7/18/2005

Burrologia



O Vodka7 abre o curral do seu bestiário ao burro.
A burrologia não é uma ciência exacta. A burrologia não se barra. A burrologia apenas dá voz ao burro, porque vozes de burro não costumam chegar aos céus.

Lúcio, o burro que renasce num seriado iconográfico aqui no Vodka7, como se fosse uma assombração pop ou uma foto-exposição itinerante Magnum.

Em terra de cegos, quem tem um burro é rei do seu destino sem roque.

O burro não usa Chanell 9, mas gostava!

Dou-te um coice em troca de um fardo de palha, larila laralá!

«Preparava-se o Padre Martinho para ir buscar os salmos para a missa da Procissão ao Anjo da Guarda, que estavam guardados na sacristia de Cebolais da Serra, aferrolhados com a vitualhas no andor, e para grande escandaleira geral, os salmos tinham levado caminho. Foi para lá um reboliço, meteu a guarda e tudo.
Ninguém deu conta do sumiço que levaram os salmos da paróquia que já eram do tempo da Maria Cachucha. Ainda se suspeitou do sacristão, que era amigo da pinga, e de outros ratos de sacristia, prontamente defenestrados a 501 Forte, mas não se chegou a nenhum desenlace à Hércule Poirot.
O Padre armou para lá um escabeche! Acusou a Comissão Fabriqueira de ser uma corja de gatunos, de meterem a unha nos pertences de Deus Nosso Senhor.
O Casimiro, da Comissão Fabriqueira, que não é homem de se ficar, e bruto que nem um quarteirão de casas, ainda prometeu chegar a roupa ao pelo do padre, «A batina que lhe alcofe os açoites, que eu vou aos cornos do cabrão do abade».
Os ânimos exaltaram-se ainda mais, quando, a seguir, foram os evangelhos e o missal a esfumarem-se do centro paroquial.
O Padre Tomé ia lhe dando o badagaio com a apoplexia. Num ataque de cólera, bradava à varanda do centro paroquial: «Grandessíssimos filisteus, sarracenos d`um raio, terroristas do catrino, ratoneiros do Diabo».
Ameaçava a excomunhão colectiva, mas aquela terra de meio alqueire de habitantes, quase todos sexagenários e humildes lavradores, entreolhava-se desconfiada… afinal não havia memória de larápios na aldeia, a não ser uns pilhas-galinhas que por pilhéria iam depenando uns galinheiros mais esconsos.
Mas as misteriosas desaparições continuavam, depois da sacristia, o misterioso ladrão continuava a sua rapinagem bibliófila. A vítima seguinte foi o Centro de Dia, de onde se eclipsaram uma série de clássicos doados pela Fundação Hermenegildo Espírito Santo, que incluíam “As Pupilas do Senhor Reitor”, “A arte do amor”, “A Eneida”, os três volumes de “Dom Quixote de La Mancha”.
Também a notável biblioteca militar do Major Correia não resistiu ao Cavalo de Tróia do saque, e lá marcharam “Guerra e Paz” de Tolstoi, “A Arte da Guerra” de um general chinês, “Princípios da Guerra” de Clausewitz. Nem a colecção do místico brasileiro Paulo Coelho, com que a Lucinda do Posto de Turismo matava as horas sem turistas, (que eram quase todas), escapou à mão invisível do amigo do alheio.
A aldeia andava aterrorizada, e mesmo os analfabetos, escondiam no colchão os livritos de cóbois que os netos lá deixavam nas férias, como se fosse o seu mais valioso espólio. Até que um dia, o meliante foi exposto à ira da terra, despojada dos seus parco património literato.
Um casal de turistas ingleses, andava a tirar retratos ao “very tipical” da aldeia; ao fontanário, ao pelourinho, às velhotas estacionadas na soleira da porta a desfiarem dois dedos de conversa, enfim, os camones andavam a dar aquele “tour” de Nikon em punho para mostrarem nos chás dançantes para reformados lá em Birmingham. Nisto aparece em cena no largo do Pelourinho, a dar ao laré pela rua do castelo, o burrico do Ti Manél Xá.
O burro, ufano, escoriava com elegância, ziguezagueando a cauda de contentamento, lançando numa azáfama de cabriolices o mosquedo que tradicionalmente cortejava a escatologia bestial do equídeo.
Encostou as beiçolas ao tanque da fonte para sorver uma golada de água e, ao que parece, a sofreguidão desarranjou-lhe os intestinos, tendo ali mesmo largado uma valente póia, depositada aos pés dos bifes.
- Look darling, a Pop Star – disse a inglesa sardenta com a sandália apontada em direcção ao meticuloso montículo de bosta, esculpida pelo pandeiro incontinente do burro.
Referia-se a camone aos dejectos da capa de um livro de uma escritora de sucesso, que despontava nos preparos intestinais da besta.
– What´s the problem - Virou-se o asno poliglota, que aprendera inglês num livro que furtara a um velho Lorde da Câmara dos Comuns, hospedado no Turismo de Habitação, contrariando assim a velha tese cabalista de que burro velho não aprende línguas.
– This book stink`s! – Justificou o burro, visivelmente embaraçado com este seu descuido nauseabundo.
Estava então desvendado o mistério dos livros desaparecidos e desmascarado o larápio, precisamente o asno Lúcio, homónimo de Lucius Antonius Rufus Appius, pretor romano que sentenciava favoravelmente a quem lhe pagava a maior tença, e cujas iniciais (L.A.R.A.) passaram a designar os amigos do alheio, conforme se prestou a explicar ao inspector da Guarda Republicana da Soalheira, o burro Lúcio, quando confrontado com tão graves acusações de ladroagem bíblica.
Como o Código Penal não previa punição para crimes cometidos por quadrúpedes, o único castigo que a gula bibliófila do burro Lúcio mereceu, foi a valente sova com pau de cerejeira, aplicada pelo seu dono, o Ti Manel Xá, sob os auspícios do Santo Ofício do Padre Martinho, para quem as saraivadas no lombo do pobre Lúcio, constituíam autêntico Auto de Fé.
- Ah! Jumento dum cabrão, queres desgraçar-me. Guloso dum caneco, que não vales um corno para trabalhar, só queres é encher a mula. – Espigava-se o Ti Manel Xá, enquanto zurzia o pêlo ruço de Lúcio.
- Chegue-lhe, Manel, chegue-lhe com força a esse jumento excomungado – Invectivava o Padre.
- É preciso disciplinar esse pedaço de asno, Manel. Chicote nesse anarquista – Urrava o Major Correia.
Aquilo foi um correctivo público que serviu para apascentar os exaltamentos da populaça e aliviá-los dos esmorecimentos de alma, como se fazia desde tempos ancestrais para expiação das más consciências. O pelourinho rejubilava, depois de um século de branduras e de poses forçadas para a objectiva dos turistas, lá voltava o largo a ser patíbulo de justiça.
Com sorte ainda voltavam os enforcamentos. Um que fosse em memória dos bons velhos tempos.»

O burro não se acagaça! - Deneuve em Peau d`âne, tal como Lúcio


«bom corpinho, hein, e muito dada a mostrá-lo, como se vislumbra pela coxa que desponta da mini-saia. Uma balzaquiana de tira-olhos. O marido é embarcadiço, e está-se mesmo a ver, com aquela anca reboliça, é a perdição dos meirinhos e da malta da repartição de finanças. As más-línguas do centro comercial estão sempre a inventar-lhe amázios para lhe meter nos lençóis, mas parece que o Guedes, o tal que é quartanista de Sociologia do Trabalho, aquele lingrinhas que está ali encostado à coluna, parece que ele é que anda a desfrutar do naco.
Pelo menos é o que se diz por aí à boca cheia.»
in Vozes de burro não chegam aos céus, ouviram bem!


PS:Gracias Mar pela bela imagem

Chegaram os Percevejos! Urrah! Hip, Hip, Hop, Hurrah!



O percevejo (ou maria fedida na linguagem popular brasileira) é um inseto da sub-família Blissinae, que ataca plantações e pastagens. Existem algumas espécies que são hematófagas.
Descrição do percevejoOs adultos são pequenos, medindo de 3 milímetros a 3,5 milímetros de comprimento por 1 milímetro de largura, posuem corpo negro e asas anteriores, geralmente, brancas, com duas pequenas manchas pretas laterais. Suas pernas são claras e de coloração vermelho-amarelada. Os adultos podem ocorrer tanto na forma macróptera (com asas longas – normais) como braquíptera (asas curtas). As fêmeas são maiores do que os machos.

Poem ovos alongados e ligeiramente curvos, com as extremidades arredondadas, a princípio brancos que vão se tornando avermelhados à medida que o momento da eclosão da ninfa se aproxima. As formas jovens, ao longo de seus cinco períodos ninfais apresentam variações distintas de coloração que vão do vermelho brilhante, com uma larga faixa dorsal branca na região anterior do abdome, passando pelo alaranjado, notando-se o surgimento de tecas alares e pelo marrom-alaranjado, com as tecas alares atingindo a região posterior do primeiro segmento abdominal até se tornarem negros, com as tecas alares atingindo além do segundo segmento abdominal.

Biologia do percevejo
Os ovos são colocados geralmente nas bainhas das folhas basais ou logo abaixo da superfície do solo, podendo inclusive, no caso de ocorrência de fendas no solo, serem postos próximo ou mesmo nas raízes das plantas. Imediatamente ao momento da eclosão, as ninfas se poem a sugar a seiva.
Os adultos não possuem período hibernal constatado durante o inverno
inWikipedia como não podia deixar de ser

As novas colónias de info-percevejos são uma espécie de atestado de popularidade de uma publicação na blogosfera. Depois de dois anos de pacato anonimato, o Vodka7 já tem percevejos. Vou beber uma de Murganheira para comemorar.
A garrafinha de Dum-Dum fica para mais tarde, que os percevejos sempre ajudam às audiências.

Percevejo ou Maria Fedida, aqui no Vodka7 serás sempre uma espécie protegida, e olha lá, traz um amigo também.

7/14/2005

Blogues sobre uma mesa!


"Figura sobre uma mesa", Almada Negreiros



Acho que a blogosfera é como aqueles bolos cheios de creme que no Verão azedam facilmente. Por isso sempre preferi os queques, que sempre dão menos azia.
Ao que parece a blogosfera é uma espécie de vilória de província, onde todos se conhecem, e cochicham. Entre as palmadinhas no lombo, a facadinha nas costas e a peixeirada, a blogosfera faz mesmo lembrar uma terra que eu cá sei. Há para aí muitos bons blogues e muitos blogues de merda, mas para mim é completamente indiferente, porque como cresci suburbano, só me habituei a visitar os amigos e a ter uma vida social reservadota, nem é por causa daquilo que eles dizem, mas é por serem meus amigos, que eu só como as bolachinhas da manhã com:

granitoporque tem um arquivo do caneco e sei lá, porque gosto porra. Gosto à brava!

rititiPorque além de ser famosa, é minha amiga, tem piada, e mesmo quando não gosto, gosto!

Através dos EspelhosDo Vitor e do Tiago, tipo Bic laranja, Bic Cristal, escrita fina, escrita normal, num dueto de cordas que é música suave pela manhã. Despretensioso (coisa rara), atento, sensível e bem humorado é um blogue que é o sonho de qualquer mulher à procura do príncipe encantado (atenção que os rapazes já estão destinados). A mim vão-me encantando como nenhum outro blogue na língua do camões.
Como diria a Rititi, os meus amigos não são necessariamente melhores que os teus, têm é a enormíssima vantagem de serem meus amigos. Hi, hi,
Pela mesmissima razão e mais nenhuma é que:
SoBola é leitura obrigatória a seguir à "Bola", e que a Fisga já cá canta.

