The Wild Bunch Gun Battle Shootout
Não resisti. A mais magistral sequência de Sam Peckinpah de "A quadrilha selvagem".
Dez minutos de brutalidade estilizada, de orgia shakesperiana de sangue. A gatllinger a cuspir balas em corpos que tombam e jorram sangue no pó mexicana.
A chacina do velho western, a morte de Ford. O fim do Oeste. O recomeço do cinema, depois disto só Clint Eastwood conseguiu fazer um western melancólico e nostálgico em "Imperdoável". Imperdoável é mesmo passar ao lado deste filme. The Wild Bunch. Voltaremos ao tema, voltaremos ao farwest. Um dia.
Um momento de cinema
9/21/2006
Pat Garret & Billy the Kid e Kit Carson de regresso a Janeiro de Cima
Este fim-de-semana Kit Carson regressa ao velho oeste, leva na bagagem as velhas botas, o revólver e as balas para acabar de vez com Carlito Quijote e Beralt Tin.
Times are changing, not me.
Adiós!
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Dinah Washington - All Of Me
Quem me dera lá estar ... You tube takes me there, not all of me, but a part of me. Saudades do tempo do amor
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Rui Pelejão
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9/20/2006
Direitinha sem norte
Entre todas as vacuidades parolas que o senhor New Democracy Monteiro costuma debitar, salva-se uma reflexão, que vinda de quem vem ganha recauchutada lucidez. Diz o Sr. Monteiro que -à direita falta-lhe fazer o debate ideológico, que tenho de reconhecer, a esquerda tem vindo a fazer.
Ora bem, spoken to the point, ou como diria o Holmes - elementar, meu caro Monteiro,
gargalhou cinicamente o inglês.
LEG: A direita debate-se em think thanks e em reuniões de antigos alunos da Católica
Se repararem bem toda a agenda de tema que esturrem a ideologia é colocada pela esquerda. Não discuto aqui se a mundivisão da esquerda é ou não umbigo-orientada, mas o que é facto é que é possível conhecer uma coerência e uma linha de debate no discurso das várias esquerdas que se polarizam em torno de temas comuns na Europa - o estado social europeu, a diabolização da américa e a expiação da culpa do ocidente no fenómeno do terrorismo, os temas de liberdade individual, os direitos das minorias, o problema da imigração, a agenda politicamente correcta e higiénica, a igualdade feroz, o asco à globalização económica e ao capitalismo, etc, etc.
São tudo discurso martelados e repetidos até à exaustão que criam uma frente unitária de pensamento global que cimenta qualquer dinâmica ideológica.
E o que faz a direita bem pensante e arrogantezinha que emana das canteras civilizadissima das universidades europeias de cariz conservador (os espadinhas cá do burgo)?
Não faz rigorosamente nada.
Limita-se a snobar sardonicamente da agenda da esquerda, floreando umas piadas impertinentes e rebuscadas que servem o seu auto-contentamento e o seu ufanismo militante.
A única barrita energética de ideologia que a direita têm é a sua indomável e dogmática fé no mercado livre e na economia; no neo-liberalismo como santo graal do bem estar das sociedades modernas, nos postulados da Escola de Chicago, nas receitas falidas e sobretudo, numa ensurdecedora falta de ideias e de pensamento, que se escuda sob o seu discurso elegante e culto.
Um imenso discurso sobre o vazio, é o que nos propõe uma direita a reboque da agenda de esquerda.
A direita limita-se a pensar reactivamente ao contrário do que a esquerda pensa, e mesmo alcandorada na sua pretensa superioridade intelectual, ainda não percebeu que dificilmente consegue responder à pergunta - o que é ser de direita hoje? - O mais provável é dizerem que são a favor da economia livre e contra o politicamente correcto, sem saber que o politicamente correcto é nalgumas das suas variantes uma produção da sua própria cepa. 
Goste-se ou não, a última vez que a direita se debateu a sério foi com a ofensiva neo-con na América, enquanto a esquerda europeia já anda mergulhada em problemas intestinais e metafísicos desde a queda do Muro de Berlim e da "débacle" da Terceira Via de Tony Blair.
Para visitar esta nova direitinha perfumada e vazia de conteúdo, (apesar do bom estilo) basta passar os olhos pelas crónicas de João Pereira Coutinho, pela revisionista Atlântico ou pela fileira de blogues alegadamente não-alinhados e que demonstram bem que o discurso diletante e o azedume cool contra a esquerdalha anda a precisar de uma organizaçãozinha mental e de causas próprias.
Ou seja, e que tal para variar, uma ideias próprias e não uma gozação com a esquerdinha moderna. Será que em Portugal, o seu Monteiro pode dar uma ajudinha a reunir este rebanho desgarrado e orfão? Ou o melhor é esperarmos pelo regresso do seu Portas?
A direita portuguesa está entalada entre o desafio do pensamento ideológico ou do discurso demagógico, e tem preferido quase sempre o discurso demagógico, o que a coloca muito mais perto da esquerda que abomina, do que os seus arautos gostariam de pensar.
É feio gozar com os vizinhos, quando se está tão perigosamente próximo.
Cá por mim, venha o diabo e escolha, porque de idiotas está o inferno lotado
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Santa inocência
A grande diferença entre o mundo muçulmano e o mundo cristão é apenas uma diferença horária. Um fuso de aproximadamente quatro séculos, que foi mais ou menos a época em que o mundo muçulmano parou no tempo, enquanto o fanatismo cristão foi mais ou menos domesticado.
A grande cultura árabe - da geografia à matemática, da arte à astronomia - não deu nenhum contributo que se veja à humanidade nos últimos três séculos, enquanto o mundo ocidental "entrou" com o desenvolvimento da Ciência, da Medicina, das artes e dos direitos humanos e da democracia. Mal ou bem, o grande Satã ocidental avançou porque se livrou dos espartilhos da fé cega e relegou-a para o plano espiritual e secular, enquanto isso os muçulmanos limitaram-se a sentarem-se sobre os seus dogmas, sobre o seu orgulho ferido e sobre os seus barris de petróleo. Eu cá prefiro este fuso horário do que uma hora medieva e das trevas que tantos ocidentais parecem sacralizar, sem saberem bem daquilo que estão a falar. Mas isto sou eu.
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Papinha feita
Parece que o Papa é um desbocado. Lançou um labéu sobre uma comunidade religiosa conhecida pela sua tolerância, pacifismo e respeito pelos direitos humanos. Isso não se faz ó sô Papa, que injustiça.
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9/16/2006
Regresso do Velho Oeste
Regresso do velho Oeste com a barba por fazer e um poema no bolso do cowboy, Kit Carson.
Uma folha amarfanhada que resistiu no bolso durante toda a rodagem de "Lost West", o primeiro western português.
Um poema para guardar no bolso e no coração, como memória de um tempo maravilhoso onde a amizade, camaradagem e ternura fraterna brotaram no xisto das aldeias perdidas do interior, como flor de esperança no amor. Um poema para guardar no bolso com os meus cowboys e companheiros de viagem - Tigana, bigibigi, leninha, Pai Fernandes, Carlito Quijote, Martha, Angel Carneiro, Adriano Black Jack ,Sam, Tito, Bruninho, Judge Holmes, Diamantino "Diamond", El Soto, Jerónimo, Charles e todos os que ajudaram a montar e produzir aquele que será para sempre - o filme da minha vida.
Obrigado a todos
"Aqui onde chegaste"
Aqui onde chegaste
a tua voz trocou-se
diz-me
onde puseste
o amor com que te sei
Merididano do meu corpo
mundo escorrido limite
"É a carícia da mão"
É a carícia da mão na minha face
o meu olhar repousado
o sorriso que passa
rápido
de mim a ti.
É toda uma ternura que nos chama
é a desolada solidão de quem se ama
e conhece o espaço
que fica
de aqui ali
É uma inclinação suspensa
por toda a pele que nos limita o corpo
gemido, doçura, pena
como o poema
a chamar por mim.
Sallete Tavares
Tantos corações no meu bolso
It`s time for a cowboy to dream
O meu Oeste nunca mais será o mesmo, sem a minha querida quadrilha selvagem de Janeiro de Cima. Just my rifle, my pony and me
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8/16/2006
7/09/2006
Apesar de tudo...
Estou com Deus ...
e Deuz é Zizu Zidane.
Força França
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6/12/2006
Pé canhão - Venha mas é a redondinha
Pé-canhão é um rigoroso exclusivo www.sobola.blogspot.com. Em canal aberto e generalista, sem pay-tv.
Depois de semanas a sermos bombardeados com exercícios de aquecimento jornalistiqueiro para o Mundial, chegou finalmente a nossa hora. Como escrevia o Vasco, venha mas é a redondinha, que já basta de funfuns e gaitinhas.
