Arranjo floral
Gostava de ser um alecrim
aos molhos sem fim
Ou um lírio
Quebrado desde o início.
Naufrágio na garrafinha em bar aberto à navegação
Gostava de ser um alecrim
aos molhos sem fim
Ou um lírio
Quebrado desde o início.
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Rui Pelejão
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20:05
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No dia em que engoli o fogo
Soprei bolas de sabão Clarim
No dia em que bebi o mar
Arrotei a postas de nada
No dia em que devorei o ar
Escutei gritos de querubins em queda livre
No dia em que fiz amor com a terra
Senti musgo a florescer no meu ventre
E miosótis prosperando na carne podre
E depois adormeci à sombra do vulcão
Com uma garrafa de whisky na mão
Com o pranto choroso das pedras de gelo
Que se desfaziam em cubos de lágrimas
Para o copo que jazia vazio
Num velório das sombras mortas,do
Fogo, da água, do ar e da terra.
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Rui Pelejão
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20:04
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Uma dália negra, ondulava, submissa aos caprichos do vento
Um Bentley buzinava cóleras a mando de um chauffer Ferrero Rocher
Um cubo de gelo derretia, sob o calor tórrido de um whiskey
Um piano teclava ordeiro, a toque de pauta
Um rio corria certeiro, evitando os esgares das serras
Um candeeiro alumiava, rendendo a noite dos dias
Uma pétala esmorecia num túmulo de cristal
Uma gota de vinho que esvaia pela talha vazia
Um anão, com uma trela pelo cão
Um castelo de cartas, cercado de jokers
Um espelho pavloviano, sem reflexo condicionado
Um projéctil sem rumo, nem destino traçado
Um minuto sem segundos
Um dia sem horas
Um cacto sem picos
Um noves fora nada
Um silêncio sonoro
Uma vela crua de lágrimas de cera
Um sorriso sem graça
Uma colher sem açucar
Um lento e lânguido passar pela vida,
sem deixar pegadas na areia
A morrer vagarosamente, por nada...(suster a respiração)
De nada ...
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Rui Pelejão
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20:02
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A minha poesia é feia
Cheira mal dos pés
Arrota nos autocarros
Tem dentes amarelecidos
Diz coisas inconvenientes
A minha poesia:
Não se perfuma,
Raramente toma banho,
Abomina o belo
E os sentimentos nobres
E a melão cólica contemplação do umbigo
Falando de umbigo
A única propriedade poética que lhe descortino
é o cotão
E a capacidade de uma pívia
Não se esvair toda na mão
Do amor a sós
Faço uma punheta corneteira
Do vago andarilhar de uma santola
O frenético esgalhar de uma sarapitola
De uma lágrima furtiva
A gargalhada estridente e artola
A minha poesia:
Não se dobra em genuflexões,
Perante o aroma de uma flor
Antes aspira em furor o pó branco
Que se estende submisso na alvura do autoclismo
Quando se põe de cócoras
É para cagar no malmequer
que estende as pálpebras
tolhidas pela overdose de clorofila
Em vez do nariz aquilino
Escarafuncho o belo e reluzente macaco
Ao invés dos olhos límpidos e cristalinos
O baço e escarlate do whisky
Em vez da solidão atroz
A cagadela do albatroz
A minha poesia
Passeia de mãos inábeis nos bolsos
E olhar sevandija
Plantado nos bustos das mulheres que passam
A minha poesia é puta e putanheira
É feia, é feia!