Para um sorriso curioso não dispenso Diarios de Lisboacom, com as deliciosas curiosidades da Raquel, que tem ainda o encanto de ser tipo - uma curiosidade por ano dá saúde e alegria, e mantêm-nos todos os seus cinco leitores numa tensão de expectativa.

Quanto ao resto, não conheço, nunca fomos apresentados, e para ser sincero, nem estou muito para aí virado.
Gostos não se discutem e por isso prefiro queques de uma pastelaria conhecida a bolas com creme de um pasteleiro anónimo, ou mesmo famoso. Quanto ao facto de ser artista-convidado em quatro dos blogues anunciados, não vem agora ao caso, podem-lhe chamar narcisismo, que eu não me confundo com uma facção socialista de Matosinhos.

A Fisga no Rio de Janeiro



Cidade-maravilhosa, ainda mais vista pelos olhos do Ricardo Paulouro na capital mundial do futebol. Na novíssima Fisga vamos todos ao futebol. Em directo do São Januário, o Vasco da Gama leva uma coça do Internacional, narrado pelo Ricardo Paulouro que em relação ao futebol só tem um único e singular defeito - ser do Sporting.
"Aqui na terra estão jogando futebol, há muito samba, muito show&rock and roll", enquanto por aqui a coisa tá preta.
Aí Ricardão, a galera torce pelo futebolão do nosso time.Fisga

Esta nossa lavra


Lavrar, é talvez a palavra mais utilizada pelos jornalistas-bombeiros-incendiários do Verão do Portugal a arder. Não há peçazinha sobre fogaréu ou catástrofe devoradora que não ponha as chamas a lavrar. Talvez incontrolável seja a segunda palavra de época pouco balnear, mas tenho a certeza que lavrar é a palavra mais utilizada na imprensa portuguesa durante o Verão, talvez só suplantada pela palavra crise, que essa é menos sazonal.
Como em Portugal a agricultura só lavra subsídios, valem os nossos insignes repórteres para nos rememorar desta palavrinha trabalhosa de suor na fonte, que está gravada na testa de um País esquecido do tempo em que se lavrava a terra.
Agora lavram-se autos, sentenças e fogos.
D. Dinis, conhecido pelo seu gosto de lavrar pinhais e montes de Vénus das cordeiras de Deus ficaria decerto entristecido com o destino do seu cognome. Em Portugal as chamas lavram enquanto o repórter/narrador/de incêndios não decidir recorrer a um dicionário de sinónimos, modus operandi que é prática comum na blogosfera portuguesa.
A crise lavra incontrolável, e nós por cá entretidos com os vídeos caseiros da Diana Andringa, safa! Melhor, livra! Melhor lavra!

Provérbios
"Mais vale lavrar o nosso ao longe do que o alheio ao perto."
"Quem em Janeiro lavrar, tem sete pães para o jantar."

7/09/2005

À pesca do arrastão na Wikipedia

Wikipedia: Pesca de arrasto
O método de pesca actualmente mais popular - e mais controverso! - é o arrasto, constituído basicamente por uma rede construída em forma de saco, com flutuadores na parte superior da abertura e pesos na parte do fundo, e cabos seguros às extremidades dessa "boca" com os quais a rede é arrastada normalmente no fundo do mar (embora haja também redes de arrasto de meia-água). Existem formas artesanais desta arte em praticamente todo o mundo, em que a rede é puxada por pescadores a pé ou com o auxílio duma pequena embarcação, mas a indústria pesqueira usa redes de arrasto de grandes dimensões - por vezes mais de uma ao mesmo tempo - que são de construção mais sofisticada e puxadas por instrumentos mecânicos a partir duma embarcação que pode ser um barco-fábrica.
Os aspectos controversos deste método de pesca são vários, desde a noção - normalmente errada - de que estas redes "destroem" o fundo do mar, até outros problemas mais válidos e que têm sido estudados e parcialmente resolvidos pelas ciências pesqueiras, como o facto destas redes serem muito pouco selectivas, quer dizer, capturam animais de praticamente todas as dimensões, até os muito pequenos de uma espécie que ainda não atingiram a maturidade sexual, pondo assim em perigo a continuídade da população, e de todas as espécies, mesmo aquelas que não são o objecto da pescaria e que são muitas vezes lançadas ao mar, contribuíndo para a diminuição da diversidade biológica no mundo.

Vodkapedia: O mexilhão e as andringas
Em Portugal não há pesca de arrastão, só à linha. Em vez de redes muito pouco selectivas temos um anzol apontado a telemóveis, carteiras, cartões de crédito, óculos escuros e ténis rebook, espécies endémicas da costa portuguesa. O mexilhão está ameaçado de extinção por esta colónia parasita, que tem nos predadores da Cova da Moura a sua principal ameaça.
Associações ambientalistas e organizações partidárias portuguesas pretendem atingir o equilibrio ecológico da costa através da propagação e defesa desta espécie predadora, que deve brevemente ser considerada espécie protegida.
De acordo com alguns biólogos marítimos da Associação NavalUnidos do Mindelo, esta espécie pode defenestrar a infestação que assola as nossas praias - o banhista. A primeira experiência piloto teve lugar na Praia de Carcavelos e o sucesso foi estrondoso, com a debandada dos perigosos parasitas - ficando assim aquela paridisiaca praia merecedora de bandeira azul.
O nadadeiro-salvadeiro da praia de Carcavelos, de nome Jaime, confessou a "Vodkapédia" que o fenómeno era do seu agrado, porque agora tinha muito menos trabalho e já nem precisava de hastear a bandeira vermelha para fazer a digestão do arroz malandrinho do almoço e dormir a merecida sesta.
O nadadeiro-salvadeiro acrescentou ainda que "Agora já quase não há banhistas, e a praia está quase sempre deserta."
De acordo com fontes ambientalistas, o equilibrio ecológico atingido permitiu o regresso de uma espécie nativa - a andringa - bivalve da família dos perceves que normalmente é imprestável para comer, mas cujas conchas fazem excelentes decorações para fios à venda na Festa do Avante.


Legs para que te quero: A andringa, espécie de bivalve com vídeo incorporado, ameaçada de extinção pela pesca do arrastão após ter superado em muito a sua maturidade sexual. Como não são comestíveis são muitas vezes lançadas ao mar, contribuíndo para a diminuição da diversidade biológica no mundo, e neste caso ainda bem.

7/07/2005

A morte saíu à rua



O medo é a peste moderna, vive entranhado no ódio, no vazio, na abjecta loucura de tratar a vida humana como um mero meio de propaganda.
O terror vive, como sempre, escondido no lado negro do coração dos homens sem coração, sem pátria, sem deus, sem amor.
Em Londres e em qualquer recanto do mundo, o homeme continua a ser um lobo selvagem para o homem. Esta é a peste negra do nosso mundo. A paz é uma mera ilusão de conforto negociado.

7/06/2005

As coisas que um gajo aprende na Wickipedia


Adelaide Herculine Barbin, hermafrodita francesa do século XIX, nasceu no ano de 1838 e foi declarada mulher. Estudou em colégio de freiras mas aos ao fazer uma consulta médica, diagnosticou-se que ela tinha também um órgão sexual masculino. Passou então a se chamar Abel, mas em 1868 cometeu o suicídio. O caso é muito conhecido devido ao diário que ela escreveu durante sua vida e priciplamente depois que Michel Foucault estudou o seu caso e republicou seu diário. (:::)
A obra vai ser adaptada a uma sitcom portuguesa da TVI, com o apoio do Instituto Franco-português, argumento dos gato fedorento e com a filha/o do Néné no principal papel. Os humanos assinam a banda sonora.

"A Peleja do Diabo com o Dono do Céu" (1979) é o título de um tema do cantor nordestino Zé Ramalho.

Quando tiver um filho chamo-lhe Diabo, Diabo Pelejão.

Exercícios de estio


Estendi a toalha demoradamente, e quando me deitei o Sol já se tinha posto em marcha lenta.

Farto da tirania de Al-Jazira, o maior comerciante de tapetes de Teerão, o pequeno Sinbad atirou com o tapete à toalha.


Tenho tantas saudades de usar as minhas braçadeiras do Dartacão e a minha bóia com a cabeça do Pato Donald a servir de leme. Definitivamente a praia dos adultos não tem gracinha nenhuma.


Porque será que se chama Tótó a uma pessoa? Quando a mesma palavra serve para nomear as trancinhas de cabelo da Pipi das Meias Altas? Acho mesmo que não se devia chamar tótós às pessoas, sem uma razão etimiológica de fundo.


Porque será que se vendem bolas de berlim na praia em Portugal? E porque não mil-folhas, queques ou bábás? Esta é uma dúvida que me assola com frequência, sobretudo em dias de Sol.


Há mar e mar e mar e mar e mar e mar e mar e mar. E comprimidos para o enjôo, não há?


O fio dental torna desnecessária a simbologia das bandeiras.



Qual é o factor de protecção que usas, eis uma pergunta verdadeiramente indiscreta.


Fazia um calor sufocante, tanto que o sol foi acusado de genocídio por asfixia.

"A época idiota já começou", anunciava o cartaz daquela sapataria em saldos de Verão. Lá dentro um pescado trocava as sandálias por umas havaianas verdes e amarelas, que nas solas diziam - Ordem e Progresso. Respectivamente.


Ao que parece o gelo tem tendência a derreter com o calor, é por isso que se deve beber vodka tónico por uma palhinha, mesmo sob o risco de se parecer um bebedor um pouco apaneleirado.

Hélio ligou a ventoínha no máximo. Fechou os olhos e inalou a lufada de ar fresco pelas colossais narinas, depois inchou como um balão e quase que conseguiu dar a volta ao mundo em 80 dias.


Fateonte entrou de mansinho no quarto do pai e surripiou do bolso das calças do velho a chave do potente BMW.
Hélio, deus do Sol, ressonava no sofá durante o Prós e Contras, e Fateonte com pézinhos alados de lã, saíu pela janela aberta por uma suave brisa de Verão, para não acordar o seu pai. Meteu-se no BMW e foi para o pica na Ponte Vasco da Gama com o BMW de 250 cv, que espatifou violentamente contra um choupo de Alcochete, depois de uma louca perseguição de um carro camuflado da Brigada de Trânsito.
O oficial que levantou o auto e assinou o óbito chamava-se José Vá com Zeus. Em casa Hélio ressonava, afinal o Sol só se levanta lá pelas 7.00h naquele país mitológico e mitómano.


O SuperMax virou-se ao dono. O veterinário diagnosticou stress profissional por excesso de trabalho e deu-lhe baixa psicológica. O Perna de Pau, esse continuava tão bêbado que nem deu pela falta do Cão na arca frigorífica. É fruta ou chocolate, olhó gelado, cantarolava enquanto cozia a bebedeira de Rum.

7/01/2005

Relambório nacional


Os lambe-botas deste país podem este fim-de-semana ver se lambem umas pachachinhas, para variar É o Salão Erótico da FIL, acontecimento cultural do ano neste país.
Para quem não gosta de pornografia, erotismo, fétiches e confunde mamada no salão com salada de mamão, o melhor é mesmo ficar pela FIL artesanato.

Delete al items


E ao sétimo dia a obra morreu. hi, hi, hi - o efémero também é uma forma de arte.
O burro foi à sua vidinha de enfardo literário.

5/17/2005

Maltratado de frases freitas - Os microcontos

"Espero o tempo que for desnecessário - dizia a tabuleta na porta da sala de espera do meu dentista"


"Suavemente e com gentileza, o copo inclinou-se sobre os seus lábios áridos."


