-programado e obediente. Apenas espero aquele momento em que o cérebro em tom imperativo de sargento-praça emita a voz de comando - Vá levanta-te, são horas! – E, em que o corpo, de mau grado, demora a cumprir a ordem e se distende num espreguiçar de revolta submissa, como que anunciando que irá mais uma vez acatar a ordem, mas que levará o seu tempo como um rebelde submisso e sem causa provável.
- Tudo leva o seu tempo.
Gosto desta ideia da tranquilidade paciente. É como a cicatriz que desenha no corpo a marca da faca, mas apaga a dor do esfaqueamento.

Os olhos semicerrados como as persianas vão-se acostumando à penumbra e à bruxuleante composição de luz sobre os objectos do meu quarto.
Na escrivaninha um porta-jóias sem jóias expõe-se ao dramatismo central da luz da manhã, dura e fresca.
Fecho de novo os olhos e recebo a luz difusa da janela aberta de Vermeer.
Dois homens e uma mulher com copo de vinho, um deles de cabeça apoiada no cotovelo que jaz sobre uma mesa de iguarias, parece aborrecido e sonolento.

Fica na sombra austera de um quadro negro e sujo em que a velha matrona retratada manda uma esguelha recriminadora ao segundo homem. Este curva-se numa vénia melífula sobre o corpo da mulher de vestido cor de laranja que está sentada com um copo de vinho na mão.
O sedutor ampara cuidadosamente a mão da rapariga, fingindo suster na gravidade o cálice de branco que ela ergue. Não parece ainda uma mulher feita, apenas uma debutante nos jogos do amor. Graceja-lhe algo por entre a voluptuosidade da bigodaça, inclinada com luxúria sobre o seu decote.
A rapariga sorri vagamente.
Um sorriso perdido e lúbrico, de quem aceita o galanteio e se entretém com a corte de fiéis que mantém reféns com uma promessa vaga e não consumada de cópula.

Ela olha para o espectador, para fora do quadro, insinuando a possibilidade do amor, como muitas mulheres fazem disfarçadamente, encostando o queixo ao ombro dos amantes ou maridos, mas levantando o olhar predador e de promessa até ao espectador, como num quadro deliciosamente canalha de Vermeer.

Abro de novo os olhos, e ela lá está.
Todas as manhãs, com a ingénua malícia do seu olhar, convidando a partilharmos um leito de lascívia e traição.
Comprei aquela reprodução de má qualidade numa feira de arte em segunda mão no Cais do Sodré, porque gostei do conjunto levemente dissoluto e hedonista, e decidi colocá-lo no quarto, bem em frente da cama de casal, que partilho há dois anos com a mulher que acorda mais cedo do que eu.
Ela nunca gostou do quadro do Vermeer. Não faz mal, eu também nunca gostei de acordar cedo.
Acho que as mulheres não percebem muito de homens e da complexidade da condição masculina, mas pelo menos intuem-na.
Ela sempre desconfiou que a jovem putinha de Vermeer era a amante oculta que partilhava o nosso quarto de casal, e que se corporizava na minha imaginação adúltera com requintes de cortesã experiente no fellatio-despertador.