é versejar na merda
é chafurdar na lixeira
é escatológica sem lógica
é lírica de lírios murchos
pela água azeda
que nos vem à boca
sempre que humedecemos os lábios
com o acre das vísceras
que nos revolvem em mágoas
A minha poesia acha que o pior do mundo são as crianças
Porque um dia das crianças
Se farão homens e mulheres
Porque do riso inocente do pequeno rinoceronte
Se farão sombras aritméticas de cálculos frios
E vozes mortiças
Mortinhas, por nos foderem
com o voluptuoso vagar da aranha
A minha poesia não vangloria os vagabundos
Detesta a sua liberdade de cheirar mal
E o exercício do direito de recusa fundamental
A minha poesia sabe que o fogo queima
Que a água molha
Que o ar asfixia
Que a terra enterra
Que o céu é o destino odioso
Do nosso olhar impotente
E o mar
Uma perene possibilidade de afogamento
E os passarinhos
Uns pequenos produtores de ácida merda
Que nos nimbam os pára-brisas das tardes
E o amor é falta de sexo
E a falta de sexo faz borbulhas
Portanto o amor faz borbulhas
Que rebentam para dentro
Como pus negra
Que nos enluta e cobre de véus negros
As nossas noites brancas
A minha poesia é um pelotão de fuzilamento
De baioneta afiada para a última estocada
É alojar um projéctil na cabeça do mundo
Vê-lo tombar no esterco que cultivou
Vê-lo decompor-se para sempre
A minha poesia é não esperar
É não ter esperança
Que um dia a merda cheire bem
E que do estertor nasça uma flor
A minha poesia é a impossibilidade da dor
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Rui Pelejão
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Da grafonola...com amor
Subitamente, a grafonola estrepidou num arranhar de vinil antigo, saltitando entre os agudos de uma voz lamuriosa que se afogava lentamente num Mississipi em cheia transbordante de bourbon mal destilado do suor a gotas de sangue negro.
Um blues. Um genuíno blues - lacrimejante e estóico rythm&blues em dueto de voz pastosa a harmónica. Voz forjada no gospel de Praise the Lord de matiné vibrando das cordas vocais lubrificadas pelo bourbon, embutido em goladas sôfregas na antecipação ao chicote e à corda que baloiça no salgueiro, ensaiado em jeito predador o nó de enlace no pescoço trémulo e nodoso.
Um lento embalar de pás do Mississipi Queen, a barcarola melodiosa do Poker de 5 ases de mão, manga e derradeira Derringer tira-teimas.
A pianola desafinada e charuto mastigado.
A grafonola que desperta de uma hibernação empoeirada pelo esquecimento, num aroma de pólvora gasta em corpos tombados com orifícios largos do calibre da bala do Colt 45.
Memórias de Baton Rouge, Bataclan e folhos das saias coloridas, perfumadas pelo aroma do desejo bruto e carnal com manchas de champagne seco.
Ao esturgir em blues velho e saudoso ou valsa harmónica de genealogia austríaca-decadente, a grafonola não disfarça um tom de melancolia nostálgica, com a recordação dos dias felizes, das festas e melodias antigas, dos flirts do jovem e emplumado tenente de cavalaria e duquesa carente de sabre de cavalaria, solidamente casada com banqueiro impotente, pelo menos para satisfazer os apetites vulcânicos de vulva balzaquiana.
Enfim the good old days, a que a grafonola emprestou brilho, orquestra e alma, sem nunca pronunciar um queixume, um esgar aborrecido ou reivindicativo silêncio.
De agulha pronta para o serviço de sulcar as fendas do vinil em extracção do minério sonoro, escavando ritmos, swingando no prato dos desejos, modas e je ne sais quois de estúpida futilidade mundana.
Estava a grafonola absorta no seu rendilhado de recordações, quando as mãos felpudas e duras de ouvido do funcionário da empresa de mudanças a calou abruptamente.
A velha grafonola foi deposta do seu altar sombrio do sotão da casa da bisavó Maggie - Lady Marguerite Ducroix, terceira duquesa de Louisville, que viveu até aos 98 anos, enterrando três maridos - o primeiro um banqueiro que lhe garantiu fortuna, emprestou nome e status, mas lhe deixou o leito vazio e seco.
O segundo marido, um garboso tenente de sabre em riste, galanteador e bem dançante, que lhe derreteu fortuna nos casinos flutuantes e nas coquettes francesas, mas que lhe sustentou os caprichos da carne adormecida e da volúpia mal contida nos espartilhos apertados nos seios da mulher de trinta anos.
Uma paixão intempestiva e fugaz, cujo único sobrevivente à laia de testemunho, foi o filho gerado em bastardia de feno de cavalariça, precisamente um ano antes do jovem tenente se libertar das algemas do matrimónio, definitivamente, numa rixa de jogo, cujo derradeiro bluff foi desmascarado com três punhaladas cravadas no coração fogoso do oitavo de cavalaria, que relinchou num sombrio sorriso mortal.
A bisavó Maggie nunca mais rompeu os grilhões daquela paixão nefasta, cuja memória a ostracizou numa existência despojada de moral e afecto, impelindo-a para uma vida libertina, errante entre postíbulos de portos imundo e lençóis conspurcados de mineiros grosseiros e ávidos de ouro e amor, ou de baleeiros vorazes, de arpoadas na carne tenra e indiferente de uma mulher que se entregava em habeas corpus, como um sacrifício num altar de esperma e vazio.