"A ampulheta tinha um furinho e por isso a areia movediça esvaíu-se na palma da minha mão. Definitivamente, não há volta a dar ao tempo."

"O reino foi varrido por uma vaga de frio ártico e o tesoureiro-real descobriu que não havia cobertores suficientes para tapar os pés da monarquia tilitante."

"A torneira respingava. O canalizador, cofiou o bigode e diagnosticou um resfriado."

"Uma borracha de água quente e os teus pés entre os meus. Este é o Inverno do nosso contentamento."

"Parei, escutei e olhei ... como de costume, nem sombras de um combóio."

"O anão sentou-se num penico em cima da lua. Fumou um maço de gauloises enquanto dizia asneiras porcas aos anjos que por ali passavam."

"Queimei a língua no leite quente e fiz uma careta de dor - pensou Edward Munch enquanto pintava o grito."

"A velha mosca tombou no prato de marmelada que vivia no aparador da Tia Hermínia. Ali ficou para fóssil, cristalizada como um doce de bolo-rei."


"A língua dos anjos ficara cor-de-laranja de tanto comerem gelados de manga às escondidas de Deus. Um deles ficou com dor de barriga, e assim nasceu na doçaria celestial a famosa barriga de anjo."

"Provavelmente a melhor forma de ser feliz é não pensar muito nisso, pensou demoradamente o filósofo enquanto tomava um banho de imersão."

"O diabo tocava concertina num café em Montparnasse."

"De cabeça perdida, S. Cipriano atirou-se aos leões que nem um tarzão."

"O menino lambeu a colher devagar e suspirou, já com saudades das farófias da Avó Piedade."

"O desdentado sorriu com sinceridade e os seus dentes reluziram que nem marfim."

"O diabo comunicava com os seus pactuantes através de walkie-talkies e sempre em frequência maldita."

4/17/2005

Líquidos pouco sólidos

Se o piano esteve a beber, porque não eu?


Um dilema citrino que sempre me atormentou é se há o supra-sumo da laranjada, porque não há o supra-sumo da limonada?


Uma coca-cola no deserto, uma agulha no palheiro e um político honesto.


Para beber chá é preciso saber soprar devagarinho como quem assobia.


A água suja do capitalismo americano deixa manchas mas é eficaz para as resscas.


O cubo de gelo desfez-se em lágrimas. O whisky não e eu muito menos.


O fumo do café pela manhã- eis uma razão válida para continuar a respirar.


Cavalheiro pouco respeitável e sem posses procura mulher que olhe para o céu e encontre a lua numa garrafa de vodka.


O trabalho é a maldição da classe dos bebedores. Não trabalhe!


O cardeal bebeu um cálice de xerez, benzeu-se e finou-se. A marca registou a patente do licor como "extrema unção"

3/31/2005


Vodka71 Posted by Hello

3/15/2005

A pousada pasmada

Vamos pelo caminho, o mau, que é sempre o da nossa preferência.
Viçosa era a vila, e a viúva da hospedaria.
Preto carregado sublinhando o louro platinado e desalinho do cabelo.
Uma ex-balzaquiana e viúva, mas sem cama de casal nem quarto com banho e pechiché.

Regresso ao frio e colho uma laranja caída, tombada na calçada de briol português. Uma laranja chocha que se arrepia com o frio da nossa passada enregelada.
Gosto das laranjas que desistem que são vencidas pelo toro e pela feroz competição da seiva.
Viçosa é a laranja que aguenta altaneira, monopolizando o sol para si.



Vai morrer cheia de suco de laranja, cheia de brio e totalmente inapta para o vodka, porque esta laranja viçosa raramente se mistura.
Prefiro mil vezes a laranja que tomba, seca, vencida e quase amarela de cadáver citrinico.
Meto-a ao bolso e afago a sua pele encrespada.
Faço festas a esta laranja perdida como quem afaga o pêlo carente de um rafeiro.

Sigo passo certo para a pousada, mais cara, é certo, mas viçosa como a laranja ao alto do toro, inacessível e medieval, no sentido solene e careiro que o termo pode assumir quando se fala de bardamerdice turística.
Aproximo-me com ar vagaroso e sombrio do consiérge e dirigo-lhe as mais célebres palavras:
- Boa noite, qual é o preço do leito?
- Cama de casal?
Inquire o estalajadeiro engravatado.
- O mais possível –
Digo eu, que nunca se sabe quando um viajante solitário acorda com a mão aconchavada numa bela mama sobranceira.
- São 150 euros.
Responde desconfiado, Félix, nome que reluz na placa Pestana.
- Ora ai está, há descontos para sócios do Benfica?
Prossigo eu em voz afinada de Piçarra.

- Hummmm????
Ventriloqua o Félix renascido. Galvanizado pelas gingas rapidamente embutidas em qualquer taberna/santuário local, entro numa de desaforo inquisitório, como qualquer batedor manhoso do Guia Michelin.

- Qual é a vossa política em relação a putedo?
- Desculpe senhor, balbucia o estalajadeiro imberbe.
- E em relação a travestis negróides, ou orgias?
Avanço eu, sem tempo de cortar a respiração da resposta do inadvertido
- E festas de swing, e pornografia? É pay-tv soft, ou em canal aberto hard-core.E o mini-bar é só Sagres e água das pedras, ou há Moet Chandon e água benta.
Amendoins caramelizados ou tobleron?

Enfim todas as perguntas que o viajante faz a si mesmo e raramente tem coragem de colocar ao estalajadeiro presumido.
- Viva a ginga libertadora! Grito eu em plenos pulmões perante o ar estarrecido de Félix, e o semblante reprovador da estátua de D. Manuel que era pouco dado às vidas.

Valha-nos D. Dinis, o seu pinhal e o seu proverbial gosto por meretrizes, de preferência as cordeiras de Deus, que são lanzudas de tomar por trás.
- Fico então com a cama de dossel – Informo eu – Mas fique já sabendo, que se me prouver a povoarei de putas, tantas ,que farei parecer o pinhal de D. Dinis um deserto do Sahara.
Sorriso amarelo, transacções de identidades, e ala para o banho de imersão, o mini-bar e a inevitável matiné de punhetas.
Com passagem pelo jantar, servido por pinguins hirtos e solenes, como rabetas de sacristia, acostumados a levar no cú e a limparem-se à batina.
Escutando George Michael tocado em flauta, e imerso em flatulêcias ,consequências da encharcada, sigo para o bar, o paraíso dos ímpios.
Afago a laranja, e recosto-me no sofá com um Bushmills de traulitada.
Escuto as conversas, aparentemente, sem moralizar.
Dois casais de meia-idade, rodeados da prol sonolenta e saudosa da playstation, abarbatam-se ao calor da lareira, sem tempo nem ouvido para escutar o seu crepitar.
Um dos cavalheiros, bem instalado e fumegando o seu Monte Cristo de tamanho para pacóvios, profere uma homília sobre as suas viagens e essas aventuras pela Europa. Entre baforadas e auditório atento e acrítico, conta as maravilhas da Holdanda, os canais, as túlipas, os maravilhosos verdes prados, as vaquinhas e esse nobre e tolerante espírito holandês.
Prossegue em monólogo de inter-rail para a Suiça, e Chaamonix para aqui e ski para acolá, e as brancas neves, e mais a Puta que o pariu e as suas aventuras merdosas, que me indigerem o Buschmils e espantam o pianista que tecla que nem um flautista de Hamelin.
Já fui muitas vezes à Holanda e nunca vi nenhuma túlipa, nem tamancos, nem trancinhas, nem o Reijk museum, nem o raio que o parta.
A Holanda é para quem sabe, não para quem pode.
É montra de desejos, é putedo mais internacional que a socialista, é o bom broche, clínico e limpinho, como quem lava dentes com elixir para o hálito.
É putas do Senegal para nos afundarmos no seu cú majestoso, é coffe-shops e droga com fartura.
Se em Vila Viçosa a viúva é negra e loura platinada, em Amsterdão a viúva é white widow.
Se este cabrão presunçoso já esteve na Holanda do broche e da erva, passou a vida a ver canais, e quanto a Xamonix, prefiro mil vezes o xanax.
Espero que o Félix enrabe a sua esposa cândida na escada de serviço e ele ressone o sono do cornudo. Afago a minha laranja, estupro de novo o mini-bar e guardo a punheta salvífica para outra encarnação.
Pousadas de Portugal, nunca mais, prefiro acampar.

3/13/2005

Happy new year

segundo rezam as crónicas o ano novo já começou. Não sabia que as crónicas rezavam o terço e que um dia o Deus Pan tocava pífaro e se engasgou com um sugus, dando assim origem ao panteísmo clássico. Segundo o livro de S. Cipriano, o diabo gosta de tomar as mulheres bonitas pela frente e as mulheres feias port trás, o que revela um sentido estético muito apurado na prática da cópula. Resta saber que posição menos convencional adoptaria o maffarico caso tivesse que tomar uma mulher socialista. A julgar pela amostra, o mais prudente seria remeter-se à abstinência sexual prolongada e fazer uma joint venture pagã com o Deus Onan. E assim vai o mundo, na palma da mão punheteira. Glória aos céus e bom ano para todos os cães infiéis da minha matilha amiga.

12/16/2004

Andam a enforcar o Pai Natal

Os xinocas são tramados para a invasão silenciosa do capitalismo ocidental desatento. Já não chegava terem feito um ctrl alt shif no negócio de PC´s da IBM, de nos terem anexado com lojinhas de bugigangas baratas, produzidas à custa da exploração do trabalho escravo. Isso por si já bastava para na minha opinião abrir uma crise de mísseis balísticos apontados a Xangai. Nem nós neste cantinho à beira mar desterrado escapamos à invasão de bandeiras de Portugal made in china durante o Euro 2004. Que ironia amarga, uma onda de patrriotismo bacoco a sustentar a indústria de produção de bandeirinhas da China comuno/capitalista. Mas a golpada decisiva está a acontecer este Natal com a complacência de associações de pais, da DECO, dos Dragões Sandinenses e de toda a rede de hipermercados fatelas que são banidos para a Província.
Caso ainda não tenham reparado:

OS CHINOCAS ANDAM A ENFORCAR O PAI NATAL!

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- De repente como numa febre pós-Euro 2004, as bandeiras encardidas que aindam persistiam no estendal ao lado das peúgas do chefe-de-família, são agora substituídas por linchamentos públicos e decorativos do Pai Natal. Este mega vodoo natalício está a espalhar-se como uma pestilência medieval e não é raro passar numa rua e ver uma série de Pais Natais enforcados pelas janelas fora. Os chinocas estão obviamente a linchar o símbolo maior do capitalismo consumista e ironicamente servem-se dos desprevenidos consumidores ocidentais, que na sua crendice copista andam a dar nós à traqueia do Pai Natal, que agoniza assim numa esquina perto de si.
O Vacticano rejubila, porque vê aqui uma oportunidade de relançar o presépio como o maior merchandising de Natal, voltando a ocupar o lugar que era seu na pacatez dos lares cristãos.
O pior é que os sinistros chinocas já se anteciparam e aproveitando a experiência do Museu da Madame Tussaud com o Beckham a fazer de José e a Vitória de Maria, estão agora a lançar moldes industriais para no próximo ano comercializarem presépios dirigidos a cada mercado, utilizando figuras públicas para modelos dos pequenos bonecos de plástico.