Um quadro de Vermeer sugestionar a masturbação pode parecer uma erudição espontânea, mas para quem sofre de uma crónica erecção espontânea matinal como eu, diagnosticada pela sabedoria popular como a bem-aventurada e não raras vezes útil tusa de mijo, garanto que nesse caso, a imaginação visual é altamente estimulada pela malícia desta personagem de Vermeer.
Não é que precise de um estimulante visual, porque felizmente a minha imaginação onanista está em plena forma.
Estou totalmente de acordo com Woody Allen quando defende as vantagens da masturbação. Em primeiro lugar podemos ir para a cama com todas as mulheres que a nossa efabulação e memória visual consigam deitar a mão, desde a vizinha do lado, à mulher do patrão, passando pela sex-symbol da moda, ou até sex-symbols fora de moda - já mortas ou quase cadáveres.
É admirável que um homem feito tenha no seu cadastro punheteiro desde a Anita, Betty Boop ou Milady do Dartacão, e ainda Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Faye Dunwhay, Raquel Welch ou Sofia Loren.
Já imaginei tórridas aventuras sexuais com todas elas. É um mundo de oportunidades sexuais que ainda por cima dispensa a maçadora sedução, o jantarinho romântico, ou um copo lá em casa, com Chet Baker no CD para humidificar o grelo.
Nesse mundo perfeito, somos um Deus galanteador, que se serve do seu harém de prazer, a seu bel-prazer.
O romantismo da pívia está no seu feroz individualismo. O punheteiro não satisfaz a sua pulsão sexual com a mão porque não tem alternativa (bem, nem sempre), fá-lo pela tensa libertação que esse exorcismo permite, fá-lo desvendar no subconsciente os segredos dos demónios de saias que o povoam.
Fá-lo para saciar um desejo imenso, insaciável, inesgotável.
É como a vida, quando esta não satisfaz pede-se à imaginação para inventar outra.
De qualquer forma, hoje não tenciono masturbar-me na cama. Não tenho papel-higiénico à mão para me limpar, e se agora batesse uma, seria obrigado a levantar-me, e isso é a última coisa que me apetece fazer.
Também estou tão azamboado – acho que o vinho tinto de ontem era bom, mas era demasiado bom – e ainda estou invadido por aquele torpor que o vinho deixa como lembrança. A cabeça dói-me, e mesmo que se deitasse ao meu lado a Mónica Belucci, seria incapaz de lhe tocar. Aliás, essa não seria uma má desculpa para o meu chefe – Eh pá, nem imagina, então não é que a Mónica Belucci foi lá a casa hoje de manhã pedir sal!
São agora 9.45h, há mais de uma hora que resisto ao cérebro e ao telemóvel. Espeto mais um balázio de silenciador na nuca do Nokia, e viro-me para o outro lado, dando costas à janela e ao sorriso da putinha de Vermeer.
Acho que preciso de dormir mais um bocado, notifico traiçoeiramente o cérebro. Por favor deixe mensagem após o bip!
Agora já estou naquele transe hipnótico do REM. É segundo dizem os especialistas, uma boa altura para sonhar. É um sono leve e meio neurótico, em que as imagens dos sonhos passam tão rapidamente como videoclips da MTV.
(continua, se for caso disso)

Marsalgado Marsolitário

O náufrago estava morto de sede como Tântalo salgado.

Dois marinheiros amaram-se numa tarimba, para não enjoarem em mar alto.

Tabuleta sacrílega

"Deus não pensa, mas existe"

Fuckin`n Daisy

Daisy tomava comprimidos. Trabalhava numa florista e à hora de almoço fodia com o jardineiro no canteiro de orquídeas. Daisy não comia. Só tomava comprimidos e fodia no canteiro das orquídeas com o jardineiro à hora de almoço.

Joalharia homicida

O rubi de sangue
Na pele branca
O pescoço altivo e esguio
Por onde os beijos se perdiam
Em deslizes lentos
Silenciosos
Como o silêncio que faz
O assassino que se move na sombra

Os teus olhos límpidos
Que se cerram
Com um crucifixo de sangue
Que a navalha silenciosa
Te desenha
No pescoço, altivo, esguio
E frio

Facto escuro só com gelo

O whisky engoliu o homem de fato escuro. Pagou e saíu impecavelmente trajado a Black Label

A monotonia da existência contra o pacote de férias

"Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas."

Pois é, acabei de rasgar um folheto com viagens ao Panamá da Agência Abreu. Liguei a ventoínha no máximo, espremi dois limões no gelo e abri um livro do Fernando Pessoa. Está tanto calor que seria incapaz de caçar um leão ou sequer pensar ir a Sintra. Hoje, nem as queijadas me sabiam. Férias, gozo-as em casa, longe dos pacotes sem novidade.