Assim viveu Lady Ducroix numa deambulação pecaminosa até que um Pregador Evangelista, a soldo do Senhor, a resgatou das garras de Jezebel, para a tornar esposa devota e beata, perfilhando-lhe Thomas, o rebento bastardo e bravio, que entretanto crescera e se enrobustecera como uma hera selvagem que trepa pelos alvos muros da vida - indomável e dispersiva - e calcorreara mundo, fundara numerosa prol da qual descendo.
A grafonola, essa, acompanhou a saga da família Ducroix e foi companhia fiel da bisavó Maggie até aos últimos dias da sua vida, em que se embalava mornamente na velha cadeira de balouço, de olhos semi - cerrados pelo punho dócil do sol que atravessava as pálidas frestas da persiana.
É assim que me recordo da bisavó Maggie, de face esquálida e sulcada pelos vincos da vida amarga, balouçando-se na sua velha palhinhas com a mesma graça com que valseava corações de jovens tenentes.
Escutava horas a fio os seus velhos discos de blues, valsas austríacas, música cajun e melodias sacras, sopradas em canto gregoriano, numa interessante mescla de estilos ecuménicos.
Foi ali que soprou o derradeiro sorriso enlevado, embalada no sono eterno pela flauta mágica de Mozart.
Como dizia com bonomínia o avô Thomas, uma família é um conjunto de indivíduos unidos por laços de sangue e divididos por questões de dinheiro.
Foi essa a má sorte da grafonola, que calhou em lotaria de partilha ao meu tio James Ducroix, um estouvado lunático que coleccionava borboletas e se enfrascava como larva sedenta em jarras de whisky, e que se apressou a desfazer-se da grafonola que trocou por um tabuleiro de borboletas afegãs crucificadas em bailado estático de natureza morta.
A tarde das facas longas da reunião familiar para as partilhas foi a última vez que vi a grafonola, carregada com corpulenta indiferença no colo do empregado da empresa de mudanças.
Ainda hoje, quando olho para a minha aparelhagem de alta fidelidade Pionner, com colunas dolby surround soprando um som certinho e normalizado, me recordo da titubeante e caprichosa grafonola, cuja lealdade a duas gerações Ducroix foi recompensada com um exílio forçado no saguão de um antiquário, partilhando recônditos aposentos com outros despojos familiares como o canapé esburacado, o toucador empoeirado e a velha gaiola de traça gótica de pássaros de boas famílias, que passavam as longas tardes da eternidade a jogar dominó do esquecimento e sussurrando múltiplas escleroses e memórias difusas dos dias felizes.
Mortificado com a mesma culpa dulcificada com que despejamos os nosso decrépitos entes queridos em lares blindados ao remorso, verdadeiras ante-câmaras da morte, onde cortamos os laços umbilicais em visitas cada vez mais sazonais.
Assim recordo a velha grafonola. Com arrependimento amorfo que jurei não repetir com a minha aparelhagem de alta fidelidade, a quem faço diariamente juras de fidelidade eterna.
Quando eu morrer, batam em latas, enterrem-me com a minha inseparável Pioneer, uma caixa de garrafas de vodka Moskowskaia e a colecção completa de CD`s do Sinatra.
Vamos fazer uma festança, eu e as minhocas, contorcendo-se de prazer enquanto se banqueteiam lentamente com a minha carne podre em molho de Vodka.
A Pioneer, essa, cantando a plenos pulmões – Strangers in the night!
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Rui Pelejão
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Baronesa em Brasa
Era uma baronesa de verdade.
Passavea-se de Bentley, conduzido por chauffer vestido a preceito, com chapéu da banda larga e luva branca, que ora e quando lhe saltava para o banco traseiro desfazendo-lhe o Ferrero Rocher entre as nádegas rosadas.
Tinha um caniche lãnzudo, uma colecção de chapéus que davam para 100 anos de corridas de Ascott e sapatos a perder de pé. Quase tantos como os que enfeitavam as unhas envernizadas e bafientas de Imelda Marcos.
Era uma baronesa austro-búlgara ou coisa que o valha.
Toda chique e chiclete. Antes de ser baronesa, foi putéfia de alterne em Praga.