Miguel Cadilhe e a Agência Portuguesa de Investimento já garantiram a instalação de uma fábrica chinesa de presépios na Boidobra, e fontes ligadas à espionagem industrial desvendaram já o nome das figuras públicas portuguesas que no próximo ano vão servir de moldes ao "Presépio Tuga", assim, e por ordem de entrada em cena:

José: Miguel Ângelo dos Delfins
Maria: Teresa Guilherme
Manjedoura: Luís Delgado, ou Celeste Cardona
Menino Jesus: Cristiano Ronaldo
Os três Reis magos -
Baltasar: Manuel Alegre
Belchior: Francis Obikwele
Gaspar: José Cid


Burro: Rui Gomes da Silva
Vaca: Henrique Chaves
Ovelha: Guilherme Silva
Hiena: Paulo Portas
Víbora: Marcelo Rebelo de Sousa
Papa-formigas:José Sócrates
Musgo: Miguel Relvas


Estrela do Norte: Pedro Santana Lopes
Pastor judeu 1: Belmiro Azevedo
Pastor Judeu 2: O gajo dos Silence Four
Pastor Judeu 3: Jardim Gonçalves
Agente da Mossad disfarçado de Pastor Judeu: Marisa Cruz
Feiticeiro Judeu 1: Jorge Sampaio
Profeta Judeu: Cavaco Silva
Cabana do Menino: Os gato fedorento
Garrafão de 5 litros de tinto: Clara Ferreira Alves
Lamparina dourada: Pinto da Costa
Apresentador de TV Shop Palestiniano: João Gabriel
Deus: Mário Soares
Diabo: João de Deus Pinheiro.






Portanto já sabem, este Natal aproveitem e enforquem o Pai Natal. Os chinocas agradecem, e a indústria nacional de presépios também.

Quanto a nós, amor na terra paz no Céu, e Filhós com vinho não fazem mal!

11/09/2004

Um homem sem qualidades

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Jacobino acordou terrivelmente mal disposto. Tomou um banho frio a contragosto (o gás acabara), comeu um prato de corn flakes ressequido com leite azedo.
Teve de vestir um fato com cheiro a mofo e umas peúgas remendadas. Descobriu que as varetas do guarda-chuva estavam retorcidas.
Já na rua, enfrentou o vendaval diluviano e o bulício irritável da manhã urbana.
Parou no café, onde se acotovelou com operários galvanizados pelo fragor do bagaço matinal, para poder chegar ao salvífico café. Bebeu de um gole. Estava frio e cheio de azedume. Tal como ele, Jacobino.
Tal como aquele dia invernoso e frio. Jacobino olhou para o relógio, estava já atrasado para picar o ponto na secretaria da 3º barra da Boa Hora.
Na paragem do autocarro, uma extensa fila de guarda-chuvas agitava-se com o frenesim da espera. Tomou o seu lugar na fila.
A chuva fria percorria-lhe a testa, para serpentear invasiva e gelada pelo colarinho, e afagar-lhe o pescoço com malícia.
Jacobino batia os pés enregelados, sentido o dedo grande em contacto humedecido com o couro do sapato gasto comprado em meia estação num Outlet. Tentava abrigar-se puxando os colarinhos para o nariz, como via fazer nos policiais americanos dos anos 50. Sentia-se um Marlowe derrotado e rendido. O autocarro chega com estrondo, levantando um vagalhão malcheiroso de águas e dejectos da berma que atinge, com salpicos lamacentos a face mal barbeada de Jacobino. A multidão ululante de guarda-chuvas desfaz a fila ordeira para se precipitar em horda bárbara para todos os orifícios abertos da besta metropolitana. Jacobino é projectado para trás com uma carga de ombro de pretalhão grande e untuoso, a fazer lembrar o Lilian Thuram.
Aterra de quatro no passeio. Sente-se vencido, inerte, rendido. Pela janela, uns enormes olhos azuis de uma universitária bonita sorriem-lhe com uma frieza compadecida. A rapariga resgata o olhar comprometido e volta a enfiar o nariz na leitura. O autocarro arranca vagaroso, e com uma lágrima salgada misturada com a chuva, Jacobino reconhece a capa encardida e usada numa edição dos Livros do Brasil, reconhece em tituleira antiga o livro que a rapariga finge ler, finge perceber. “Um homem sem qualidades” de Robert Musil.
Jacobino fica sentado no passeio com olhos marejados de gotas de chuva e de lágrimas. Jacobino desiste e fica sentado no passeio para sempre.
Ainda ali vive, perto da paragem de autocarros, dormindo no passeio, comendo o resto de esmolas e de indiferenças enojadas que se dedicam os vagabundos nauseabundos e a quem decidiu deixar de ser prisioneiro, de ser escravo da normalidade enlouquecida.

Homicídio horário


Hoje acordei com o despertador estridente. Levantei-me, fui à despensa buscar a caçadeira de canos cerrados. Apontei ao ponteiro das horas e disparei. O despertador caiu fulminado, calando-se para sempre. Sempre gostei de matar as horas mortas.

Chaise longue

Estico-me na espreguiçadeira, olho para o mundo lá fora. Chove a potes e está um dia cinzento.
Faço um zapping pelas notícias, e paro num documentário sobre a vida sexual das carraças. Bocejo, volto a espreguiçar-me na minha inactividade sexual e mental. Viro-me então para outro lado, que é para onde durmo melhor.
O mundo lá fora pode esperar, enquanto eu espero por melhores dias. As carraças também podem continuar a foder, que é para o lado que durmo melhor … na minha chaise longue.

I was dancing in a lesbian bar in a industrial zone, au au au!

E por esse motivo, tenho andado alheado, alienado, afastado, calado, marado, tarado, depravado, dominado, fechado e trauteado.
I`ve been too drunk to fuck!

8/18/2004

A ausência de Deus

O recado de Deus era suficientemente claro.
Não te fodas mas do que o absolutamente necessário.
Finalmente acabei por descobrir a grande vantagem de não acreditar num deus sms, e mais do que isso em deus nenhum

6/24/2004

Contos Para Bólicos II

Devir históricoAo primeiro tempo sucedeu-se o segundo tempo, e assim sucessivamente. O eterno destino do futebol é circular como uma bola.

Mercado de carne
No final da partida os jogadores das duas equipas trocaram de camisolas, mas não chegaram a trocar os corpos como numa música do Sérgio Godinho.

Pintar azulejos
O balneário tinha bom ambiente desde que os novos azulejos com patinhos estampados substituiram o cinzento cimento.

Metáfora Medieval
Galvanizada depois do golo, a equipa azul-celeste partiu para o ataque, no entanto a muralha defensiva adversária não abriu brechas.O futebol tem muito em comum com os cercos militares da Idade Média.

Amarguinha táctica
O catenaccio é uma táctica defensiva - proferiu o treinador - Por isso, hoje somos obrigados a jogar em fellatio !
Esta súbita ousadia estratégica trouxe muitos amargos de boca à squadra azurra.

Last call
A baliza estava aberta ... ao contrário do bar - lamentava-se o adepto da cerveja.

Opção líquida
A sangria estava óptima, o jogo nem por isso.


Vulgaridade artística

Zé Manel era um homem vulgar, típico e igual a tantos outros. O anónimo macho lusitano, conpíscuo e desprovido de qualquer tipo de sensibilidade. Tinha no entanto um apurado sentido estético, diria quase barroco, sobre a arte de ver um jogo de futebol à frente do televisor. Enquanto no ecrã de plasma se projectava a imagem dos dribles de Zidane, ou das defesas de Buffon, Zé Manel colocava no seu hi-fi um CD de Death Metal, e contratava putas de todas as nacionalidades para lhe fazerem grandes mamadas, enquanto bebia cerveja e arrotava copiosamente.
Está assim provado, que mesmo o mais anónimo dos homens tem um sentido de perversão artística muito superior a qualquer mulher dotada de inteligência e humor. Para Zé Manel, o broche era uma forma de expressão artística só comparável a ver um bom jogo de futebol. Essa é uma cacofonia que infelizmente nenhuma mulher compreende. As putas estão por isso muito mais próximas do verdadeiro universo masculino do que qualquer mulher letrada.

Trent
A cotação do petróleo está a dois jogadores brasileiros por barril.

Delfos online
"Um jogo de futebol é como uma tragédia grega", já dizia o Oráculo de Delfos, o mesmo que fundou a lógica de que prognósticos só no fim e anteviu o resultado final do Portugal-Grécia, na sua crónica semanal no Record online.


Distracções fatais

Aquiles num soberbo toque de calcanhar, desmarcou Ulisses, que distraído estava a dar autógrafos às suas fãs troianas e assim falhou o golo decisivo.


Máxima humanidade

A Intenção era boa, a execução não foi a melhor - Esta parábola futebolistica é ironicamente o epitáfio da humanidade.


Defesa da arte

"A verdadeira arte é a sagração da disciplina. Só a férrea vontade permite a disciplina da criação da obra, e a sua destruição. A verdadeira arte é por isso efémera, perecível e destrutível. É no caos e na negação que se concretiza a arte, nunca na sua criação."
Depois desta palestra do treinador daquela equipa Barroca, os defesas entreolharam-se, murmurando - o que será que o mister quis dizer com isto? Acho que é para cortar as bolas de qualquer maneira, traduziu o veterano capitão.


Ideologia

O futebol é um desporto colectivo e comunista praticado por ferozes individualistas ao serviço do capitalismo. A ideologia do futebol é por isso a síntese dos contrários.

Dupla atacante
Cadorin e Alain formavam a dupla atacante do Portimonense e mantinham um espectáculo de drag queens num bar manhoso em Albufeira.

Angústia no banco
Devido a um trauma profissional, o suplente tremia com a ideia de mudar um pneu.

Moeda báltica
Aquele derby teve de ser decidido por moeda ao ar, o que acabou por contribuir para a disseminação da moeda única naquele país do Báltico.

Hipnose galinácea
Panenka o hipnotizador checo deixou de marcar penaltis e passou a a fazer crer aos guarda-redes adversários que eram frangos.

6/22/2004

Contos Para Bólicos

Onze contra onze
As nações da Europa uniram-se para um torneio de futebol e desuniram-se para a Constituição do onze inicial.


Soluço decisivo
O guarda-redes foi acossado por um convulsivo ataque de soluços. Solidário, o avançado-centro da equipa adversária pregou-lhe uns valentes sustos.

Morte no éter
Este jogo é impróprio para cardíacos – anunciou em tom estrindete o narrador desportivo da rádio, antes de tombar vítima de uma síncope cardíaca. Uma morte etérea.

Matar saudades
O anjo das pernas tortas desceu ao relvado, fintou dois russos, um português, três centrais paraguaios, vários fiscais de linha, um “steward”, dois massagistas e uma horda de adeptos que se preparavam para invadir o relvado. Satisfeito, Garrincha voltou para o ceú para driblar toda a equipa do inferno.

Veneno digestivo
Da bota do venenoso extremo da selecção da Bolívia libertou-se um Piton que devorou toda a defesa adversária, mastigando com vagar o guarda-redes.

Perú me mata!
Que Perú – ululava a claque carioca, perante o desespero do guarda-redes da selecção do Perú.

Evolução tecnológica
Numa febre de modernidade o bandeirinha decidiu trocar a bandeirola por um tecnologicamente avançado sistema de semáforos. A TV Bandeirantes transmitiu em directo a inovação.

A ressureição
O avançado-centro morreu ao amanhecer... e ressucitou ao terceiro dia.

Filosoficamente correcto
Farto de rematar sem sucesso à baliza, o avançado-centro decidiu deixar de rematar à baliza. Uma excelente opção táctica, já que na prática o resultado foi o mesmo.

Líberus horribilis
O “líbero” cantava a plenos pulmões “O Sole Mio” e assim afastava os avançados contrários da sua área de jurisdição.