5/21/2006

Peço a palavra

O político pediu a palavra, o juiz pediu uma sentença lavrada, o poeta sentou-se numa esplanada para beber uma limonada.

4/19/2006

Supermercado da Lei

Alguém me explica porque é que Isaltino/Valentim/Avelino/Fatinha Felgueiras continuam a ir ao supermercado sábado de manhã?

Deputados baldas

Nas intermináveis bichas de trânsito da passada quarta-feira à tarde em direcção ao Algarve, os portugas excitavam-se, espumavam, vinham-se com a notícia de que 130 deputados se tinham baldado ao plenário, impedindo uma votação por falta de quorum.

Num país de baldas não é de admirar que os deputados sejam apenas o espelho da Nação, ou então o que é que estariam milhares de portugueses numa tarde de trabalho a fazer numa bicha para o Algarve. Vou ali pedir uma baixa psicológica para Portugal e já volto, se for caso disso.

Umas boas nalgadas no juíz

Há uma figura jurídica e proteccionista que garante a irresponsabilidade dos juízes. Levado à letra, significa que os juízes são irresponsáveis, e por isso não podem ser castigados.
Aposto que muitos seguiram a carreira para fugirem às reguadas e chibatadas que levavam quando eram meninos e moços e que lhes criaram uma caterva de complexos que nem Freud seria capaz de listar e escalpelizar.

Os juízes do Supremo Tribunal de Justiça ilibaram uma funcionária de uma instituição que acolhe crianças deficientes, por maus tratos infligidos. Segundo o acordão daquele tribunal é aceitável e até estimável que se apliquem uns correctivos a crianças para lhes dar educação "como qualquer bom pai de família faria".
Ora o que me parece é que estes juízes merdosos que ornamentam os nossos tribunais superiores deviam alçar a toga e preparar as nalgas para umas boa sesssõa de chibata, tamanco, régua ou até um zurzido pau-de-cerejeira bem ao gosto do " velho pai de família", é que pelos vistos, a educação esmerada que receberam quando infantes não fez deles homens como deve ser, apenas vetustíssimos e aberrantes montes de merda humana. Porrada neles!

4/13/2006

sombrinha

As palavras organizaram uma fuga. Cavaram um túnel, iludiram a vigilância cerrada e desapareceram sem dizer nada.

Mais rápidos do que a sombra

O whisky engoliu o homem de fato escuro. Pagou e saiu, impecavelmente trajado a Black Label.

O velho lobo do mar uivou em desespero de terra firme. O farol, manhoso, manteve a noite escura como o breu da Cornualha.

"E o barco vai de saida!

Adeus ó cais de Alfama, que agoura vou de fugida. Levo-te comigo ó cana verde, levo-te comigo ó meu amor, para lá da aventura para lá do Equador."

Fausto para a viagem sabe sempre bem.

4/06/2006

Contos mais rápidas do que a própria sombra

Sebastião pegou no revólver e atirou a matar na estátua de um velho professor de Românicas.

4/05/2006

Chupando dropes de anis I - A sede do mal

Iluminação do inferno



Um homem que queira mutilar-se está maldito, não é verdade? Creio-me no inferno, logo, estou lá. (…) – Mais tarde, as delícias da maldição serão mais profundas. Um crime, depressa!, possa eu cair no vazio, em nome da lei humana
Arthur Rimbaud, “Uma temporada no inferno”



















A luz é a matéria-prima do cinema, a sombra a sua poética. Touch of Evil (A Sede do Mal - 1958) de Orson Welles é um filme que se desenha nessa sombra, nesse território de angústia, de maldição, entre o claro e o escuro, explorado de forma inebriante e até exibicionista por Welles, nesta obra-terminal do “film noir”, género que durante duas décadas marcou o cinema americano “alternativo” aos grandes estúdios e que gravou a sua marca genética em sucessivas gerações de realizadores.