Não me recordo de tamanha imbecilidade colectiva em antecipação de um Mundial, como explicava um dos 160 jornalistas da Globo destacado para o Mundial – se o Ronaldo pegar um resfriado é notícia de abertura, são 160 milhões de brasileiros a torcer por melhoras. Os jornalistas portugueses, que não são tantos nem têm metade da graça e por isso ocupam o tempo a debitar inotícias, a inventar pintelhices e a indignarem-se pelo simples facto dos jogadores da nossa selecção não se predisporem a dar autógrafos 24 horas por dia, a doentes mentais que afirmam com todas as letras que estar na presença de um ídolo de pernas felpudas foi o dia mais feliz das suas vidas.
Os dias mais felizes da minha vida vão ser os que se seguem no mês de Junho. Independentemente dos resultados da nossa selecção e desta febre patrioteira, o que realmente me importa é esse jogo chamado futebol jogado, e não os artistas de bancada.
O mundial de futebol é um momento supremo de felicidade para todos aqueles que amam o jogo, que vibram com as jogadas dos maiores intérpretes desta arte.
Infelizmente o campeonato do mundo de futebol que devia ser património da humanidade foi este ano vedado ao povo. Temos em canal aberto os jogos de Portugal, mas a maior parte vai para a Sport TV, que recorde-se não tem cobertura nacional e é um canal pago, para encher os bolsos da FIFA e do senhor Joaquim Oliveira.
Nada tenho contra o facto do senhor Oliveira comprar os direitos de transmissão e que os tente defender e rentabilizar, parece-me é escandaloso que selecções de futebol e respectivas federações de futebol de países (e não são clubes “privados”) possam impedir o “povão” da grande festa do futebol e entregar esses direitos a um canal de pay-tv. Que o futebol é um grande negócio e uma indústria multinacional já o sabíamos, mas em Portugal este Mundial ficará na história como a primeira vez que a mais universal e fantástica competição desportiva do mundo só seja acessível na íntegra a assinantes da Sport TV que desembolsam 25 euros por mês para ter acesso a esse condomínio privado.
Eu recuso-me a pagar essa pirataria espertalhaça e prefiro gastar 25 euros em imperiais para ir acompanhando o Coreia do Sul- Togo na tasca do sr. Carlos ali na Cruz Quebrada.
Mas voltando ao Vasco, venha mas é a redondinha.
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6/03/2006
Eu gosto é do Verão ...

Abriu oficialmente a época balnear, bandeiras azuis há muitas, é fruta ó chocolate, olhó gelado. Mas o melhor do mundo não são as crianças, são mesmo os fatos de banho, os biquinis, os fios dentais, as tatuagens no tornozelo, os umbigos viçosos e pierçados, as peles bronzeadas, eu mirone me confesso - eu gosto é do Verão, de cerveja na mão e solslaio lambão.
Mensagem patrocinada pelo Instituto de Socorros a Náufragos do Discreto Galanço
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5/29/2006
Abelha no chuveiro

O som do cortador de relva não é bem o cheiro de napalm pela manhã, mas quase.
A relva decepada emana um cheiro bruto a seiva que entra pelo estore entreaberto e me dá a volta ao estômago.
“Don`t walk on the grass, smoke it!” Já tive uma t-shirt dessas.
Sempre gostei de t-shirts com atitude. Tive uma que dizia “kill all artists”.
Era de um artista plástico americano e a estampa era uma pistola de pequeno calibre, como aquelas que as vamps escondiam na bolsa, nos velhos filmes de Hollywood.
Louras platinadas e mulheres fatais com gatilho mais fácil que cama.
Robert Mitchum conhecia-as como os nós dos seus dedos tatuados de “love and hate”, mas voltava sempre a desfalecer no abismo do desejo, e a passar de caçador a peça de caça.
Em “O Arrependido” de Tourneur foi presa fácil de Jane Greer.
Nesse filme descobri finalmente como distinguir Robert Mitchum de Kirk Douglas, ambos vítimas da predadora. A confusão de identidades devia-se à cova do queixo. Mas, Kirk tem também as faces macilentas, com uma acentuada depressão, tal como esse ícone do vilão western – Jack Palance.
Esta manhã sinto-me um “zombie”. Continuo a pensar que as duas únicas razões válidas para devolver a vida a um dorminhoco são a fome e o desejo.
De resto, não conheço um bom motivo para tirar o cú da cama.
Um mandrião em vale infértil encontra sempre bons pretextos para prolongar a estadia no colchão de última geração, enroscado em lençóis que são a extensão natural do corpo nú e quente.
Lá fora o triturador de relva prossegue o seu sistemático massacre jardineiro, com um som semelhante ao de uma invasão de blindados na II Guerra Mundial.
Existe uma espécie de conspiração matinal para destruir o último reduto do sono.
Um mundo-despertador, vigilante e austero que não permite cigarras desmoralizadoras.
O telemóvel toca repetidamente, e repetidamente lhe descarrego com o dedo silenciador; como um assassino contratado faz na vítima – friamente; sou um snooze killer.
A mulher-a-dias, romena com ar de estalajadeira da Idade Média, inicia o seu lufa de espanador e parafernália de máquinas de lavar tudo e mais alguma coisa.
Infelizmente a porta do quarto não é blindada e não tenho à mão a pistola silenciadora de Walther Matthau em “Hit Man”, nem um andar de altura suficiente para me suicidar, como Jack Lemon.
Dormir fora de horas é crime punível por lei, sobretudo pela lei do trabalho e do chefe.
Mas desta vez resisto, e programo mais uma elaborada desculpa para justificar o atraso matinal – uma inundação no prédio é variante ainda não testada, e até certo ponto verosímil, porque a probabilidade de alguém ter uma inundação no prédio durante a vida é alta, e apesar dos meus 30 e tal anos, nunca tivera que pegar em baldes para salvar a alcatifa, a não ser uma vez em que, podre de bêbado, peguei fogo ao sofá com um cigarro, e acordei quase imolado em fogo, como um suicida palestiniano.
Adio sempre aquele momento de racionalidade forçada, o serviço de despertar obrigatório. Como invejo os animais, que apenas se submetem à tirania dos seus relógios biológicos. Caçar, comer, dormir, foder e fugir.
Tudo a horas marcadas pelo organismo.
A mim apetece-me fugir para sempre nos lençóis, fazer uma apneia de sono e percorrer aquele vale branco, imaculado e tépido, como um Rasmunssen do Ártico, até ninguém se lembrar de mim, submergir-me num lago gelado do esquecimento. Apagar-me na alvura do linho. Os lençóis como metáfora do meu desaparecimento físico! Parece-me que já estou mesmo a precisar de um café forte e odoroso.
Sou um animal pré-programado e obediente. Apenas espero aquele momento em que o cérebro em tom imperativo de sargento-praça emita a voz de comando - Vá levanta-te, são horas! – E, em que o corpo, de mau grado, demora a cumprir a ordem e se distende num espreguiçar de revolta submissa, como que anunciando que irá mais uma vez acatar a ordem, mas que levará o seu tempo como um rebelde submisso e sem causa provável.
- Tudo leva o seu tempo.
Gosto desta ideia da tranquilidade paciente. É como a cicatriz que desenha no corpo a marca da faca, mas apaga a dor do esfaqueamento.
Os olhos semicerrados como as persianas vão-se acostumando à penumbra e à bruxuleante composição de luz sobre os objectos do meu quarto.
Na escrivaninha um porta-jóias sem jóias expõe-se ao dramatismo central da luz da manhã, dura e fresca.
Fecho de novo os olhos e recebo a luz difusa da janela aberta de Vermeer.
Dois homens e uma mulher com copo de vinho, um deles de cabeça apoiada no cotovelo que jaz sobre uma mesa de iguarias, parece aborrecido e sonolento.
Fica na sombra austera de um quadro negro e sujo em que a velha matrona retratada manda uma esguelha recriminadora ao segundo homem. Este curva-se numa vénia melífula sobre o corpo da mulher de vestido cor de laranja que está sentada com um copo de vinho na mão.
O sedutor ampara cuidadosamente a mão da rapariga, fingindo suster na gravidade o cálice de branco que ela ergue. Não parece ainda uma mulher feita, apenas uma debutante nos jogos do amor. Graceja-lhe algo por entre a voluptuosidade da bigodaça, inclinada com luxúria sobre o seu decote.
A rapariga sorri vagamente.
Um sorriso perdido e lúbrico, de quem aceita o galanteio e se entretém com a corte de fiéis que mantém reféns com uma promessa vaga e não consumada de cópula.
Ela olha para o espectador, para fora do quadro, insinuando a possibilidade do amor, como muitas mulheres fazem disfarçadamente, encostando o queixo ao ombro dos amantes ou maridos, mas levantando o olhar predador e de promessa até ao espectador, como num quadro deliciosamente canalha de Vermeer.
Abro de novo os olhos, e ela lá está.