Todos nús
Num acampamento de nudistas o monitor decidiu organizar uma partida de futebol num campo pelado. O problema foi distinguir uma equipa da outra, afinal a Nike não patrocina pilas.

Bicla
Negrete trocou o pontapé de bicicleta por uma potente Kawasaki. Comprou o “on the road” do Kerouac e fez-se à estrada para o Euro.

Homo Erectus
O massagista continuava a esfregar o trinco, que envergonhado não evitou uma erecção espontânea.

Dieta táctica
Vão lá e comam a relva – gritou o treinador ao intervalo. Jarbas, o central de marcação, levou a ordem à letra e tornou-se vegetariano.

Não Vai Nuvem
O remate saíu potente e colocado. Num voo de águia, o guarda-redes estirou-se até às nuvens, e nunca mais desceu à terra.

Se te apanho ...
O árbitro soprou furiosamente no apito. Indiferentes, os jogadores continuaram a brincar à apanhada.

Apito melómano
Aquele apito era especial. Em vez do estrindente Priiiiiiiii !!!!! Soprava áreas completas de Mozart, numa gravação da Deutsh Gramaphone de um concerto de Van Karajan.

Tintol é gol
Venha outro penalti que o guarda-redes mexeu-se – escrevia o jovem jornalista desportivo, cofiando o bigodinho presumido enquanto cogitava – onde é que eu já ouvi isto?

6/01/2004

Contos Paragráficos IV

Al we ever wanted was everything
“Vitalis é uma água leve, pura e naturalmente equilibrado em minerais.”
Bebi uma golada e passou-me a febre do ouro.
Pude então escutar o meu velho disco dos Bahaus.
Al we ever got was gold


Desconto criminal
Uma tabuleta à porta daquele tribunal anunciava uma campanha de descontos:
“Homícidio premiditado – 10%”
“Assédio sexual no local de trabalho – 20%”
“Condução sob efeito do álcool – 40%”
“Crimes contra a humanidade – 90%”
“Penas iguais ou superiores a prisão perpétua – 100%”
“Fogo posto – 30%”
“Violação de velhinhas – 50%”
“Roubo de bicicletas – 5%”
“Fraude eleitoral – 40%”
“Ir ao cú a meninos – 100%”
A campanha de saldos judiciais foi um sucesso e o Ministro da Justiça foi condecorado e ofereceu a todos os juízes uma garrafinha de aguardente de pera, para se embebedarem com os meirinhos, fora do horário laboral.

O homem que engolia tralha
Começou por uma dieta baseada em sapos, que aliás se servem no refeitório da maioria dos locais de trabalho.
Rapidamente começou a engolir objectos. Para entrada um cabide, uns clipes ao ajillho e uns teclados de cabidela. Em casa, para destemperar, engolia a seco o elevador com o vizinho lá dentro, (coronel reformado de bengala e condecorações a granel.)
Para sobremesa engolia uma tábua de passar a ferro, salteada com um televisor Blaupunkt com ecrã de plasma. Era um funcionário bastante digestivo.
Entretanto, os sapos andavam dopados a Alka Seltzer e a conspirar com o director de recursos humanos para mudar a ementa do refeitório daquela multinacional.

Cometa na alheta
O cometa descrevia uma rota perigosa para a terra. A terra arrotou a camadas de ozono e desviou o cometa para a quinta casa do caralho.


Saladinha de mamão

O director daquela escola de alta cozinha do liceu francês cofiou o bigodinho retorcido e em flautulência grave disse: “Nunca confundir uma salada de mamão com uma mamada no salão”.
As criadinhas francesas não evitaram um risinho abafado, adivinhando já as iguarias que o futuro lhes reservava.

Figo maduro
D. Estroninho de Bourboun agachou-se debaixo de uma figueira secular, alçou as longas vestes dominicanas e iniciou uma cruzada escatológica. Um serraceno que por ali passava a trote, em puro sangue árabe, riu entre dentes
– Cão cristão, foram os figos quentes que te caíram mal.
Séculos mais tarde ali foi plantado o aeroporto de Figo maduro.

Colar assassino
O colar apertou a jugular da marquesa, asfixiando-a até à morte. O escândalo foi abafado no porta-jóias e na reunião de partilhas daquela aristocrática família.

O elevador zen
Aquele elevador vivia uma crise existencial depois de ler as obras completas de Jean-Paul Sarte. Quando subia, elevava-se em angústias. Quando descia, deprimia-se em hesitaçõe. Depois de consultar um oráculo, decidiu-se a estancar no rés-de-chão, para dali não mais sair.
Sem elevador, o pianista frustrado do 5º C, bebeu uma garrafa de anis e atirou-se da janela, despenhando-se no saguão. Aquele prédio vivia finalmente numa cordata paz imóvel.

O descanso da borboleta
A borboleta decidiu comprar um colchão Mola Flex, colocou as asas no prego e passou o resto da vida recostada no colchão, desfolhando revistas cor de rosa, vivendo as recordações de um passado faustoso.


O homem sem voz

O locutor perdeu a voz, em compensação ganhou a vida.

Relógio de sol a sol
O sol prosseguia a sua lenta marcha, indiferente ao relógio que continuava a dar horas.

À espera do amor
Beijaram-se, primeiro com ternura e lábios quentes de carícias, depois vorazmente com sofreguidão de carne.
Calaram os rostos e acenderam o silêncio, ficaram sentados no tabuleiro da ponte à espera de melhores dias para o amor.

Passarinho na brisa
O passarinho projectou-se suicida no pára-brisas daquele carro topo-de-gama de uma marca alemã de prestígio. Um som de ossos estaladiços interrompeu o som do subwoofer poderoso do “hi-fi” que fazia parte do equipamento de série daquele bólide. Friamente, o chauffer accionou o limpa-pára brisas, varrendo as penas, o sangue e os restos mortais do pássaro. O PDG que seguia no banco de trás ergueu o sobrolho inquisidor da aresta do Financial Times, e pigarreou as résteas de Monte Cristo que lhe irritavam o esófago mandão.

Faz-me um bico
Obviamente demito-me, disse despeitado velho fogão de bicos, quando viu entrar na cozinha o novo e reluzente micro-ondas, comprado nas últimas promoções do Intermarché

Deslocação do ar
O ar deslocou-se, mas o homem-espantalho, esse permaneceu imóvel.

Polivalente e imortal
O Professor de Filosofia da C+S da Quarteira apresentou o orador seguinte daquele sarau de poesia e pancadaria que se realizava no pavilhão gimnodesportivo do Imortal de Albufeira.
Sebastião D`Alma, insigne poeta, pensador, pintor, escultor e bêbado.
_Não necessariamente por essa ordem::: apresentou-se aquele venerando alcólatra com inclinação poética.


Gramar a gramática
Colocar um i antes do . ou um chapéu no avo, não é necessariamente sintoma de um bom domínio da gramática.
Aliás há quem veja ::: a dobrar, Pontos de ! sem ão no fim. Ou um . amantizado com uma , e nem por isso deixe de viver na idade dos ??? ês.
E o que dizer das “ que nascem das árvores chamadas “seiras, e dos escritores que deixam cair os ( ) na lama, e dos chavões que são os maridos das }. E ainda me vêem com onomatopeias e falinhas mansas, os embusteiros. Aos farsantes da pontuação, metia-lhes um / ão pelo rabinho a dentro. Ou asfixiava-os com o um endredao de ~tils.
A gramatologia a quem a trabalha.

Terapia pronta
- Dói-me a gramática !
Queixou-se o menino Julinho.
- Bochecha com o prontuário – aconselhou a professora.

5/11/2004

Contos Paragráficos III


O sabor da cereja
O Presidente cuspiu para o ar o caroço de cereja que lhe estava encravado desde a última recepção oficial ao Rei da Suazilândia. Aliviado, nem reparou que acabara de bater o recorde mundial da cuspidela do caroço de cereja, que até aí estava na posse de um trompetista de Nova Orleãs.

Bismark
Sou o Bismark, impôs em tom militar aquele austero general prussiano, perante a indiferença do porteiro do hotel, que maçado lhe respondeu:
– Está bem, Está bem. Eu sou o Bridge, ali ao balcão está o King, e se precisar de alguma coisa do “room service”, basta chamar ali a “bom dia senhorita”. O poker hoje está de folga, mas se quiser uma “sandwich club”, tenho a certeza que o bisca lambida não se importa de fazer uma.
-Insolente – resmungou o prussiano, girando o penacho e marchando sobre o lobbie do hotel.
O porteiro encolheu os ombros e entrecortou – Mais um burro em pé!

Sandocha na Bounty
Primeiro deitou-se o queijo. Logo a folha de alface lhe caiu em cima, com arrogância hierárquica. Foi de pouca dura, já que de maus modos o tomate aterrou de cu sobre a alface verde de raiva. Mas o pior ainda estava para vir, quando o queijo, a alface e o tomate foram sufocados por uma fina fatia de pão de forma. A insurreição acabou esmagada por uma tostadeira Moulinex, mais dada a sevícias do que a sedícias.

Natureza morta
O lago estava cheio de patos e nenúfares. O pintor surrealista que tinha a sensibilidade de um nenúfar não viu ali inspiração para a sua arte, e por isso, preferiu comer um Corneto de chocolate e atirar o papel aos patos.

Leis da Física
Estou a caír de bêbado, pensou Alves Tuna. Levantou-se e foi tocar banjo para a semana académica.

Denim Musk
Rasputine queria a barba bem aparada, mas acabou com ela degolada. Aquela loção de barbear era de facto muito agressiva.

Reforma administrativa
Fartos de uma vida de rotina e de sentido único, os ponteiros da relógio daquela repartição de finanças decidiram inverter o sentido da marcha. A partir daquele dia, os funcionários pegavam às cinco e largavam às nove.
O ministro, que era um zero à esquerda, anunciou no Parlamento que aquela era a primeira grande medida da Reforma Administrativa da Nação.


Pêlo só na venta
O ciclista não fez a depilação e acabou por perder tempo precioso naquele contra-relógio de montanha. A camisola amarela só se veste sem atrito aerodinâmico de perna felpuda, explicou Irene, a pedicure-comentadora para assuntos estéticos daquele canal por cabo de TV.

Despido de amarelo
Onde está a camisola amarela, perguntou o director de equipa. Está-se a vestir, ripostou o roupeiro.

Dali centenário
Salvador Dali nasceu há cem anos. Informou o professor de arte contemporânea.
E ainda está vivo, acrescentou.

O molestador de pianos
O afinador de pianos foi acusado de assediar sexualmente um piano de cauda longa da Orquestra Nacional.
Felizmente o afiandor, que tem uma reputação a defender, arranjou um bom advogado e agora o piano tem de meter a cauda entre as pernas porque está bem fodido. Aliás, duplamente fodido.

Esquimó esquizofrénico
Um esquimó esquizofrénico fechou-se na arca frigorífica, partilhando a prateleira de cima com uma caixa de gelados Olá e com dois salmões congelados.
Vivia atemorizado com o aquecimento global.

A lista de espera

O hipopótamo é hipotérmico e hipocondríaco.

O papa-formigas tem uma rinite alérgica.

O caranguejo é estéril

O garanhão é impotente

O galo tem um galo na crista.

A hiena é histérica.

A lula tem uma tendinite.

A toupeira é estrábica.

O koala é hiper-activo.

O pinguim é hiper-tenso.

O rinoceronte tem dor de corno.

O orangotango-médico, cofiou a cabeça perante a lista de espera daquele centro de saúde veterinária.
– Ainda se tivessem Médis...
- Mastigou enquanto lambia uma banana.