Foi precisamente Orson Welles um dos “pioneiros” da chamada estética “noir”, com o seu “Citizen Kane” (1941) em que o dramatismo da iluminação “chiaroscuro” os ângulos de câmara distorcidos, inspirada no expressionismo alemão da década de 20 (de Fritz Lang a Murnau), e a secura e estilização dos diálogos naturalistas ao timbre de Heminghway, produzem uma inovadora linguagem artística que iria marcar muita da produção “B” dos estúdios americanos nas décadas de 30,40 e 50.
Dificilmente “Citizen Kane” pode ser catalogada como um “film noir” típico, mas ele introduz uma atmosfera e um virtuosismo técnico que passariam a ser seminais para a própria identidade do “film noir” que teve em cineastas como Nicholas Ray, Robert Aldrich, Jacques Tourneur, Anthony Mann, os seus mais originais e profícuos criadores; isto para não falar de Fritz Lang, o mais influente cineasta da primeira metade do séc. XX que com a sua obra “Matou” (1931) terá “inventado” o “film noir”, que exportaria para a América com “Fury” (1936) e “You only live once” (1937).
O legado de Lang ao “noir” é a sombra, não só a estética, mas a sombra humana, a violência e a psicologia do crime que passariam a ser o repasto desencantado e cínico da linguagem “noir”, e que encontrariam em escritores policiais “hard-boiled” como Dashiel Hammet ou Raymond Chandler, os mais convincentes “narradores”.

O noir era portanto um caldo de referências, e Orson Welles era ele também um explosivo concentrado de erudição, um shakespeariano na mais pura acepção da palavra (com 14 anos encenou a peça “Júlio César”).
Acima de tudo, Welles era um “experimentalista”, um insaciável curioso e provocador, e por isso mesmo, o filão do cinema “noir” e os seus arquétipos não o interessaram, excepto por razões instrumentais como em a “The Lady from Shangai” (1948).
Curiosamente foi Welles a escrever o epitáfio do “film noir” clássico com este “Touch of Evil”, que marcou o seu regresso aos EUA, dez anos depois de ter realizado o tremendo “flop” comercial que foi “The Lady of Shangay” (1948), que lhe valeu um bilhete de ida sem volta, pago pelo sistema dos grandes estúdios, que via em Welles um génio funesto e perigoso, capaz de dilapidar fortunas e orçamentos.

O regresso do “proscrito” Welles a Hollywood terá sido uma das poucas coisas boas que o actor Charlton Heston fez pelo cinema. Na época, Heston era uma “big star” e foi ele a impôr ao produtor de Séries B para a Universal (Albert Zugsmith) o nome de Welles para realizar uma adaptação de uma novela policial de Wit Masterson intitulada “Badge of Evil”.
Zugsmith teve mesmo de engolir o “príncipe anarca” para contentar a sua vedeta, e foi assim que Welles pegou na novela medíocre, reescreveu com Paul Monash todo o argumento e redesenhou a concepção do filme com novos cenários e um elenco “à sua imagem”, onde se incluem alguns actores-fétiche do cineasta como Joseph Cotten (o médico legista), Marlene Dietrich (Tanya) ou Akim Tamiroff (Joe Grandi).
Em a “Touch of Evil”, Welles conduz-nos numa descida ao inferno, às trevas, à essência subtil do mal, e nesse sentido é um dos filmes mais shakespearianos e belos desta autêntico Príncipe da Renascença, que se crava na história do cinema como uma obra apoteótica do “film noir”; uma obra barroca, no sentido que Jorge Luís Borges lhe dá, citado por Cintra Ferreira nos cadernos da Cinemateca: “Chamarei barroca a etapa final de qualquer arte, quando ela exibe e dilapida os seus meios”.