Todas as manhãs, com a ingénua malícia do seu olhar, convidando a partilharmos um leito de lascívia e traição.
Comprei aquela reprodução de má qualidade numa feira de arte em segunda mão no Cais do Sodré, porque gostei do conjunto levemente dissoluto e hedonista, e decidi colocá-lo no quarto, bem em frente da cama de casal, que partilho há dois anos com a mulher que acorda mais cedo do que eu.
Ela nunca gostou do quadro do Vermeer. Não faz mal, eu também nunca gostei de acordar cedo.
Acho que as mulheres não percebem muito de homens e da complexidade da condição masculina, mas pelo menos intuem-na.
Ela sempre desconfiou que a jovem putinha de Vermeer era a amante oculta que partilhava o nosso quarto de casal, e que se corporizava na minha imaginação adúltera com requintes de cortesã experiente no fellatio-despertador.
Um quadro de Vermeer sugestionar a masturbação pode parecer uma erudição espontânea, mas para quem sofre de uma crónica erecção espontânea matinal como eu, diagnosticada pela sabedoria popular como a bem-aventurada e não raras vezes útil tusa de mijo, garanto que nesse caso, a imaginação visual é altamente estimulada pela malícia desta personagem de Vermeer.
Não é que precise de um estimulante visual, porque felizmente a minha imaginação onanista está em plena forma.
Estou totalmente de acordo com Woody Allen quando defende as vantagens da masturbação. Em primeiro lugar podemos ir para a cama com todas as mulheres que a nossa efabulação e memória visual consigam deitar a mão, desde a vizinha do lado, à mulher do patrão, passando pela sex-symbol da moda, ou até sex-symbols fora de moda - já mortas ou quase cadáveres.
É admirável que um homem feito tenha no seu cadastro punheteiro desde a Anita, Betty Boop ou Milady do Dartacão, e ainda Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Faye Dunwhay, Raquel Welch ou Sofia Loren.
Já imaginei tórridas aventuras sexuais com todas elas. É um mundo de oportunidades sexuais que ainda por cima dispensa a maçadora sedução, o jantarinho romântico, ou um copo lá em casa, com Chet Baker no CD para humidificar o grelo.
Nesse mundo perfeito, somos um Deus galanteador, que se serve do seu harém de prazer, a seu bel-prazer.
O romantismo da pívia está no seu feroz individualismo. O punheteiro não satisfaz a sua pulsão sexual com a mão porque não tem alternativa (bem, nem sempre), fá-lo pela tensa libertação que esse exorcismo permite, fá-lo desvendar no subconsciente os segredos dos demónios de saias que o povoam.
Fá-lo para saciar um desejo imenso, insaciável, inesgotável.
É como a vida, quando esta não satisfaz pede-se à imaginação para inventar outra.
De qualquer forma, hoje não tenciono masturbar-me na cama. Não tenho papel-higiénico à mão para me limpar, e se agora batesse uma, seria obrigado a levantar-me, e isso é a última coisa que me apetece fazer.
Também estou tão azamboado – acho que o vinho tinto de ontem era bom, mas era demasiado bom – e ainda estou invadido por aquele torpor que o vinho deixa como lembrança. A cabeça dói-me, e mesmo que se deitasse ao meu lado a Mónica Belucci, seria incapaz de lhe tocar. Aliás, essa não seria uma má desculpa para o meu chefe – Eh pá, nem imagina, então não é que a Mónica Belucci foi lá a casa hoje de manhã pedir sal!
São agora 9.45h, há mais de uma hora que resisto ao cérebro e ao telemóvel. Espeto mais um balázio de silenciador na nuca do Nokia, e viro-me para o outro lado, dando costas à janela e ao sorriso da putinha de Vermeer.
Acho que preciso de dormir mais um bocado, notifico traiçoeiramente o cérebro. Por favor deixe mensagem após o bip!
Agora já estou naquele transe hipnótico do REM. É segundo dizem os especialistas, uma boa altura para sonhar. É um sono leve e meio neurótico, em que as imagens dos sonhos passam tão rapidamente como videoclips da MTV.
(continua, se for caso disso)
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Rui Pelejão
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Marsalgado Marsolitário
O náufrago estava morto de sede como Tântalo salgado.
Dois marinheiros amaram-se numa tarimba, para não enjoarem em mar alto.
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Tabuleta sacrílega
"Deus não pensa, mas existe"
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Fuckin`n Daisy
Daisy tomava comprimidos. Trabalhava numa florista e à hora de almoço fodia com o jardineiro no canteiro de orquídeas. Daisy não comia. Só tomava comprimidos e fodia no canteiro das orquídeas com o jardineiro à hora de almoço.
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Joalharia homicida
O rubi de sangue
Na pele branca
O pescoço altivo e esguio
Por onde os beijos se perdiam
Em deslizes lentos
Silenciosos
Como o silêncio que faz
O assassino que se move na sombra
Os teus olhos límpidos
Que se cerram
Com um crucifixo de sangue
Que a navalha silenciosa
Te desenha
No pescoço, altivo, esguio
E frio
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Facto escuro só com gelo
O whisky engoliu o homem de fato escuro. Pagou e saíu impecavelmente trajado a Black Label
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A monotonia da existência contra o pacote de férias
"Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas."
Pois é, acabei de rasgar um folheto com viagens ao Panamá da Agência Abreu. Liguei a ventoínha no máximo, espremi dois limões no gelo e abri um livro do Fernando Pessoa. Está tanto calor que seria incapaz de caçar um leão ou sequer pensar ir a Sintra. Hoje, nem as queijadas me sabiam. Férias, gozo-as em casa, longe dos pacotes sem novidade.
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5/21/2006
Peço a palavra
O político pediu a palavra, o juiz pediu uma sentença lavrada, o poeta sentou-se numa esplanada para beber uma limonada.
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4/19/2006
Supermercado da Lei
Alguém me explica porque é que Isaltino/Valentim/Avelino/Fatinha Felgueiras continuam a ir ao supermercado sábado de manhã?
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Deputados baldas
Nas intermináveis bichas de trânsito da passada quarta-feira à tarde em direcção ao Algarve, os portugas excitavam-se, espumavam, vinham-se com a notícia de que 130 deputados se tinham baldado ao plenário, impedindo uma votação por falta de quorum.
Num país de baldas não é de admirar que os deputados sejam apenas o espelho da Nação, ou então o que é que estariam milhares de portugueses numa tarde de trabalho a fazer numa bicha para o Algarve. Vou ali pedir uma baixa psicológica para Portugal e já volto, se for caso disso.
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Rui Pelejão
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Umas boas nalgadas no juíz
Há uma figura jurídica e proteccionista que garante a irresponsabilidade dos juízes. Levado à letra, significa que os juízes são irresponsáveis, e por isso não podem ser castigados.
Aposto que muitos seguiram a carreira para fugirem às reguadas e chibatadas que levavam quando eram meninos e moços e que lhes criaram uma caterva de complexos que nem Freud seria capaz de listar e escalpelizar.
Os juízes do Supremo Tribunal de Justiça ilibaram uma funcionária de uma instituição que acolhe crianças deficientes, por maus tratos infligidos. Segundo o acordão daquele tribunal é aceitável e até estimável que se apliquem uns correctivos a crianças para lhes dar educação "como qualquer bom pai de família faria".
Ora o que me parece é que estes juízes merdosos que ornamentam os nossos tribunais superiores deviam alçar a toga e preparar as nalgas para umas boa sesssõa de chibata, tamanco, régua ou até um zurzido pau-de-cerejeira bem ao gosto do " velho pai de família", é que pelos vistos, a educação esmerada que receberam quando infantes não fez deles homens como deve ser, apenas vetustíssimos e aberrantes montes de merda humana. Porrada neles!
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4/13/2006
sombrinha
As palavras organizaram uma fuga. Cavaram um túnel, iludiram a vigilância cerrada e desapareceram sem dizer nada.
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Mais rápidos do que a sombra
O whisky engoliu o homem de fato escuro. Pagou e saiu, impecavelmente trajado a Black Label.
O velho lobo do mar uivou em desespero de terra firme. O farol, manhoso, manteve a noite escura como o breu da Cornualha.
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Rui Pelejão
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"E o barco vai de saida!
Adeus ó cais de Alfama, que agoura vou de fugida. Levo-te comigo ó cana verde, levo-te comigo ó meu amor, para lá da aventura para lá do Equador."
Fausto para a viagem sabe sempre bem.
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4/06/2006
Contos mais rápidas do que a própria sombra
Sebastião pegou no revólver e atirou a matar na estátua de um velho professor de Românicas.
