“(…) A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo
oposta sem resposta ao meu país do nada
Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido
Volta com os primeiros anjos de Dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e então a tua vida há-de ser a minha arte
e o teu vulto a única coisa que relembro (…)”
“Poema para Catarina”, Ruy Belo
A Catarina tem 30 anos. O Manel está quase a fazer sete meses, e mostra já talentos de futebolista, a julgar pelas biqueiradas que vai dando na barriga da Catarina.
A Catarina trabalha numa empresa há mais de cinco anos. Fez carreira abnegada com aquele entusiasmo juvenil de quem veste a camisola. A Catarina dorme mal, porque o Manel passa a noite a brincar aos Maradonas. Levanta-se todos os dias às oito da matina, veste-se com cuidado e arranja-se com o esmero vaidoso que sempre teve. Afinal, ter uma barriga do tamanho de uma bola de praia não é razão para deixar de ser mulher. Bem maquilhada e com aquele ar enérgico e despachado sai de casa, apanha dois autocarros, normalmente à pinha. Aguarda pacientemente na fila, e depois espera que alguém lhe dê o lugar, para passar uma hora metida num autocarro a transbordar como enlatado nauseabundo de cheiros e indisposições matinais. Nem sempre lhe cedem o lugar, e quando o fazem é muitas vezes de forma renitente e rezinga.
– A partir dos cinco meses é mais fácil. É que a barriga vai-se lhes metendo pelos olhos a dentro – explica meio zangada, meio divertida.
Às 9.30 h já está sentada na sua cadeira de escritório. É uma daquelas cadeiras compradas por atacado, desconfortável e tão ergonómica como uma cama de faquir.
As cadeiras da administração são de pele, reclináveis, com massagem automática e design com assinatura – são cadeiras topo-de-gama. As dos directores, coitados, já não têm direito a massagem incorporada nem a design assinado, e as dos quadros superiores e administrativos, nem reclinação, nem couro. Nicles.
Têm estofo azul e estrutura de plástico cinzento e são todas de aviário, inaptas para proporcionar bem-estar e conforto a um corpo humano por um período superior a uma hora.
É numa destas cadeiras talhadas para quadro superior que a Catarina e o Manel se sentam um dia inteiro, todos os dias, a partir das 9.30h.
Há dois tipos de empresas – as em que as cadeiras são todas iguais, e as em que umas cadeiras são mais iguais que outras.
A Catarina trabalha numa destas empresas onde os rabos são alvo de descriminação hierárquica.
O Manel não gosta da cadeira nem deste sistema de castas e revoltado continua a dar pontapés. O Manel é o primeiro filho da Catarina, mas não é a primeira gravidez. A mãe da Catarina vai preparando o guarda-roupa do Manel e vive em sobressalto porque a gravidez da filha é de risco.
O pai e o tio do Manel já se vão preparando para ajudar o Luís Filipe Vieira a somar mais um kit de sócio, e a Catarina vai teimando em viver a gravidez como se não fosse uma doença.
Mas a Catarina trabalha numa das muitas empresas portuguesas em que as cadeiras não são iguais para todos, trabalha numa empresa a que durante cinco anos deu mais do que o tempo normal de trabalho, deu mais do que o entusiasmo do primeiro emprego a sério.
Deu, e agora com uma barriga de sete meses recebe o quê?
A alegria da Catarina de uma gravidez querida, que será uma das últimas alegrias dos avós velhos da Catarina, a alegria de uma vida nova que a família espera como uma dádiva. Essa alegria chamada Manel é uma gravidez indesejada pela empresa das cadeiras azuis onde a Catarina trabalha.
A empresa das cadeiras azuis é decrépita e falida, como uma velha baronesa. A salvação está nos novos modelos de gestão, no trabalho-maratona, de horas a fio no escritório, nos yuppies arrivistas, que sacrificam tudo em prol de uma ilusão – a da própria importância e a do mito pacóvio da “produtividade”.
A equipa onde a Catarina trabalha é pequena e toda a gente dá o litro. Dar o litro significa ficar a fazer horas até às tantas, alimentando a ilusão de produtividade e competência até esta ficar saciada. A Catarina tem uma chefe, ainda nova disposta a tudo para mostrar serviço ao chefe que é administrador.
A Catarina sentiu-se agoniada e o Manel com fome a dar pontapés na barriga, e pediu para ir para casa um pouco mais cedo do que as oito e tal da noite costumeiras.
A chefe em tom de mesquinho desprezo retorquiu: – Tem de ir à sua vidinha, não é?