Depois casou com um Tu Barão e logo se fez baronesa. Tinha amantes baronetes que lhe massajavam a púbis com as aristocráticas e viperinas línguas, e jardineiros que lhe regavam a vulva com longas e auríferas mangueiras.
Era uma baronesa das de verdade, Von Tripps para a "Caras", Mimi para os amigos da Quinta da Marinha.
Dava festas - bazares de caridades de louça da loja dos 300 e tijelinhas de arroz doce e pau de canela para os pobres, e bacanais de esplendor, regados a Moet&Chandon, pau de cabinda, caviar e coca para os ricos.
Como qualquer baronesa que se preze, andava sempre com uma permanente impecável, armadilhada a Laca Fiero que lhe conferia a proeminência de uma girafa com juba - Tal a consistência, o brilho, o glamour da aristocracia.
Todos os dias de manhã ia ao ginásio, tratar das pernas, e do que repousava entre elas com o seu massagista particular. Mais tarde era a vez do coiffeur, Jean-Dominique, um paneleirote afrancesado da Amadora, metido a artista de bóina basca do Quartier Latin.
Sentava-se religiosamente na mesma cadeira aveludada, sob o capacete secador que lhe soprava ar quentinho para os meticulosos rolos, a infestarem-lhe a carapaça loira como se fossem lêndeas platinadas no solário.
Ali ficava, a baronesa, fiambrando a "IOHLA" espanhola, comentando com risadinhas "histróinicas" os mexericos da moda.
Um dia, deu-se uma revolução anarco-operária, e levaram a pobre da baronesa para um cabeleireiro sombrio.
Sentaram-na numa cadeira metálica, colocaram-na sob um capacete secador, vendaram-lhe os olhos e ligaram a cadeira eléctrica, esturricando a baronesa, que nem chegou a perceber o que lhe acontecera, tão entretida estava com o artigo sobre a decapitação de Tadinha da Silva, publicado no panfleto anarco- bombista - "Penteado à Baioneta".
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Rui Pelejão
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19:54
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A Noite do Iguana
Ava era franzina e esquálida - mas fazia amor como ninguém! cogitava Richard, lendo o bilhete de despedida que lhe deixara a fêmea, com quem partilhara os lençóis de flanela coçada durante dois anos.
Ava fora viver com um jovem pinguim de gel e fraque, enconado e cortês como se fora um maitre de restaurante finesse, aspirante a estrelar no Guia Michelin.
Afadigara-se das bebedeiras e do mau génio irado de Richard, da sua preguiça, do humor ácido, das iscas enzeitadas em puré de batata, dos impropérios no trânsito, do Opel Corsa a cair de podre, das férias na Estufa Fria, das traições em punhalada culpada, da eterna solidão e frustração vingativa de Richard.
Fartara-se de viver num reptilário, do lado errado da jaula.
Richard leu o bilhete de Ava e engolio-o quando leu a palavra amor, já que - como se sabe -, amor é uma palavra indigesta.
Preparou um balde de gelo onde despejou uma garrafa de whisky de má qualidade. Para ajudar à digestão do bilhete escrito em papel perfumado, tomou um Alka-Seltzer.
Pensativo, ruminou um cigarro entre as mandíbulas.
Caiu a noite estrelada, com ovo a cavalo. Na rua uivavam cães famélicos.
Richard dormitava a bebedeira, sonhando com os maravilhosos fellatios que Ava lhe proporcionara, quando despertou acabrunhado com o som de passos vigorosos e ofegantes.
Correu imediatamente para a despensa, tirando da prateleira de cima o velho aspirador Ariston, fechou-se na jaula em movimentos trôpegos de whisky.
Deitou-se nos lençóis de flanela coçada, abraçando o aspirador com as suas esponjosas membranas, acariciou-o, ligou-o e colocou a tromba de sucção junto à virilha.
Soltou um gemido de prazer e caiu num sono electrocutado, ainda antes do tratador dos répteis desligar o gerador eléctrico que iluminava a jaula dos iguanas.
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Rui Pelejão
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19:50
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Soprava um ar frio nas pernas da estagiária
O ar-condicionado estava de novo avariado, soprando uma nortada fria, capaz de rachar a pinha a um urso polar.
Tomé, respingava do nariz aduncado, pingas cataráticas, enquanto berrava:
- Foda- se, alguém desligue o cabrão do ar- condicionado, que não tarda nada tenho o mangalho feito em estalactite.