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4/05/2006
Chupando dropes de anis I - A sede do mal
Iluminação do inferno
“Um homem que queira mutilar-se está maldito, não é verdade? Creio-me no inferno, logo, estou lá. (…) – Mais tarde, as delícias da maldição serão mais profundas. Um crime, depressa!, possa eu cair no vazio, em nome da lei humana”
Arthur Rimbaud, “Uma temporada no inferno”
A luz é a matéria-prima do cinema, a sombra a sua poética. Touch of Evil (A Sede do Mal - 1958) de Orson Welles é um filme que se desenha nessa sombra, nesse território de angústia, de maldição, entre o claro e o escuro, explorado de forma inebriante e até exibicionista por Welles, nesta obra-terminal do “film noir”, género que durante duas décadas marcou o cinema americano “alternativo” aos grandes estúdios e que gravou a sua marca genética em sucessivas gerações de realizadores.
Foi precisamente Orson Welles um dos “pioneiros” da chamada estética “noir”, com o seu “Citizen Kane” (1941) em que o dramatismo da iluminação “chiaroscuro” os ângulos de câmara distorcidos, inspirada no expressionismo alemão da década de 20 (de Fritz Lang a Murnau), e a secura e estilização dos diálogos naturalistas ao timbre de Heminghway, produzem uma inovadora linguagem artística que iria marcar muita da produção “B” dos estúdios americanos nas décadas de 30,40 e 50.
Dificilmente “Citizen Kane” pode ser catalogada como um “film noir” típico, mas ele introduz uma atmosfera e um virtuosismo técnico que passariam a ser seminais para a própria identidade do “film noir” que teve em cineastas como Nicholas Ray, Robert Aldrich, Jacques Tourneur, Anthony Mann, os seus mais originais e profícuos criadores; isto para não falar de Fritz Lang, o mais influente cineasta da primeira metade do séc. XX que com a sua obra “Matou” (1931) terá “inventado” o “film noir”, que exportaria para a América com “Fury” (1936) e “You only live once” (1937).
O legado de Lang ao “noir” é a sombra, não só a estética, mas a sombra humana, a violência e a psicologia do crime que passariam a ser o repasto desencantado e cínico da linguagem “noir”, e que encontrariam em escritores policiais “hard-boiled” como Dashiel Hammet ou Raymond Chandler, os mais convincentes “narradores”.
O noir era portanto um caldo de referências, e Orson Welles era ele também um explosivo concentrado de erudição, um shakespeariano na mais pura acepção da palavra (com 14 anos encenou a peça “Júlio César”).
Acima de tudo, Welles era um “experimentalista”, um insaciável curioso e provocador, e por isso mesmo, o filão do cinema “noir” e os seus arquétipos não o interessaram, excepto por razões instrumentais como em a “The Lady from Shangai” (1948).
Curiosamente foi Welles a escrever o epitáfio do “film noir” clássico com este “Touch of Evil”, que marcou o seu regresso aos EUA, dez anos depois de ter realizado o tremendo “flop” comercial que foi “The Lady of Shangay” (1948), que lhe valeu um bilhete de ida sem volta, pago pelo sistema dos grandes estúdios, que via em Welles um génio funesto e perigoso, capaz de dilapidar fortunas e orçamentos.
O regresso do “proscrito” Welles a Hollywood terá sido uma das poucas coisas boas que o actor Charlton Heston fez pelo cinema. Na época, Heston era uma “big star” e foi ele a impôr ao produtor de Séries B para a Universal (Albert Zugsmith) o nome de Welles para realizar uma adaptação de uma novela policial de Wit Masterson intitulada “Badge of Evil”.
Zugsmith teve mesmo de engolir o “príncipe anarca” para contentar a sua vedeta, e foi assim que Welles pegou na novela medíocre, reescreveu com Paul Monash todo o argumento e redesenhou a concepção do filme com novos cenários e um elenco “à sua imagem”, onde se incluem alguns actores-fétiche do cineasta como Joseph Cotten (o médico legista), Marlene Dietrich (Tanya) ou Akim Tamiroff (Joe Grandi).
Em a “Touch of Evil”, Welles conduz-nos numa descida ao inferno, às trevas, à essência subtil do mal, e nesse sentido é um dos filmes mais shakespearianos e belos desta autêntico Príncipe da Renascença, que se crava na história do cinema como uma obra apoteótica do “film noir”; uma obra barroca, no sentido que Jorge Luís Borges lhe dá, citado por Cintra Ferreira nos cadernos da Cinemateca: “Chamarei barroca a etapa final de qualquer arte, quando ela exibe e dilapida os seus meios”.
Exibicionista e excessiva esta obra de Welles estoira com todo o orçamento do filme logo na primeira cena, que constitui o mais longo e lendário plano-sequência da história do cinema. O movimento de câmara ininterrupto dura três minutos e começa com a colocação de uma bomba no porta-bagagens do carro de um empresário americano que regressa a casa depois de uma noite de pândega com uma stripper mexicana, numa pequena e sórdida cidade fronteiriça entre os EUA e o México.
O movimento da câmara acompanha o carro e oferece-nos uma visão tenebrosa daquelas ruelas escuras, povoada de criminosos, prostitutas e “habitantes das sombras”. A música, com uma espécie de rufar diabólico de tambores acentua a tenção crescente à medida que o carro vai seguindo a sua marcha lenta e se cruza com um casal em lua-de-mel - Vargas (Charlton Heston) um polícia mexicano incorruptível e a sua jovem e atraente esposa americana Susan (Janet Leigh).
A câmara e a atenção do espectador desviam-se para o casal, que se beija, até que o plano-sequência termina abruptamente com o som em “raccord” da explosão do carro e as imagens do veículo a arder.
Este homicídio despoleta todo a trama em que Vargas terá de colaborar com o seu “homólogo”, e a sua “bête noir” do outro lado da fronteira, o Detective Hank Quinlan, um polícia álcoolico, corrupto e racista, uma composição colossal do próprio Orson Welles. Totalmente desfigurado pela obesidade, parece um cadáver inchado, devorando barras de chocolate e movimentando-se a custo sobre a sua bengala. Quinlan é a personificação do mal e o filme é uma descida ao seu inferno interior, uma visita aos seus demónios escondidos e que se manifestam na forma manipuladora como tenta desvendar o crime da bomba no carro, e simultaneamente, ocultar os seus próprios crimes (a cena do homicído de Joe Grande é arrepiante, graças à colocação da câmara por cima da janela da porta, permitindo-nos apenas ver o terror estampado na face de Joe Grande e escutar os grunhidos homicidas, como se fosse um javali chafurdando na sua vítima).
Com uma iluminação ferozmente “chiaroscuro” e planos dramáticos (Quinlan é sempre filmado de um ângulo inferior), Welles mergulha nos arquétipos do film noir – o crime, o passado que volta para nos assombrar, a violência e a corrupção, para nos oferecer um festim de paranóia e ilusionismo.
Porque é isso que Welles é acima de tudo, um prestidigitador que subverte e parodia cinicamente as emoções humanas, lançando-nos no abismo do medo e nas garras dos nossos próprios demónios interiores.
Uma espiral de crime e castigo num filme em que a cena inicial e a cena final se completam de forma perfeita.
No atoleiro sombrio as feras humanas devoram-se, num “mise en scéne” próximo da visão de Welles do final de Rei Lear, uma decadência simbólica em que os magníficos e exuberantes recursos estilísticos de Welles têm também um papel narrativo e um contêm o anúncio de um homicídio premeditado – a morte por asfixia do “film noir”.
Muitos filmes sombrios foram feitos depois deste, mas em nenhum outro o mal voltou a ser iluminado desta forma.
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Contos mais rápidos do que a própria sombra:
Cuidadosamente, a sombra moveu-se devagar em sentido inverso aos ponteiros do relógio.
O almirante afogou-se num cálice de xerez. O mar espelhava uma lua de solstício, inquieta, inquietamente serena.
Calmamente o mergulhador encheu os pulmões de ar pela última vez. Depois submergiu-se em dívidas.
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Letra
Monotype Corsiva
Já sei que não sou
O teu tipo de letra
E que a caligrafia
Com que desenho
Asas no teu ventre
Não é o teu ómega
Nem sequer
O teu quartzo
Já sei que não sou
O teu tipo de letra
Já sei que
Nunca te escrevi
O amor de que
Te falei
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Rui Pelejão
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3/25/2006
Juca Chaves é grande!

Numa época em que o humor é fino, inteligente, absurdo e muitas vezes terrivelmente correcto, é sempre refrescante descobrir um humorista à moda antiga - machista, malicioso e prontinho para a sacanagem.
Com as ligas do evangelismo intelectual e o feminismo empolgado das pachachinhas iracundas a anatemizar de mau-gosto este tipo do humor, é natural que ele seja proscrito para coisas meios chochas como os malucos do riso (campeão de audiências).