Poligamia com muito gelo

Jeremias era monógamo no que toca a copos. Bebia desde as brumas da memória um Bushmills “on the rocks”. Apesar da monogamia, gostava de “alcunhar” o seu whisky nos diferentes bares onde costumava pairar com a frequência de uma mosca estival.
“É como com as mulheres. Podemos dormir sempre com a mesma, mas se lhe chamarmos nomes diferentes, parece que temos uma aventura extra-matrimonial. É terrivelmente excitante.”
Explicava ao barman Simão, que já lhe conhecia a etimiologia copofónica de fio a pavio.
Assim já sabe, se um dia um cliente lhe pedir algo como:
- Helicóptero com muito gelo.
- Tira-nódoas.
- Xiribi
- Anti-depressivo
- Calmantezinho
- Prozac on the rocks
- Espanta-espíritos
- Badameco com gelo
- Stradivarius para a garganta
- Escorrega
- Mata-borrão
- Escocês voador
- Assobio
- Vai de vela
- Aguinha da boa
- Torpedeiro
- Desembaraço
- Tirol
- Limpa-lábios
- Estatosfera com gelo
- Sindicância
- Indemnização para o fígado
- Facilitador social
- Cambaleio
- Cambalacho com gelo
- D. Juan com gelo
- Um dabliú Bush.
Se alguém lhe fizer um insólito pedido destes, deve servir quatro dedos de Bushmills com 3 pedras de gelo em copo baixo.

4/28/2004

Flatulência no condomínio fechado

Elias entrou perfumadinho e apressado no elevador. Morava no 12º andar. Ao passar o 8º, distraido com as suas coisinhas, soltou um monumental e sonoro peido, devidamente perfumado com um pivete de agoniar alcatifas. Faltavam 8 andares, e Elias entrou em pânico – E se entra um vizinho???!!!!. O elevador moderno pareceu abrandar à velocidade daqueles ascensores do início do século, tamanho era o medo de ser surpreendido em flatulante delito. Iam-lhos caindo ao chão, quando com um sonoro dling, a cabine estancou no 4ª andar, deixando entrar uma vizinha balzaquiana, toda aprumada no seu tailleur e permanente. Lançou a um trémulo Elias um severo – Bom dia ! – a que este gaguejou resposta envergonhada. Escondeu o olhar no aviso da reunião de condóminos, tentando ignorar o pútreo cheirete que inalava em golfadas intensas, como se respirasse o ar do mar sobre uma falésia. De esguelha tentou descortinar na vizinha um esgar de agonia, mas esta manteve uma face de esfinge imperturbável, lançando-lhe apenas um olhar metálico e frio, que no espírito de Elias se constituiu como autêntico libelo acusatório de crime intestinal. Elias corou até à raiz dos cabelos, e escapuliu-se de mansinho, assim que o elevador aterrou no rés-de-chão. A vizinha balzaquiana continuou a viagem até à garagem e entrou no seu Audi A3, sacando de imediato um lencinho Kleenex, assoando-se ruidosamente: - Maldita constipação!
Envergonhado até à morte, Elias passou a utlizar as escadas até ao 12º andar renegando as feijoadas e o grão com bacalhau.

Contos Paragráficos II

Os chatos de Bonaparte
Napoleão desabotou a jaqueta e submergiu a mão nos tufos de pêlo, coçando com virulência a zona supra-umbilical, deslizando a mão militar até aos colhões, que cofiou vigorosamente. Ajeitou as nádegas na garbosa montada e estendendo o olhar pelos verdejantes prados de Waterloo viu a extensão das tropas de Nelson espraiar-se com um certo esplendor na relva.
Com a unhaca grande coçou mais um pouco o testículo de general e vociferou – Que valente camada de chatos! Preparou-se para a batalha.

Átila o Vegetariano
Depois de massacrar os habitantes daquela pacata vila romana, empalando os seus mancebos nas paliçadas a poente, Átila o huno banqueteou-se largamente, jorrando o vinho e costelas de javali à tripa-forra. Depois de violar três donzelas de boa casta, sentiu-se indisposto, vomitando na cama de peles improvisada. A partir daquele momento, a carne agoniava-a de morte, e foi assim que Átila se tornou vegetariano, passando a uma dieta baseada em erva, previamente churrascada pelo bafo de labaredas do seu cavalo.

O amante de 20 anos
Lili esqueceu-se da torneira aberta, enquanto foi atender um telefonema do seu amante de 20 anos. Foi por causa disso que os peixinhos transbordaram do aquário e se espalharam pelo mosaico do chão da cozinha.

Uivo sem resposta
O cão uivou desalmadamente, mas o eco nem se dignou a responder-lhe.

Código verde, sorriso amarelo
Verde, código verde; sorriu forçadamente a menina da caixa registadora daquela loja de artigos inúteis. O homem respirou fundo e decidiu abortar a operação bancária. Havia ali fibra de resistente à sociedade de consumo.

Insónia afónica
De tanto cantar de galo, o galo ficou afónico.
As pessoas puderam assim dormir descansadas.

Contabilidade mórbida
Contavam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que estavam paradas naquele semáforo.
Como estava um frio de rachar, conservei as mãos no bolso e nem as cheguei a contar. É pena, podia ser importante se alguma morresse atropelada por um camião do lixo. A ver se me lembro de comprar umas luvas com pêlo de ovelha por dentro.

Fórmula 1
Apesar de não estar com grandes pressas, o piloto de F1 chegou a horas ao trabalho. Naquele dia o trânsito fluía com naturalidade na Baixa.

Tinturaria celestial
O céu tingiu-se de azul, escreveu o poeta, o que aliás não era invulgar, como bem notou o crítico literário do jornal local.

Poeta de bosta na bota
O poeta estava a olhar os lírios do campo, e distraído pisou uma bosta de vaca que por ali pastava.

O triple seco
Estou seco que nem um Triple Seco.

O sentinela sentido
O sentinela filou dente no cão de guarda, despeitado com a medalha de mérito que o podengo recebera por ter reparado num batalhão de infantaria inimiga que havia montado acampamento junto à paliçada. Felizmente o sentinela não tinha raiva, e o assunto não foi notícia devido à habitual discrição de caserna.

Altar individual
Ambos subiram ao altar, mas só um é que lá chegou.

4/27/2004

Contos Paragráficos

Paragráfico 1

O Diabo bateu-me à porta

O diabo bateu-me à porta. Toc, toc, toc. Tinha um ar gasto e cansado e meteu-me dó. Entrou, convidei-o a sentar-se no sofá. Ele agradeceu timidamente. Preparei-lhe um whisky com gelo e um rum puro para mim. Bebemos lentamente e em silêncio, assistindo às finais do Campeonato do Mundo de Patinagem Artística.


A barata tonta
A barata levou a pata à testa e num suspiro de prima donna: - Ai que me fino! Ziguezagueou no precipíco do aparador da Ti Adelina, desmaiando sobre o paninho de renda. A comoção provocada pela telenovela das 5.00H tinha sido de mais.

O Túnel
Os homens escavavam o túnel. Durante meses, escavaram, escavaram, escavaram. Os olhos foram ficando cada vez mais pequeninos à medida que iam cavando, até que um dia ficaram com as órbitas cavadas no rosto, e nunca mais conseguiram voltar para trás. O túnel continuou sem saída, os homens cegaram, e no solo os autocarros continuavam a atropelar os pombos.





3/16/2004

How to enlarge your penis

Continuo a receber insistentes e-mails de uma miraculosa empresa que me quer "enlarge my penis". Tenho combatido a curiosidade e estou longe de ambicionar querer ter um porte garboso de John Holmes. Preferia receber mails de uma empresa que me dissesse "How to use your penis". Isso sim é que me faz falta.

3/05/2004

Costa, aquele Bar

A notícia com mais Impacto que recebi dos camaradas beirões que não se remeteram a um voto de silêncio (esperemos que não seja extensível à castidade), é que o Costa, finalmente conseguiu trespassar o seu bar.
Mais do que as notícias do “ad eternum” regadio da Cova da Beira (para regar o quê, tremoço mijão, não?); da Beira rachada ao meio que nem uma melancia pela mão talhante de políticos-magarefe; das pompas e circunstâncias de Casino Culturais e Moagens de moer o juízo, ou de cartinhas indignadotas e lampeiras dos nossos edis nos diários nacionais; a única notícia verdadeiramente relevante para o futuro do Fundão e quiçá da humanidade é a "reforma" do Costa.
Tive uma pequena crise nostálgica quando li o “post” do Bruno, prontamente sanada com um H&B com gelo até às orelhas, em tudo idêntico àqueles que o Costa me costumava aviar às dúzias, nos bons velhos tempos do Fundão como terra de tertúlias e copadas valentes, que são dois ângulos do mesmo sorriso.
Na minha modestíssima opinião de emigrante-foragido e eterno forasteiro em terra própria, o Impacto Bar, ou simplesmente o Costa foi um verdadeiro marco da década de 90 na movida fundanense.
Arrepiem-se os putos modernaços, mais dados a "cool hipnoises", ou os cotas "selectos" encostados no balcão inamovível do Alô Alô, ou nas noitadas cada vez mais provincianas e bimbas da "Discoteca", mas o Costa foi durante muito tempo o Bar mais "cool" do Fundão.
Para mim sempre foi a versão mais próxima do "Cheers - Aquele Bar" que se podia encontrar na Cova da Beira. Um misto de bar de cidade do interior com café de tertúlia, despretensioso e simples, onde os ciganos do mercado iam beber o seu copázio durante as segundas-feiras, os putos das escolas bebiam um cafézinho e estendiam as tardes em namoricos a custo quase zero, para desespero do Costa, e depois à noite era invadido por uma fauna diversificada e animada, a dar um colorido diferente às noites do Fundão.

E depois havia o Costa. O mais "odiado" dono de bar do hemisfério Ocidental, com o seu "modus operandi" rezingão, a sua contabilidade feroz e o seu lendário mau feitio, resplandescente na caralhada.
Uma autêntica figura, mas também um bom coração, sempre pronto para um ameno cavaco regado a humor franco e brutamontes que sempre apreciei, enquanto lá me punha a par das últimas do Fundão, embalado pelos whisky troubles que me servia com a familiaridade de quem acolhe os "seus".
O que eu mais gostava no bar do Costa, por incrível que pareça, era mesmo o Costa.
O Costa e a judiciosa e tranquila Judite, na sombra, a zelar pela casa amiga.
A eles que sempre me abriram a porta em noites de "nevoeiro", ficarei sempre grato pelos bons momentos que ali passei, e pelos bons amigos que ali cultivei e reguei abundantemente com grandes maratonas de bom paleio e whisky de qualidade titubeante.
Para sempre gravadas na memória dos afectos, que é aquele que dura mais tempo, a saborosa sensação de chegar ao Fundão e "ir dar à Costa do Costa". Ali encontrava o Tall e o Vasco naquela primeira mesa, estilo primeiro balcão, em pose altaneira a guardar o mundo dos meros mortais, oTall DJ a passar música, da melhor que foi soando publicamente em vários anos de "top`s bimbos" que dominam o espectro musical beirão.
Boas memórias das grandes tertúlias com o Ricardo, o Vasco, o Tall, o Espanhol, o Salvatori, o Paulo e as "borboletas" Souto e Bruno, e tantos outros “habitués”. As discussões inflamadas pelo álcool sobre a globalização, a política, a literatura e sobretudo do futebol com o camarada Vasco e com o Ricardo são para mim momentos épicos das noites fundanenses, que depois transportávamos em euforias trôpegas para o English.
O Costa é também o local onde descobri o inconformismo e a criatividade do Zina e da sua deliciosa pandilha - com o Pimentinha e o Bentinho. Onde confidenciei pequenas vitórias, grandes derrotas, e ironias amigas com o Bigi-Bigi, meu amor-ódio de estimação, quando o whisky era invariavelmente arrasado pelos Ice-teas de manga.
Depois eram as matraquilhadas, as setas e até as máquinas de jogos; o Costa era também local de encontro invariável para as futeboladas estivais de meio de tarde. Era o Costa festivo e cheio do Natal e da Páscoa, onde todos nos reencontrávamos, onde a Sónia e o Zé Pedro, e a Patri e o Jaques namoravam, onde o João Ferreira encostava a barriguinha ao balcão e aviava copos com galhardia, onde o Lipe chegava sempre a rir com aquele ar de estrela pop-decadente, onde a Mariana e as amigas enchiam o bar de graciosidade e boa disposição.
Era também o Costa da mais longa e eterna esplanada das noites de Verão, cujas noitadas se prolongavam para lá dos limites camarários. A esplanada paredes-meias com a Sodo Mar, nome da loja de congelados que servia de pretexto para mil e uma graçolas Sado-masoquistas.
É no Costa que guardo a cara bonita e inconformada do Carvalho e do seu "happening", desfolhando as letras de Lou Reed ao som de "It´s a Perfect Day". E foi, um dos muitos “perfect days” e “glorious night`s” que passei no Costa.
Enfim era o Costa que dava ao Fundão um verdadeiro centro cívico, esplanada de cumplicidades, bar de confidências e alegrias, e também das pasmacentas tardes de Verão que se estendiam mansas e inúteis ao zunido das moscas.
Foi tudo isso que fechou quando o Costa trespassou o bar.
Resta saber se foi só o Costa que fechou, ou se foi um capítulo nas nossas vidas?
Como sou um optimista encartado acho que o melhor é pensarmos já em "abrir" outro capítulo, ou seja outro "Costa".