Exibicionista e excessiva esta obra de Welles estoira com todo o orçamento do filme logo na primeira cena, que constitui o mais longo e lendário plano-sequência da história do cinema. O movimento de câmara ininterrupto dura três minutos e começa com a colocação de uma bomba no porta-bagagens do carro de um empresário americano que regressa a casa depois de uma noite de pândega com uma stripper mexicana, numa pequena e sórdida cidade fronteiriça entre os EUA e o México.




O movimento da câmara acompanha o carro e oferece-nos uma visão tenebrosa daquelas ruelas escuras, povoada de criminosos, prostitutas e “habitantes das sombras”. A música, com uma espécie de rufar diabólico de tambores acentua a tenção crescente à medida que o carro vai seguindo a sua marcha lenta e se cruza com um casal em lua-de-mel - Vargas (Charlton Heston) um polícia mexicano incorruptível e a sua jovem e atraente esposa americana Susan (Janet Leigh).
A câmara e a atenção do espectador desviam-se para o casal, que se beija, até que o plano-sequência termina abruptamente com o som em “raccord” da explosão do carro e as imagens do veículo a arder.
Este homicídio despoleta todo a trama em que Vargas terá de colaborar com o seu “homólogo”, e a sua “bête noir” do outro lado da fronteira, o Detective Hank Quinlan, um polícia álcoolico, corrupto e racista, uma composição colossal do próprio Orson Welles. Totalmente desfigurado pela obesidade, parece um cadáver inchado, devorando barras de chocolate e movimentando-se a custo sobre a sua bengala. Quinlan é a personificação do mal e o filme é uma descida ao seu inferno interior, uma visita aos seus demónios escondidos e que se manifestam na forma manipuladora como tenta desvendar o crime da bomba no carro, e simultaneamente, ocultar os seus próprios crimes (a cena do homicído de Joe Grande é arrepiante, graças à colocação da câmara por cima da janela da porta, permitindo-nos apenas ver o terror estampado na face de Joe Grande e escutar os grunhidos homicidas, como se fosse um javali chafurdando na sua vítima).
Com uma iluminação ferozmente “chiaroscuro” e planos dramáticos (Quinlan é sempre filmado de um ângulo inferior), Welles mergulha nos arquétipos do film noir – o crime, o passado que volta para nos assombrar, a violência e a corrupção, para nos oferecer um festim de paranóia e ilusionismo.
Porque é isso que Welles é acima de tudo, um prestidigitador que subverte e parodia cinicamente as emoções humanas, lançando-nos no abismo do medo e nas garras dos nossos próprios demónios interiores.
Uma espiral de crime e castigo num filme em que a cena inicial e a cena final se completam de forma perfeita.

No atoleiro sombrio as feras humanas devoram-se, num “mise en scéne” próximo da visão de Welles do final de Rei Lear, uma decadência simbólica em que os magníficos e exuberantes recursos estilísticos de Welles têm também um papel narrativo e um contêm o anúncio de um homicídio premeditado – a morte por asfixia do “film noir”.
Muitos filmes sombrios foram feitos depois deste, mas em nenhum outro o mal voltou a ser iluminado desta forma.

Contos mais rápidos do que a própria sombra:

Cuidadosamente, a sombra moveu-se devagar em sentido inverso aos ponteiros do relógio.


O almirante afogou-se num cálice de xerez. O mar espelhava uma lua de solstício, inquieta, inquietamente serena.

Calmamente o mergulhador encheu os pulmões de ar pela última vez. Depois submergiu-se em dívidas.

Letra

Monotype Corsiva

Já sei que não sou
O teu tipo de letra
E que a caligrafia
Com que desenho
Asas no teu ventre
Não é o teu ómega
Nem sequer
O teu quartzo
Já sei que não sou
O teu tipo de letra

Já sei que
Nunca te escrevi
O amor de que
Te falei