É por isso que escutar as piadas de Juca Chaves, o menestral do Brasil, oferece aquela deliciosa sensação de estar a mordiscar o fruto proibido, de estar a escutar cantores de intervenção na garagem, durante a ditadura do politicamente correcto e a pior espécie do politicamente correcto - a que se disfarça de politicamente incorrecto. É por isso que o velho Juca Chaves é grande...é por isso que é quase um gesto de resistência, recuperar os safados do velho humor machista como Benny Hill e Juca Chaves.
«Um cabaret é um local onde os meninos maus das famílias boas se encontram com as meninas boas das famílias más. Ou como se diz no Rio, é o local onde se juntam meninos que não fazem nada, com meninas que fazem tudo»
ou
«Guarajá é a unica praia do mundo onde as mulheres entram no mar de salto alto.
escutei uma conversa de três meninas de 7,6 e 5 anos.
Disse a de 7 anos: Olha um casal brincando na areia
Disse a de 6: Que brincando que nada, eles estão é fazendo amor
Disse a de 5: E mal»
ou
«Quando mulher quer trair, trai mesmo. Ocês podem trancá-la dentro armário que ela até trai com o cabide»
«Era uma moça mineira, dessa mineiras muito graciosas que volta das suas primeiras férias cariocas. Ela olhou para mim e disse:
- Enfim juntos
- Mas eu não lhe conheço - respondi.
- Ah, estava falando com os meus joelhos.
Conversa vai, conversa vem, nós acabámos tendo um pequeno affair, passamos a noite juntos, e ai pelas cinco da manhã ela me sussurra ao ouvido.
- Sabe Juquinha, devia ter falado isso ontem, mas não tive coragem, mas ocê foi assim tão bacaninha para mim, que eu vou-te confessar, eu sofro de asma.
Eu respondi - que bom, que bom, pensei que você passou a noite toda me vaiando.
Conclui que a mineirinha tinha mais horas de cama do que urubu de voo.»
«Ao meu lado ia uma misse com a sua mãe. No Brasil uma miss anda sempre atrelada à mãe. A menina estava vomitando, vomitando.
Eu numa de atencioso perguntei à mamãe - Foi comida? e a velha respondeu
- Foi sim senhor, mas casa-se para a semana.»
«Notem a importância do sexo até na máquina. A minha secretária deixou cair uma caixa de pílulas anticoncepcional numa droga de máquina Xerox, e a máquina ficou sem reproduzir um ano»
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Um movimento sexy
António Pires de Lima quer que O PP seja um partido sexy. Vindo de quem vem, um idiota palavroso e mais vazio que os cofres do Estado português, a ideia é de facto boa e merece ser aplaudida. As ideologias já morreram às primeiras horas, por isso agora o que está a dar é um movimento sexy. No próximo congresso do PP, o hino deverá ser "uma mano en la cabeza, una mano en la cintura, un movimento sexy", e os congressistas obviamente vestidos com provocantes mini-saias, saltos altos pontiagudos e meias de ligas. Aposto que alguns PP`s iriam gostar.
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3/15/2006
História Improvável das coisas -Detector de punhais

Incubo sentado sobre o peito da mulher de César, após ter devorado um pacote de smarties, sob o olhar sanguinolento do cavalo do Gary Cooper, cuja cabeça foi posteriormente encontrada nos lençóis de cetim do filme Padrinho, para sublinhar a irecusabilidade de uma proposta
Octávio Augusto, sobrinho de Júlio César tomou o poder em Roma pela força e pela astúcia, obrigando o seu cunhado Marco António e a sua amázia Cleópatra a dormirem juntos para a eternidade.
Os inimigos de Octávio, chamavam-lhe “octaviano” às escondidas, colocando a causa a sua masculinidade. A maior parte deles reuniam-se no Senado para jogar ao guelas, beber ice-tea de manga e conspirar contra a augusta personagem.
Octávio Augusto acordava muitas vezes à noite com comichões nos testículos e no peito, tão farfalhudo como o daquele actor de novelas brasileiro, o Tony Ramos. Acordava ao meio da noite com suores frios, imaginando que um Incubo se sentava de perna traçada no seu peito, fumando um cigarro e folheando uma edição ilustrada da “Arte do Amor” de Ovídio (de quem se dizia ter ovídio de tísico), após ter satisfeito os seus desejos no Monte de Vénus da mulher de Octávio.
Os romanos acreditavam que o Incubos eram pequenos demónios que causavam pesadelos e lhes sodomizavam as esposas durante o sono.
Provavelmente as comichões de Octávio deviam-se a uma valente camada de chatos que apanhara com um velho centurião das Guerras Túnicas, mas o imperador acreditava que os pesadelos eram um mau presságio que anunciava uma traição, como a que sofrera o seu tio no Senado.
Mandou chamar Varrão, que fora nadador-salvador de Exército de César e o auxiliara a atravessar o Rubicão a nado, sem precisão das braçadeiras que usava sempre que tomava banho de espuma.
Com áurea de prudente e ardiloso, Varrão escutou as angústias de Octávio, que tinha medo de ser assassinado à naifada no Senado, e lhe pedia auxílio para ludibrificar a certa morte.
Varrão pestanejou repetidamente, que era um tique que tinha, além de suar das mãos e começar todas as frases por um longo e suspirante ahhhh!
E depois disse – Ahhhhh! Eureka! Descobri a solução, vamos mandar instalar um detector de punhais no Senado.
- Assim, na manhã seguinte, Marinho Grandius Vitrócolos, reputado mestre-espelheiro da Pastelaria Roma, foi convidado a instalar espelhos em todas as esquinas e colunas do senado de forma a Octaviano poder sempre ver se um senador coçava as costas com um punhal antes de o cumprimentar com um apunhalamento, como era costume na Roma antiga.
A partir desse dia, os senadores passaram a deixar as facas no segurança, a comer maçãs com casca e a pedirem uns aos outros para coçar as costas, prática que ganhou escola na alta política até ao Parlamento de Oliver Cromwell, onde os políticos trocavam o cortês cumprimento – “If you scrach my back, i`ll scrach yours”
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3/10/2006
História improvável das coisas - O anzol

Ao contrário do que sugere a Bíblia, em carta de S.Paulo ao Corinthias, não foi Moisés que inventou o anzol no concurso de pesca para veteranos organizado pelo Faraó do Egipto. Moisés inventou sim a cana de pesca, que não era mais do que o seu cajado, que ele utilizava afanosamente no mar para rachar taínhas à bordoada, criando a ilusão óptica de abrir o mar ao meio. Dan Brown promete dismistificar mais esta encenação histórica do Vacticano no seu próximo bestseller - "Dar cana - Se queres ajudar um homem ensina-o a pescar sem galochas"
No Canadá, os ursos alimentavam-se de peixinho do rio desde tempos imemoriais. Peixinho fresco para gula ursolina, pescado à patada com uma arte desajeitada cujo sucesso só foi possível graças à quantidade de carpas que saltitavam nos rios gelados das florestas do Quebec.
Para desenjoar de peixe, os ursos, por vezes salteavam carpa ao molho de ostras, com índio tártaro, ou até algum explorador mais afoito, de carne rija, mas saborosa.
Vivia-se assim numa paz predadora até aparecerem os franceses com bigodes retorcidos e grande gorros de pele, que sem cerimónias, apontavam os bacamartes e mosquetes a qualquer ser vivo que não pronunciasse correctamente a célebre expressão “on y soit qui mal y pense”.
Como os ursos não dominavam o francês, nem sequer as subtilezas cortesãs de Henrique VII, logo se tornaram alvo dilecto de Lafayette e seus sequazes.
Por vezes um francês era comido, sem cerimónia por um urso gourmet com especial apetência pelo fígado dos franceses – Que foie gras de estalo! Exclamava o Ursolino.
Mas normalmente acontecia o inverso e os ursos do Quebec estavam a virar botas de caçador de peles e gorros com cauda à banda.
Isto para gáudio das carpas e trutas que se reproduziam livremente como numa comunidade anti-contraceptiva.
Uma vez escorraçados os ursos, e com eles os gamos, os veados, os índios e até dois calvinistas suecos (que tinham longos cabelos e portanto não eram calvos, nem usavam restaurador Olex, apesar de serem calvinistas), os exploradores franceses tiveram de se dedicar à pesca.
Faltando-lhes a pata exímia e colossal do urso, os franceses tiveram de puxar pelo engenho herdado do sangue carolíngio, e começaram a pescar com cana e à linha.
O problema era, obviamente criar um engodo que levasse as sabidas carpas a morder o nó no fundo da linha, e foi então que um ex-condenado da Guiana, encarcerado por atropelos matrimoniais a um Conde de Vichy, inventou a solução que iria mudar o mundo da piscicultura, e com ele a indústria dos enlatados.
Brucy Jeanzol tinha perdido um braço num duelo sujo com um sacerdote Voodoo no Haiti e usava um gancho reluzente na ponta da unha.