Bem haja Costa, aqueles que vão beber para outra freguesia, saúdam-te


PS: se alguém puder fazer chegar isto ao Costa, agradecia.

1/27/2004

Estrebaria democrática

O Ministro Tossiu
O Povo, esse nem Mugiu.

Fábula entalada de La Fontaine

Apesar da certidão de óbito garantir que La Fontaine morreu de morte natural, após exaustiva autópsia carimbada pelo Prof. Pinto da Costa do Instituto de Medicina Legal, o literato Galarza continuava a desconfiar de uma morte macaca. Escreveu uma tese de doutoramento que lhe valeu uma menção honrosa no Fantasporto em que, após apurados estudos tubercológicos, estava em condições de efabular a verdadeira causa da morte do fabuloso fabulista francês.
Segundo Galarza, (não confundir com Jagunço Galarça, o célebre braço direito de Odorico Paraguaçu, na telenovela com o mesmo nome), La Fontaine morreu de asfixia, com uma Fábula entalada na garganta.
No dia seguinte aó anúncio desta fantástica descoberta, a Cigarra ao ler a notícia no Blitz, não foi capaz de disfarçar um malicioso sorriso, acompanhado de um quase imperceptível - É bem feito!

Telecinética útil

Nunca achei que fosse muito telegénico ou fotogénico e então decidi dedicar-me ao estudo da telecinética. Comprei alguns livros aos quadradinhos que versavam sobre o assunto (o Superpateta é uma autoridade na matéria) e fiz um curso rápido na Internet.
Depois comecei a aplicar os meus conhecimentos e dobrei as colheres de prata do serviço de chá da minha Tia Palmira.
Só com a força da mente, e sem saír do meu sofá e largar o comando da televisão, comecei a dobrar maçanetas, a fazer voar as molduras com fotografias de antepassados que eu nem sequer conhecia, e até consegui estilhaçar em mil cacos o daolmata de louça que me saíra em rifa no último jantar de Natal lá da repartição.
Tendo já o dom domesticado, decidi começar a usá-lo para o bem, em vez de o desperdiçar em telecinéticas inúteis, como dobrar merdas de latão.
A partir de então, passei a abrir a porta do frigorífico e a fazer voar os cubos de gelo para dentro do meu copo, onde antes aterrara uma dose generosa de rum.
Desde que domino a técnica de dobrar objectos nunca, mas nunca mais me faltou o gelo no copo ou me dobrei na presença da autoridade (ou da falta dela), até porque raramente me movo do sofá, tudo o que eu preciso se passou a deslocar até mim.
Este egocentrismo não me impede de uma cidadania activa, e por isso madei um SMS para o Canal SMS da TV Cabo, escrevendo o seguinte e profundo pensamento: "Gelo à farta é sinónimo de uma sociedade avançada. Gelo à míngua é a metáfora de uma sociedade incapaz, feita de barmens incompetentes". É este o meu contributo para o progresso da Humanidade e a melhor forma que encontrei de tornar a telecinética útil.

E tudo o Bento levou

O Bento palitava os dentes, enquanto o Marquês cofiava o longo hirsuto bigode, apresentando sinais de evidente nervosismo, à medida que ia derretendo as résteas da fortuna de família nas mesas de jogo do Casino da Figueira.
O Marquês era de Estarreja, o Bento nem por isso.
Não foi portanto uma questão heráldica que levou o Bento à fortuna, arrebanhando toda a mesa de black jack do Casino figueirense. Com o dinheiro do "saque" o Bento tem hoje uma marisqueira em parte incerta e em homenagem ao seu benfeitor, chamou-lhe "Bento, o Marquês dos Mariscos". O Marquês, esse trocou a gula do caviar e do champagne, pelo sabor mijão do tremoço e do tinto carrascão. É esta a história de tudo o Bento levou e do Marquês do Tremoço, que escutei no outro dia do taberneiro da adega dos Passarinhos no Cais do Sodré, enquanto aviava um branquinho e esperava pelo combóio para a Cruz que Brada.

Flagrante delitro

O Marketing teve uma ideia (finalmente)
O Director-Geral aplaudiu. E foi assim que passou à linha de produção a cerveja "Flagrante" em garrafa de litro. O slogan publicitário de lançamento era "Flagrante delitro" e o spot publicitário mostrava uma bela ariana de cronologia balzaquiana numa Sala Déco gorgolejando litradas de cerveja com um escultural afro-americano de um ébano perfeto na pele. Entregavam-se a jogos de amor e bebiam cerveja pela garrafa quando são surpreendidos pelo marido cornudo e engravatado (não necessariamente por esta ordem). O slogan final mostrava a garrafa "Flagrante delitro", ideal para amar - e mostrava depois o marido cornudo a embebedar-se numa tasca, com uma voz off dizendo - ou para esquecer.
Foi assim que nasceu a cerveja Flagrante de litro, um sucesso de vendas para azar da pevide que é mais amázia do tinto do que da levedura.
Uma pevide fodida e na penúria a bem da prosperidade do tremoço.

Nádegas ancestrais

Era uma longa tradição familiar que corria de geração em geração na nobre casa dos Almeida.
Já desde a época da restauração dos Almeida, que os patriarcas passavam os ensinamentos e a apurada técnica para os seus rebentos varonis. E, sempre assim foi, em gerações que se esfumam nas brumas da memória.
Manda a tradição que na nobre casa dos Almeida, o varão imberbe se inicie nas lides aristocráticas de gentil-homem passando a mão pelo pandeiro perfumado das desprevenidas criaditas, para poder então estar apto a iniciar-se na mais exigente e perigosa lide de beliscar com ardor juvenil as abundantes nádegas da sopeira.
A apurada técnica da beliscadela passou de geração em geração até que um dia , uma sopeira de Mirandela, já mulher entradota e expedita na farpola e sabichona de cátedra dos segredos da flatulência, se decidiu peidar respeitosamente para o velho Conde Almeida, o último varão da nobre estirpe.
À mínima beliscadela a sopeira de Mirandela soprava um sonoro peidola cujos aromas afastavam rapidamente o Conde de Almeida e o impediam outros ímpetos que o seu murcho instrumento varonil, por vezes ainda ordenava.
Beliscadela era bufa certa, e este invulgar reflexo condicionado levou o Conde de Almeida a escrever um tratado sobre a flatulência, intintulado "A peida da sopeira, ladra como o cão do Pavlov".
A sopeira que era analfabeta, mas não era bruta, pediu ao sacristão para lhe escrever uma carta a título póstumo, graça que o moço sacristão lhe concedeu a troco da realização de um tara própria dos cordeiros entesoados da Apostólica Romana - papar as hóstias nas pantagruélicas tetas da sopeira. A carta, que ficou célebre nos meios aristocráticos e eclesiásticos de Trás-os-Montes, e lavrava em título os seguintes dizeres: "Vá tomar no cú, ó conde". O cão do Pavlov não foi tido nem achado no assunto, mas a partir daí é possível encontrar muito rafeiro para lá do Marão, que responde à voz do dono por Pavlov. Em Mirandela, as gentes mais antigas também adquiriram o hábito de usar como sinónimo de peido, traque, farpola ou bufa - a expressão - que ganda Pavov, a feijoada caíu-te na fraqueza.
No nobre solar dos Almeida, o 25 de Abril e a morte do Conde veio pôr cobro à egrégia tradição da beliscadela como iniciação nos prazeres da carne. O solar apalaçado foi reconstituido em Turismo de Habitação para velhas alemãs que no Verão ali vão para a beira da piscina fazer topless, untar-se de cremes e fazer olhinhos ao imberbe jardineiro. Ai que saudades da aristocracia!

Higiene oral e pensamentos ociosos

"Estou demasiado ocupado em nada fazer."

"O mérito dos poetas é morrerm novos e deixarem obra curta."

"Só há coisa pior do que a má poesia, que é poesia nenhuma."

"Na vida é obrigatório desrespeitar os sentidos obrigatórios."

"Quando me deito desacompanhado, normalmente acordo sózinho. Por vezes, acontece-me o mesmo quando me deito acompanhado."

"A mentira faz todo o sentido, desde que acreditemos nela"

"O americano suave não é um penso higiénico, porque não pensa e raramente é higiénico."

"Não me importava de ser cão, para em vez de ladrar passar a morder."

Parece uma música do Vitor Espadinha, mas afinal é um retrato do Dorian Gray

Olhei para o espelho côncavo e desconexo da Feira Popular e imaginem só quem encontrei!!?? Um retrato do Dorian Gray. Corria o dia sete de setembro, e foi em setembro que o reconheci. Perguntei-lhe - Dorian tu por aqui? Uma voz sibilina e meio afectada, no melhor estilo dandi sussurrou - shiiu, não contes nada a ninguém. - Eu que tenho o sentido de descrição de uma pedicure, não resisti.

Poesia a dias

Contratei uma poesia a dias
vai lá a casa às quartas e sextas
vai sempre a hora incerta e aborrece-me
tanto

Por vezes estou a dormir
e ela acorda-me com o som estrindente
do aspirador

Passa horas a limpar o pó das estantes,
a desarrumar-me as revistas
pornográficas
e a desordenar os tratados satânicos
os bibelots messiânicos
que uma tia minha me trouxe
da Mesopotâmia

faz todo o labor
do espanador
com um certo langor
e devagar ... exasperadamente devagar

Gosto da estante desarrumada
e de ver as minhas impressões digitais
no pó
das lombadas das revistas
e das manchas de molho
nas capas das pin-ups

Por isso arranjei maneira de me livrar da poesia
a dias
Um dia, apontei-lhe o aspirador aos miolos
ela fitou-me aterrada

e depois aspirei-a toda
para o estômago voraz
do Ariston de última geração
que uma tia minha
tinha comprado numa promoção

Voltei a ter paz
pó na estante
e impressões digitais
nas lombadas das revistas
pornográficas

E nunca, nunca mais vou ter
uma poesia a dias
a não ser que seja tão bem feita
como a da capa da Playboy

O efémero da foto-novela bloguística

A história de um molestador de ovelhas é uma verborreia prevertida e efémera. A iconoclastia é sacra, mas exala um último espírito, como um defunto manco da extrema unção. Por isso vou deixar esta história a apodrecer aqui em baixo até sobrarem somente as palavras, que mais não eram que leituras delirantes das imagens que lentamente se vão esfumando. Uma a uma, todas as imagens a que a história estava linkada vão esfumar-se num esquecimento vago e plúmbeo. Depois das exéquias fúnebres apenas remanesceram um conjunto de frases desconexas, desarticuladas do imaginário e sem sentido. Tal e qual como eu gosto, uma palavreado nonsense e provocatório, mas completamente desprovido de sentido.
O efémero é assim o melhor cicatrizante da arte falhada.