Na empresa, as cadeiras azuis só rodaram na sua carapaça invejosa - igual à das pessoas que nos autocarros fingem não ver os velhos, os inválidos e as grávidas - as cadeiras só rodaram de orelha à coca quando descobriram que a Catarina iria ser a primeira grávida da empresa a optar por gozar cinco meses de licença de parto, sendo que o último mês é uma decisão sem custos para a empresa, que gasta milhões em foguetes e mijaretes.
- Cinco meses – levanta-se o coro ululante de sornas, capazes de se indignar com um direito expresso por lei, e assobiar para o ar, quando a chefe da Catarina lhe pede para ela lhe levar a pesada pasta do computador portátil até à reunião com a administração.
E lá vai a barriga da Catarina com o Manel a dar biqueiros, lá vai ela a subir as escadas para levar o portátil com os números da próxima campanha de promoção da imagem da empresa, oferecendo um serviço moderno, desenhado para os utentes e mais não sei quantas basófias hipócritas pagas a preço de ouro a agências de publicidade medíocres, mas das boas graças do administrador.
O mesmo distintíssimo cavalheiro e génio do marketing que inquiriu candidamente a Catarina, se ela estava mesmo a pensar gozar a licença de parto – ele não se referia ao quinto mês, mas à totalidade da licença de parto!
E, a Catarina vai acalentando a amargura em silêncio, vai chorando baixinho: – São as hormonas, ando com as hormonas todas baralhadas – e vai suportando estoicamente as biqueiradas do Manel e o estigma de ser grávida numa empresa de cadeiras azuis. A Catarina e todas as Catarinas deste país para serem mães têm de lutar contra o preconceito, contra os labregos do “break even” e contra o machismo de saia.
Esta é a Catarina do escritório, formada, bem informada, mas incapaz de fazer valer os seus direitos. Depois há a Catarina da fábrica, a Catarina do banco, a Catarina do campo, a Catarina do supermercado, que começam a ser mãe coragem assim que enfrentam o semblante carregado do chefe.
As Catarinas que são obrigadas à vergonha de terem emprenhado, neste país sem pingo de vergonha. Há Catarinas que perdem o emprego, há Catarinas que abortam para não perder o emprego, há Catarinas que sofrem em silêncio e em angústia, pela simples e maravilhosa ousadia de carregarem, de gerarem uma vida.
Ser mãe em Portugal é ser mãe coragem.
Ele há ou não melhor metáfora para o nosso endémico estado de subdesenvolvimento e atrasadice mental, caro Engenheiro Sócrates, caro Engenheiro Ludgero Marques, caro Carvalho da Silva?
A culpa não é da chefe da Catarina, não é do chefe da chefe da Catarina, nem sequer é do Governo.
A culpa é de todos nós que seguimos viagem no nosso autocarro, virando a cara, fingindo não ver e preferindo continuar com o cú sentado na indiferença cúmplice.
A empresa onde a Catarina trabalha é pública, e devia constituir referência em matéria de respeito pelos direitos dos seus trabalhadores, nomeadamente o direito à maternidade, que deve ser um dos mais silenciados no nosso país de fantoches.
Não escrevo o nome da empresa pública onde a Catarina trabalha, para a poupar a eventuais dissabores, mas é urgente combater este terrorismo insano, e o primeiro combate é denunciá-lo, apontá-lo a dedo, criando um ambiente de hostilidade pública a empresas que gastam milhões para promover a sua imagem de modernidade de serviço ao cliente, e entre portas sustentam relações de trabalho idênticas às das ditaduras fascistas.
Num país a sério, numa empresa com as cadeiras todas iguais, os chefes da Catarina apenas chefiariam o botão da Rank Xerox, e não consta que esses países sejam atrasados, as empresas improdutivas, ou os direitos sociais esmagados pela absurda irracionalidade da gestão.
Uma gestão sem inteligência emocional e sem sentido de humanidade é tão útil para uma empresa como um guarda-chuva para um hipopótamo.
E o Manel bem pode ir treinando os pontapés, que cá fora espera-o muito mais do que uma bola para chutar. Num país surdo-mudo, quem cala consente, e garanto que se acontecer alguma coisa ao Manel ou à Catarina, terei a resposta mais civilizada possível nesta sociedade medieval.
Deito fogo às cadeiras todas daquela valente merda!
PS: Felizmente não precisei de deitar fogo a cadeira nenhuma e amanhã vou à festa da primeira papa do Manel