Era o melhor pescador da Nova Fronteira com o seu gancho certeiro. Animado por um espírito comercial e empreendedor que só os gascões possuem, Brucy Jeanzol decidiu iniciar o fabrico de pequenos ganchos em ferro, adaptando as esporas dos cavalos, e colocando-as nas pontas das canas de pesca.
As carpas tinham encontrado um inimigo temível, mas não se deixavam enganar facilmente, e foi depois de palitar os dentes com o gancho após uma lauta refeição e o lavar no rio, como as lavadeiras de Caneças, que Jeanzol descobriu o engodo.
E dai a célebre expressão com que as carpas encaram fatalmente a vida – à espera do engodot.
A invenção do francês-maneta foi mais tarde registada pelo Clube Desportivo Pescadores da Costa da Caparica, que numa homenagem ao seu criador decidiu baptizar a geringonça-pesqueira de - anzol.
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História improvável das coisas - O gelo

A invenção do gelo é posterior ao primeiro degelo.
Querida se fores ao frigorífico, traz-me duas pedrinhas de gelo para o meu whisky, disse Elias na primeira parte do Liverpool-Benfica
A invenção do gelo de fabrico humano é muito posterior à Idade do Gelo propriamente dita, mas tem uma ligação material e vocabular com essa época dominada por brontossauros e mamutes.
De acordo com Sant Glassé, freire dominicano da Abadia de Cluny, conhecido no seu tempo por ter largos tufos de pêlo no nariz, a produção humana de gelo deve-se a um cavaleiro cruzado bretão, Filipe Papin de Boutton que numa reunião de antigos combatentes da primeira cruzada no seu castelo nas Ardenas, onde o vinho, as cervejas e licores jorravam com abundância, bem como histórias de saques, violações e mutilações várias, terá dito para o seu velho confrade Ernesto Pepino de Couvette:
– Tu bebes que nem um mamute, meu bom Pepino, mas a mim não me sabe o whisky com este ardor que me arranha o esófago, estava mesmo precisado era de umas pedrinhas de gelo.
Fez-se um frio e sepulcral silêncio entre a plateia, especialmente entre os parafernaleiros irlandeses, para quem o whisky era bebida pura, sagrada e imprópria de ser misturada com água ou gelo.
Pepino de Couvette, homem astuto e letrado em Roma, temendo a eclosão de um conflito diplomático entre irlandeses e bretões, decidiu, com a discrição que é apanágio de diplomatas e de espanadores, satisfazer o desejo do seu amigo.
Mandou o seu mestre falcoeiro decepar os dedos do tocador de harpa com um punhal visigodo que herdara de uma falecida tia da Alsácia, chamada Dona Lorena.
O mestre falcoeiro cumpriu friamente a ordem e retirou dos dedos decepados quatro dedais, que encheu de água e colocou no varandim exterior do Castelo de Pepino de Couvette. Como fazia um frio bretão de rachar nozes renitentes, passada uma hora, os quatro dedais continham água em finos cristais gelados, que Pepino colocou amavelmente na taça de Santo Graal (dizia-se) de Papin de Boutton, ao que este respondeu com as célebres palavras:
- Com quatro pedrinhas de gelo, escorrega muito melhor!
Para evitar reacções alérgicas dos irlandeses continuou a mandar servir-lhes cerveja e whisky em doses pantagruélicas, única forma, segundo a ciência diplomática vigente na época, de apaziguar os fogosos e habitualmente exaltados ânimos celtas.
Com astúcia e frieza, Pierre de Couvette, acabava de inventar o gelo para consumo mundano e social. Um verdadeiro avanço civilizacional, só comparável à massificação da colher de chá.
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História improvável das coisas - A gaita

Tavares um emigrante brasileiro na suiça foi flautista e inventou a gaita de beiços, depois pediu asilo político em Portugal, deixou a música e montou um restaurante para ricos e outro para pobres, onde se serviam bochecas de porco ao vinagrete, consideradas pelo Guia Michelin as melhores da Europa supra-sahariana
O flautista soprou com brandura naquele novo instrumento especialmente desenhado por um coronel reformado do Exército austro-húngaro, e patenteado na Societê des Idées Génerales de Genéve.
A banda aguardava pacientemente o solo do flautista naquele instrumento que prometia revolucionar os arranjos filarmónicos e introduzir um novo cunho bélico nas pautas das marchas militares.
O flautista soprava, mas nada, nem um único som.
A cortar o ar apenas a respiração ofegante do maestro em suspenso, e um pigarrear mais impaciente de algum Almirante na reserva, dos muitos que compunham a plateia daquela pequena sala de música de câmara em Innsbruck.
Num derradeiro esforço, o flautista sopra no novo instrumento, enchendo as bochechas como uma câmara-de-ar de uma bicicleta.
Suando em bica, ouve-se a sua voz melífula moldar a impotência que lhe vai na alma – Que grande gaita!
E assim ficou gravado na memória dos homens o nome daquele instrumento de sopro, que mostrou ser completamente inútil para produzir revoluções conceptuais na história da música contemporânea (pelo menos até Stockausen ser apanhado de lingerie no banho com uma gaita nos beiços), mas que provou ser de grande benfeitoria para a linguagem popular, especialmente quando pisamos a bosta negligente de qualquer cachorro no jardim, ou tentámos montar um móvel do IKEA com manual de instruções.
A gaita, mais do que um som de precursão, é um desabafo, já para não falar de outras conotações, próprias de chocar os espíritos puros e os ouvidos imaculados.
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História improvável das coisas

S. Mateus tinha uma fonte anónima no céu para lhe contar histórias, Caravaggio pintou a cena. A Buscadoria Geral da República promete investigar esta violação do segredo divino
As coisas têm sentimentos? Sempre acreditei que sim, e por isso sempre me senti culpado quando espancava almofadas em guerras de pijama com ursinhos Petzis estampados.
Sou um sentimental da coisa, o que é uma coisa estranha para alguém que conseguiu ver o ET sem derramar mais do que uma lágrima de cada vez.
As coisas têm a sua dignidade, a sua integridade e isso não se faz sem história.
Por isso o Vodka7 inicia hoje uma nova série chamada "História improvável das coisas", que também se podia chamar com propriedade "Grande história das pequenas coisas".
Tarefa ciclópica ou enciclopédica, ao gosto do freguês, esta a que meto carga de ombros como Diderot de trazer por casa.
Os prazeres do ócio escrito derramam nisto. Sem nada para dizer ao mundo, e sem grande interesse no que o mundo tem para me dizer, inicio uma espécie de wikipedia da coisa, que será dos grandes contributos contemporâneos para a historiografia da Coisa.
A publicar em fascículos Planeta d`Agostini, esta "História improvável das coisas" pretende dar uma nova luz ao nosso quotidiano através das coisas sem as quais a nossa vida seria provavelmente idêntica à de um um peixe de águas profundas sem iPod ou ligação de banda larga à net.
É na realização material da coisas que se realiza o homus-engenhocas, que encontra nos inventores portugueses que concorrem a concursos internacionais no Lichenstein, a sua expressão gaseificada, perdão, deificada.
Acompanhe então o Vodka7 nesta viagem ao mistério da origem das coisas perdida nas brumas dos nossos egrégios avós. Cada coisa tem a sua história, e o Vodka7 sabe-a toda.
Fique por exemplo a saber a história do ferreiro gaulês que inventou o ferro de engomar, do eremita-hemafrodita-jesuíta que inventou o corta-unhas, a origem da expressão "macacos me mordam", que remonta a Lucy.
Por falar em Lucy in the sky with diamonds, saiba que o LSD foi inicialmente fabricado como substância alcalina para preservar o tremoço mijão.
Para os sexo-maníacos teremos a grande série "Foder - uma arte milenar", com a história não autorizada do cinto de castidade, ou de como se tornou célebre na corte de Luis XIV, a Madame Bicot, com a expressão ai que nem me tenho - "je ne me soutien pas", e que deu origem ao fabrico em série dos soutiens, primeiro para segurar mamocas descaídas no busto das cortesãs, e depois de acendalha para festarolas feministas na Horta da Maria Teresa.
Em Vodka7 a história é coisa séria.
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3/08/2006
Mãe coragem num país surdo-mudo
“(…) A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo
oposta sem resposta ao meu país do nada
Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido
Volta com os primeiros anjos de Dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e então a tua vida há-de ser a minha arte
e o teu vulto a única coisa que relembro (…)”
“Poema para Catarina”, Ruy Belo
A Catarina tem 30 anos. O Manel está quase a fazer sete meses, e mostra já talentos de futebolista, a julgar pelas biqueiradas que vai dando na barriga da Catarina.