1/20/2004

O pastor das almas e o molestador de ovelhas

Agnes vivia em castidade, como todas as lanas caprinas daquele rebanho. Pastava toda a semana e ia à Missa aos Domingos, como toda a ovelhinha temente a um Deus cabrão.


Agnes e as ovelhinhas beatas nunca se tresmalhavam

Para a missa domingueira Agnes vestia a sua melhor lãzinha e corava sempre de vergonha, quando o Bode Tusas lhe lançava um olhar mais libidinoso na Igreja.


Agnes era muito devota a um Deus cabrão e ia à missa todos os Domingos

O Jones, dono da Agnes, havia já combinado com o Smith, que o Bode Tusas seria o macho encarregue da cobrição de Agnes.
Por isso pode dizer-se que o Bode Tusas era uma espécie de noivo de Agnes.


Smith e Jones depois de beberem umas Heineken e combinarem o arranjinho para o Bode Tusas

Nesse dia, ao voltar da missa, a jovem e pura Agnes tresmalhou-se do rebanho e vagueou perdida por montes e vales, como numa pintura bucólica de um pintor falhado-flamengo do séc. XVII.


A Agnes perdida num quadro de um pintor flamengo bêbado

Subitamente, Agnes teve uma visão do Deus Cabrão, que lhe prometia a salvação, e lhe indicava a via sacra para um colégio muito pio destinado a pequenas ovelhas tresmalhadas. Era para lá que a ovelhinha queria ir, para o Céu das Ovelhinhas.


Good sheeps go to heaven, bad sheeps go to Hell

À boleia na estrada, como qualquer ovelha vadia, Agnes estava sujeita às cabriolices e tentações do Diabo. E o pior aconteceu mesmo, sob a forma de um lobo mau disfarçado de Rabi, que prontamente lhe ofereceu boleia de moto para o Colégio Muito Pio. Afinal o rabi disfarçado, era na verdade Big Joe, conhecido molestador de ovelhas, sempre que emborcava uns whiskys acima da conta.
A incrédula e pobre Agnes aceitou a boleia, sem saber o que a esperava.


Big Joe, o conhecido molestador de ovelhas, disfarçado de Rabi, dá uma boleia a Agnes na sua Famel Zundap

Entretanto, a avô de Agnes costurava preocupações, e o enteseoado Bode Tusas percorria os prados em busca da sua noiva prometida, mas nunca consumada.


A avó de Agnes consumia-se com o atraso da neta enquanto costurava uma meias de lã para o rabi e assistia ao Goucha na TVI


O Bode Tusas vagueava pelos prados bradando - se o apanho, fodo o cabrão que me fez a folha à febra

Entretanto perto do Colégio Pio, Agnes era violentamente sodomizada por Big Joe, que sob o efeito do álcool era provavelmente o mais temido molestador de ovelhas de toda a Austrália (país onde sodomizar ovelhas é o segundo desporto nacional, a seguir a beber cerveja e falar mal dos ingleses)


Agnes perde os três com Big Joe, se fosse universitária havia três probabilidades em quatro de não ter sexo forçado
Sózinha no mundo, magoada e ainda um pouco atarantada depois da sua primeira experiência sexual forçada (em Portugal só uma em cada quatro universitárias têm relações sexuais forçadas), Agnes rumou à grande cidade, pronta a entregar-se a uma vida de vício.


Agnes chega à grande cidade, como uma ovelha campónia pronta a entrar no grande talho
Na grande cidade arranjou logo más-companhias com Pig Alexander e su banda, famosos dealers de reaggae night`s e convictos fumadores de grandes charutos de ervanária. Agnes entrou rapidamente no mundo da droga e no estábulo de Pig Alexander, o mais cool da banda reagge.


Pig Alexander e su banda - don´t eat the grass, just smoke it - foram os primeiros amigos de Agnes na Big City.
Rapidamente, Agnes percebeu que as marradinhas de Pig Alexander, não eram marradinhas de amor. Então para pagar a erva lá de casa, Alexander fez-se proxeneta de Agnes, e esta coitada, virou puta.


Agnes a ovelhinha temente a Deus, iniciou-se no ramo do comércio de carne
Agnes passou assim a alugar a sua carne tenrinha e a prestar todo o tipo de favores sexuais aos mais variados espécies. Foi puta de rua, estrela-porno e era muitas vezes convidada por fétichistas endinheirados, para grandes orgias sado-masoquistas.


Agnes passou a ser muito requisitada para orgias sado-masoch, onde os seus balidos eram muito apreciados

Farta do comércio de carne, Agnes entregou-se a outro tipo de prostituição intelectual, e iniciou-se no jornalismo de escândalos sexuais "24 Horas", onde o seu estilo era muito apreciado pelo vasto conhecimento da braguilha dos notáveis da cidade. Um dia entrevistou um tosquiador chamado Ron que era amante de uma embaixatriz, e rapidamente se apaixonou por ele, inciando aí uma tórrida relação.


Agnes a ovelha putinha rapidamente se tornou uma das jornalistas estrelas do 24 Horas

Mas o caso com Ron foi tosquia de pouca dura, e tiveram de se separar numa noite de luar, porque Ron tinha arranjado emprego num talho. Agnes conhecer um molestador de ovelhas, um proxeneta, fétichistas e sado-masoquistas, e ainda um amor de homem (sheep lover). Mas amor a sério não há como o primeiro ...


Moonlight and sheep lovers - Mas o que é feito do Bode Tusas
Depois de ter procurado Agnes por todas as pastagens, em desespero e em sobrecarga de testosterona, o Bode Tusas entrou num Mosteiro Budista e fez um voto de castidade para ver a luz. Como não tinha dinheiro para pagar nem as propinas, nem a conta da electricidade, o Bode Tusas foi trabalhar para uma loja de candeeiros.


Com o desgosto, o Bode Tusas virou candeeiro

Enquanto isso, Big Joe abandonara o disfarce de Rabi depois de um acidente com a sua Kawasaki e tinha aderido ao Movimento Punk de Manchester.
Continuava, no entanto a ser o mais Terrível Molestador de Ovelhas de todo o Hemisfério Sul. Sempre que bebia uns copos a mais, era certo e sabido que ficava mortinho por ir ao pacote de uma ovelhinha tenrinha.


Big Joe, o molestador de ovelhas, continuava a gostar delas tenrinhas, de preferência com a primeira comunhão feita, que pedófilo é que ele não era - Dá demasiada exposição mediática - explicava ele numa entrevista exclusiva dada à delegação do Algarve do "24 Horas".

1/09/2004

Orquestra de finados

O maestro morreu
e a banda não passou

A diva comovida
perdeu a voz,
os violinos carpideiros
perderam os sentidos
de tom grave o violoncelo
voltou para Viana do Castelo

O clarinete meteu baixa psicológica
O piano meteu a cauda entre as pernas
O oboé ficou feito em puré
E todos os instrumentos calaram
Quando a batuta estacionou

Na noite em que o maestro morreu
A música perdeu o som
As damas, o brilho das jóias
Os cavalheiros, o aroma de charuto nos paletós
E até o tenor metia dó
...menor

Apenas o compositor esfregava as mãos em allegro vivace
Na noite em que o maestro não desafinou

Melomaniacamente

V7

Puta que pariu o Fado !

O fado

Ou ...

Sinto um Vazio
Que me carrega
como um Escravo
de fardos,
ou de cardos

O peso da tua Ausência,
contrai o meu estômago
em espasmos de Dor.
Sofro em Silêncio,
na Sombra dos olhares dos outros
buscando o Aroma doce do teu Olhar
O Amor fugitivo escapa-se,
Com os ventos furtivos das Tardes
Revolvo o meu Âmago com ânsias,
cansaços, e cacos de memórias
Que sem ti são amnésias

O teu hálito quente desprende-se de vez da minha pele
Começamos um Romance com a vela a meio
Da Chama sobram as cinzas
E a cera que me marca as mãos
Como a Memória que se apaga
Do nosso Amor
E a glória da minha profunda Dor

Sofro em Silêncio
Mas nas quatro paredes do Meu Ser
Soam Ecos terríveis
de prisioneiros torturados,
de Sonhos flagelados,

Suspiro só
Com olhos colados nas gotas de chuva
Que serpenteiam na janela,
Com a mesma graça com serpenteava
meus dedos, nos anéis dos teus cabelos

As Lágrimas que jorram pelo meu rosto
São de Fel.
São lágrimas acres que queimam
As gotas da chuva e as Lágrimas
misturam-se num Cálice que bebo
Amargo
Como amargas são as laranjas,
Que descasco para ti, Amor,
pela Manhã

As laranjas já não são doces,
São amargas e mirradas,
As Tardes são de trevas
E as Noites de terror imaginário
Deito-me de Luz apagada,
Acordo de luz apagada

A Melancolia invade os meus dias Tristes,
Como uma epidemia Fatal
Perco-me na tua Ausência,
e alimento-me da Solidão e de laranjas amargas.

Da vida só espero a Morte,
desesperadamente e sem esperança
Porque para morrer era preciso estar vivo.
Sem ti, não estou.

ou
.... Como produzir um chorrilho de banalidades e ter o descaramento de lhe chamar Poesia.


hi, hi, hi

Despudoradamente
V7

Jotaria de Natal

Jotaria Prodigiosa

Um Jumento em JeJum
Um Jurado enJaulado
Um Jarro de sangria,
para beber à tardinha
num Jardim perfumado de Jasmins

Jota

Uma Jóia de gelo
no mindinho da Júlia Florista,
que Já vivia amancebada
com um sapo-masoquista

Jota

Um Jacobino fechado num Jerrican
Um Jesuíta nas goelas da Jibóia
Um Juíz com o dedo no nariz
Uma Jugular a Jorrar
Um Japonês a Jogar
Um Jarreta asfixiado com a corneta

Jota

Hoje é dia de Pascoal,
Bacalhau com Natas
Enquanto o Jumento pardacento
Pobre asno,
Continua a JeJuar.
Este burro Já merecia um toucinho do Céu
Ou uma cama de palha
na Palhavã
A palha é vã ?
Je ne Sais Pas.

Jota Bê, com muito

Jelo

Mar Morto

Quando me ponho a ver o mar
correm-me lágrimas salgadas pela face

As conchas
sensibilizadas,
fecham-se,
o mar comovido,
cala-se e maruja de mansinho
as ondas,
respondem ao recolher
obrigatório
a areia,
fica impávida e serena (como sempre)
as gaivotas
fingem que são estátuas de sal

o que me vale é a estrela do mar
que apesar de quieta,
continua a mexer

O mar é bom para os peixes
e para um gajo se afogar.
Se morrer é preciso
navegar não é preciso

É por isso que sou alérgico à maresia,

À poesia maruja,
prefiro mil vezes
a intruja
a sabuja
a suja.

V7