A Catarina trabalha numa empresa há mais de cinco anos. Fez carreira abnegada com aquele entusiasmo juvenil de quem veste a camisola. A Catarina dorme mal, porque o Manel passa a noite a brincar aos Maradonas. Levanta-se todos os dias às oito da matina, veste-se com cuidado e arranja-se com o esmero vaidoso que sempre teve. Afinal, ter uma barriga do tamanho de uma bola de praia não é razão para deixar de ser mulher. Bem maquilhada e com aquele ar enérgico e despachado sai de casa, apanha dois autocarros, normalmente à pinha. Aguarda pacientemente na fila, e depois espera que alguém lhe dê o lugar, para passar uma hora metida num autocarro a transbordar como enlatado nauseabundo de cheiros e indisposições matinais. Nem sempre lhe cedem o lugar, e quando o fazem é muitas vezes de forma renitente e rezinga.
– A partir dos cinco meses é mais fácil. É que a barriga vai-se lhes metendo pelos olhos a dentro – explica meio zangada, meio divertida.
Às 9.30 h já está sentada na sua cadeira de escritório. É uma daquelas cadeiras compradas por atacado, desconfortável e tão ergonómica como uma cama de faquir.
As cadeiras da administração são de pele, reclináveis, com massagem automática e design com assinatura – são cadeiras topo-de-gama. As dos directores, coitados, já não têm direito a massagem incorporada nem a design assinado, e as dos quadros superiores e administrativos, nem reclinação, nem couro. Nicles.
Têm estofo azul e estrutura de plástico cinzento e são todas de aviário, inaptas para proporcionar bem-estar e conforto a um corpo humano por um período superior a uma hora.
É numa destas cadeiras talhadas para quadro superior que a Catarina e o Manel se sentam um dia inteiro, todos os dias, a partir das 9.30h.
Há dois tipos de empresas – as em que as cadeiras são todas iguais, e as em que umas cadeiras são mais iguais que outras.
A Catarina trabalha numa destas empresas onde os rabos são alvo de descriminação hierárquica.
O Manel não gosta da cadeira nem deste sistema de castas e revoltado continua a dar pontapés. O Manel é o primeiro filho da Catarina, mas não é a primeira gravidez. A mãe da Catarina vai preparando o guarda-roupa do Manel e vive em sobressalto porque a gravidez da filha é de risco.
O pai e o tio do Manel já se vão preparando para ajudar o Luís Filipe Vieira a somar mais um kit de sócio, e a Catarina vai teimando em viver a gravidez como se não fosse uma doença.
Mas a Catarina trabalha numa das muitas empresas portuguesas em que as cadeiras não são iguais para todos, trabalha numa empresa a que durante cinco anos deu mais do que o tempo normal de trabalho, deu mais do que o entusiasmo do primeiro emprego a sério.
Deu, e agora com uma barriga de sete meses recebe o quê?
A alegria da Catarina de uma gravidez querida, que será uma das últimas alegrias dos avós velhos da Catarina, a alegria de uma vida nova que a família espera como uma dádiva. Essa alegria chamada Manel é uma gravidez indesejada pela empresa das cadeiras azuis onde a Catarina trabalha.
A empresa das cadeiras azuis é decrépita e falida, como uma velha baronesa. A salvação está nos novos modelos de gestão, no trabalho-maratona, de horas a fio no escritório, nos yuppies arrivistas, que sacrificam tudo em prol de uma ilusão – a da própria importância e a do mito pacóvio da “produtividade”.
A equipa onde a Catarina trabalha é pequena e toda a gente dá o litro. Dar o litro significa ficar a fazer horas até às tantas, alimentando a ilusão de produtividade e competência até esta ficar saciada. A Catarina tem uma chefe, ainda nova disposta a tudo para mostrar serviço ao chefe que é administrador.
A Catarina sentiu-se agoniada e o Manel com fome a dar pontapés na barriga, e pediu para ir para casa um pouco mais cedo do que as oito e tal da noite costumeiras.
A chefe em tom de mesquinho desprezo retorquiu: – Tem de ir à sua vidinha, não é?
Na empresa, as cadeiras azuis só rodaram na sua carapaça invejosa - igual à das pessoas que nos autocarros fingem não ver os velhos, os inválidos e as grávidas - as cadeiras só rodaram de orelha à coca quando descobriram que a Catarina iria ser a primeira grávida da empresa a optar por gozar cinco meses de licença de parto, sendo que o último mês é uma decisão sem custos para a empresa, que gasta milhões em foguetes e mijaretes.
- Cinco meses – levanta-se o coro ululante de sornas, capazes de se indignar com um direito expresso por lei, e assobiar para o ar, quando a chefe da Catarina lhe pede para ela lhe levar a pesada pasta do computador portátil até à reunião com a administração.
E lá vai a barriga da Catarina com o Manel a dar biqueiros, lá vai ela a subir as escadas para levar o portátil com os números da próxima campanha de promoção da imagem da empresa, oferecendo um serviço moderno, desenhado para os utentes e mais não sei quantas basófias hipócritas pagas a preço de ouro a agências de publicidade medíocres, mas das boas graças do administrador.
O mesmo distintíssimo cavalheiro e génio do marketing que inquiriu candidamente a Catarina, se ela estava mesmo a pensar gozar a licença de parto – ele não se referia ao quinto mês, mas à totalidade da licença de parto!
E, a Catarina vai acalentando a amargura em silêncio, vai chorando baixinho: – São as hormonas, ando com as hormonas todas baralhadas – e vai suportando estoicamente as biqueiradas do Manel e o estigma de ser grávida numa empresa de cadeiras azuis. A Catarina e todas as Catarinas deste país para serem mães têm de lutar contra o preconceito, contra os labregos do “break even” e contra o machismo de saia.
Esta é a Catarina do escritório, formada, bem informada, mas incapaz de fazer valer os seus direitos. Depois há a Catarina da fábrica, a Catarina do banco, a Catarina do campo, a Catarina do supermercado, que começam a ser mãe coragem assim que enfrentam o semblante carregado do chefe.
As Catarinas que são obrigadas à vergonha de terem emprenhado, neste país sem pingo de vergonha. Há Catarinas que perdem o emprego, há Catarinas que abortam para não perder o emprego, há Catarinas que sofrem em silêncio e em angústia, pela simples e maravilhosa ousadia de carregarem, de gerarem uma vida.
Ser mãe em Portugal é ser mãe coragem.
Ele há ou não melhor metáfora para o nosso endémico estado de subdesenvolvimento e atrasadice mental, caro Engenheiro Sócrates, caro Engenheiro Ludgero Marques, caro Carvalho da Silva?
A culpa não é da chefe da Catarina, não é do chefe da chefe da Catarina, nem sequer é do Governo.
A culpa é de todos nós que seguimos viagem no nosso autocarro, virando a cara, fingindo não ver e preferindo continuar com o cú sentado na indiferença cúmplice.
A empresa onde a Catarina trabalha é pública, e devia constituir referência em matéria de respeito pelos direitos dos seus trabalhadores, nomeadamente o direito à maternidade, que deve ser um dos mais silenciados no nosso país de fantoches.
Não escrevo o nome da empresa pública onde a Catarina trabalha, para a poupar a eventuais dissabores, mas é urgente combater este terrorismo insano, e o primeiro combate é denunciá-lo, apontá-lo a dedo, criando um ambiente de hostilidade pública a empresas que gastam milhões para promover a sua imagem de modernidade de serviço ao cliente, e entre portas sustentam relações de trabalho idênticas às das ditaduras fascistas.
Num país a sério, numa empresa com as cadeiras todas iguais, os chefes da Catarina apenas chefiariam o botão da Rank Xerox, e não consta que esses países sejam atrasados, as empresas improdutivas, ou os direitos sociais esmagados pela absurda irracionalidade da gestão.
Uma gestão sem inteligência emocional e sem sentido de humanidade é tão útil para uma empresa como um guarda-chuva para um hipopótamo.
E o Manel bem pode ir treinando os pontapés, que cá fora espera-o muito mais do que uma bola para chutar. Num país surdo-mudo, quem cala consente, e garanto que se acontecer alguma coisa ao Manel ou à Catarina, terei a resposta mais civilizada possível nesta sociedade medieval.
Deito fogo às cadeiras todas daquela valente merda!
PS: Felizmente não precisei de deitar fogo a cadeira nenhuma e amanhã vou à festa da primeira papa do Manel
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Rui Pelejão
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Valsa lenta para um cágado
Foi uma valsa que lhe deu,
Strauss, cágado de aquário
T Zero, T Rex
Para os lados da Damaia
Era cágado de estimação
Como todos os cágados o são
Logo a seguir ao cão
Strauss e a sua ilha mágica
No rés de chão
Da menina Tatão
Tatão, tatão
Cágado ribeirinho
Que morreu ao som de um timbalão
Numa valsa lenta
De partir o coração
Strauss, o cágado de estimação
Que nas tardes de Verão
Partilhava comigo o colchão
Que me saiu nas partilhas da Tia Conceição,
juntamente com o cágado
Que se não teimasse em Strauss
Decerto calharia João
Para melhor rimar com a canção
ão, ão, ão
agora triste como três tigres
e uma lágrima de crocodilo
Subo o Nilo
Com um cão chamado Sebastião
Que tem tudo para ser excelente animal de estimação
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Rui Pelejão
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Crocodilo afogado em lágrima
Olhar vítreo
Tem o crocodilo
Coitado,
Que perdeu a vista
Na guerra da Crimeia
E por isso nem lacrimeja
Sempre que o sol
Se reflecte numa bandeja
Crocodilo com óculos
De aro de tartaruga
Tem outro ar
E se reparar
Outro vagar
Mandibular
Crocodilo de luneta
Que nadaste nu
Na minha jangada
Talhada na pedra
Crocodilo anfíbio
Ansioso por mordiscar
A veia jugular
A julgar pelo teu ar,
Crocodilo, vai devagar
Devagar a nadar
Porque a morte
A morte há de chegar
Cro
Co
Dilo
di-lo agora
ou cala-te para sempre
e deixa a tua lágrima secar
porque, crocodilo
a lágrima,
é uma gota no mar triste e negro
em que nos havemos de afo
gar
ar-te
Arte
Arfar-te
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Rui Pelejão
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2/19/2006
Brócolo cegueta

O bom senso semântico
aconselharia os brócolos
a usar óculos
Da mesma forma que o rabanete
Não se livra da fama
De ser rabeta
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O coleccionador de sons

Tenho um gravador
Que guarda sons
Tenho um pastor que guarda silêncios
Uma gota que respinga da torneira
Plóing, plóing
E um chuvisco no beiral
E um corpo feliz
Num banho matinal
E a água que jorra na fonte
Tenho o rego,
O chapinhar de uma criança
Tenho um mar nocturno, sereno e manso
Para não acordar ninguém
E um mar diário, bravio e sonoro
Tenho um mergulho guardado
Um salto de prancha,
Um barco que bateja
E uma bátega que cai num telhado de zinco
Tenho o som que uma gota faz a suspender-se em orvalho
O som de uma gota que serpenteia
pela cara da rapariga da paragem do autocarro.
e de uma lágrima furtiva
no rosto de Maria
E do carro de bombeiros que apaga fogos,
tenho o som de uma mangueira a aterrar num braseiro.
Tenho o som de um homem sedento a beber água.
Tenho os sons da água no meu gravador,
e um pastor de silêncios.
Tenho o líquido dos sons
Tenho sede
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Rui Pelejão
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A misteriosa fé!

A capa ecuménica do "Público" de hoje traz-me à memória os domingos antigos, com a Eucaristia Dominical e o magazine 70 vezes 7 a interferir com o horário alargado dos desenhos animados de "Rui, o Pequeno Cid", "Conan, o Rapaz do Futuro", ou das plasticinas húngaras do Vasco Granja. Sempre disse que se os americanos tiveram o trauma do Vietname, a minha tem os traumas e o estigma do Vasco Granja. Mas "adelante", acho que foi desde esse tempo que comecei a nutrir uma antipatia natural pela religião, qualquer que ele seja, não há direito de adiar um episódio do "dartacão", por causa das cartas de S. Paulo aos coríntios.
Hoje o "Público", anunciava que 250 mil pessoas acompoanham a trasladação do corpo da Irmã Lúcia, e em baixo, uma fotografia de mulheres iranianas a inscreverem-se como voluntárias para morrerem como mártires pela Palestina.
De Fátima a Teerão, a distância de uma fé crédula não é assim tão longa. Só por suposição, imaginem o que seria se alguém decidisse fazer um cartoon com a Irmã Lúcia a tomar um LSD e a ter visões da Nossa Senhora num cofee-shop em Amsterdão. Lúcia in the sky, with diamonds. Imaginem só o que seria feito à estimável tolerância e liberdade de expressão ocidental. Entre a Bíblia e o Corão, prefiro o Dartacão.
PS: Fátima Felgueiras convocou os jornalistas para a sua pungente peregrinação a Fátima, com o pretexto de desmentir o boato de que tinha ido a Fátima agradecer a Nossa Senhora o apoio dado no seu forçado exílio e nas últimas eleições. No comunicado dizia aos jornalistas que era uma peregrinação cristã e um gesto individual, pelo que pedia recato. Entretanto levou para Fátima bonés e canetas com a sua imagem para distribuir pelo povão. Será que está já a candidatar-se a um lugarzinho no Céu ou a uma canonização em vida. Sabe-se lá, se Alá é grande, Deus também e misericordioso na sua infinita paciência. Davam jeito era uns mujhaedins católicos para crucificarem esta embusteira.
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2/12/2006
Agora que o amor é Outono
Agora na hora de um adeus
sem Deus
agora que as tardes se despem
das túnicas azuis
como um céu
recortado de cartolina
Agora que as tangerinas
doces
caem aos pés
dos troncos
Nùs
como os corpos que se despem
para o entardecer do amor
Agora que os pássaros
debandam
pelas carícias do sol
agora que arrefecem
as mãos carentes
de carícias
Agora que se destapam os sinais
do amor sem tarde
sem dia
e sem noite
Agora que este amor
parte
e fica gravado
para sempre
na tarde
da carne
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1/29/2006
Corpo de água
A água
No meu copo
A água
No meu corpo
A nascente
A jorrar
No teu
A água
Que lava
A manhã
Límpida
Clara
E fresca
Amanhã que acordo
Com o meu copo
E o teu corpo
E a água
que bebemos
Fresca
Pela amanhã
De manhã
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O nevão
Lisboa parece Estocolmo. Domingo cinzento vestido de branco pelo sorriso da criança de nariz esborrachado da montra do café. Lá fora neva, cá dentro faz poesia.
Amor nostrum
O céu
Como teu
O mar
Como nosso
A terra
Em comunhão
De Bens
Meu bem
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1/21/2006
Presidenciais
Certamente segunda-feira será um dia igual aos outros todos, cinzento e triste. Por isso um bocejo poeticopatético:
Quando o telefone toca
Fita adesiva
Em quadra festiva
Um pouco de sal
No quintal do cardeal
Para semear uma dentadura
Postiça
Que cacareja
Como coruja
Ou velha metediça
Com hálito de linguiça
Uma colher de sol
No meu chá
Uma banheira que não me ralo
No teu presépio pagão
Como cão
Como cão ladrão
De ossos
Roídos
Carcomidos
Moídos
Em pó, ré, mi
Mimi
Sinto-me tão só sem tlim
E sem sentido obrigatório
Aleatório
Mictório
E tudo o que na minha língua acaba num clitório
Ou o escarlate do suspensório
Como deus ex machina
Vesti e despi por tlim e por mim
Mimi, do, re, mi
Pobre de mim
Festim, trim, trim, trim
Quando o telefone não toca
E já me esqueci da frase
A frase que acaba
Em tlim
E acaba em mim
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1/09/2006
Tenho os pés frios!
Então toma umas gotinhas de poesia filho.
Porventura o Sol
Abro o céu
Como uma sombrinha
Antiga
Daquelas
Onde as damas
Escondiam sorrisos
Velados
Pela sombra
Do pecado
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1/07/2006
Rio de Janeiro
Rio de tudo
Em Janeiro
E choro por nada
O ano inteiro
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E agora para algo completamente diferente............................................................................A POESIA A DIAS
As flores que nunca te dei
As flores que nunca te dei
Cresceram sempre
Na sombra cálida
Daquele nosso jardim
As flores que nunca te dei
Deleitam-se com vagar ao sol
E acariciam-se sob a lua
As flores que nunca te dei
Deixam o perfume perdido
no amanhecer do teu sorriso
As flores que nunca te dei
Anoitecem comigo
No calor do teu corpo
As flores que nunca te dei
Resistem à geada
E à bicharada
Porque as flores que nunca te dei
São fortes e bonitas
Porque é com o nosso amor
Que se regam as flores que nunca te dei.
R.
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21:41
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Desapareceu um burro
Desapareceu de casa de seus pais, um burro.
A última vez que foi visto envergava uma gabardine cinzenta, um cachecol do Benfica e óculos escuros Ray-Ban. Este jerico apresenta sinais de distúrbios mentais e intestinais, sendo facilmente reconhecível pelo timbre da sua lendária flatulência, cuja melodia se assemelha à de um trombone de varas engripado.
Teme-se que tenha fugido com uma bailaraina moldava do "Dancing", e que esteja agora nas Caraíbas a preparar uma candidatura a Presidente da República do Tahiti, porque como o próprio disse em bilhete enviado para a Rádio Renascença: "Candidato? Antes no Tahiti, do que aqui".
Quem souber do seu paradeiro, pede-se que não informe a Polícia Judiciária e fique caladinho, o que não será dificl neste país calado e pela calada.
A direcção de Faróis da Marinha Portuguesa
Tenente Ventura
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