Ninguém respondeu ao seu tremelicante, pré-hipotérmico e desesperadamente andropáusico apelo, lancinado em bemol de Sinatra dos fiordes .
Era Agosto quente, daqueles de colar a camisa de linho manhoso aos pelos untuosos do peito, e derreter a modorra dos dias na espuma amarelácea das imperiais de esquina.
Tomé estava praticamente sozinho na redacção do "Crime&Castigo", um semanário especializado em assuntos policiais, criminais e paranormais, de inspiração dostoievskiana com tiragem limitada e mentiragem ilimitada.
Todos os outros redactores estavam de férias, ou tinham inventado um dentista na Costa da Caparica, com as brocas empastadas em flúor a serem bondosamente substituídas por caracóis babosos, traçadinhos de cerveja e 7-Up, e soslaios gulosos aos biquinis das pin-up , que deslizavam em piruetas de patinagem onanistica sob as suas "Barbas", como se fossem aspirantes a play-mates do ano em passereles platinadas na baía de Miami.
No terceiro andar de um prédio da Duque de Saldanha, decrépito como as velhas falidas e infalivelmente brasonadas que, grisalhas, grasnavam permanentes nos cabeleireiros das avenidas novas e se engolfavam à hora de maior calor entre os chás da Av. de Roma e as farmácias ascéticas da Av. da Igreja.
Nesse terceiro andar andrajoso estava instalada a redacção do "Crime&Castigo", onde, nas secretárias mancas pelo mastigar carunchoso da traça mangas-de-alpaca, se espalhavam pilhas de jornais e papeladas inúteis, sob a qual assomavam anacrónicos computadores McIntosh, contemporâneos da dentição de leite de Bill Gates.
Nave central da fábrica onde os operários têxteis (vulgo jornalistas), costumavam dedilhar com mecânica de costureira de província, as jocosas e improvisadas notícias, que roçavam normalmente entre a desbragada mentira e a invenção delirante,
- Estamos cá é para vender papel. Tratem de lhes arrimar com esperma e sangue!", ululava em bicos de pés o director daquele pasquim - o velho, sabicho e seboso, Dr. Neves, que Tomé baptizara em sussurro oculto pelo relinchar da máquina de café - o Abdominável Homem das Neves, por causa das camadas de gordura sacarosa que lhe ornamentavam o abdómen, que lhe davam a proeminência de um paquiderme engarrafado numa calças de pregas, que mais pareciam um barril de tinto, daqueles que servem com brio nas paredes das tascas de serradura no chão e papagaio especialista em caralhadas e insultos, debitadas no pêndulo marialva, colocado sobre a prateleira das garrafas de ginja e das bolachas Maria (ufa!!! que frase interminável).
As "Tílias e as Tetas", já na sua sétima edição, assim se chamava o título do romance picaresco e pornostálgico do Dr. Neves, assinado sob o pseudónimo de Doc Snow, e cujo sucesso editorial nas bancas de lucro pornógrafo e no circuito hard- core nacional, lhe tinham valido umas massas, suficientes para abrir aquele pasquim que sobrevivia há já cinco anos, e para preservar a cota no cinema Animatógrafo, cuja gerência partilhava com o seu sócio Aparício, um ex-proxeneta do Bairro Alto, convertido em empresário da noite, capataz de boites, casas de putas e strip-clubs, que ele inundava com "material de fabrico russo, brasileiro, vietnamita e ucraniano, tudo conas da melhor qualidade, com o selo de garantia passado pelo bacamarte do Aparício para aprovação sanitária. Comigo não há cá tretas, só tetas !" costumava bradar para o seu amigo Neves em gargalhadas espaventosas, que faziam tilintar de terror as pedras de gelo das "jardas" de uísque, que os dois amigalhaços costumavam abater como moscas num curral de porcos.
Neves ripostava ufanamente "nada como uma cona mansa para agitar a pança", ao que os dois se escangalhavam em risota de fanfarrões imberbes, como quando ensaiavam escapadelas de 50 paus na algibeira à Brocheway Street, expressão com que piamente baptizaram a Defensora de Chaves.
As únicas coisas novas naquela redacção podre, eram o ar condicionado de fabrico coreano, oferta do Aparício, que normalmente fornecia putas a empresários asiáticos de visita a Lisboa e que recebera aquela geringoça friorenta de um tal Mr. Yó-Yó - e as pernas da Marília, a estagiária com muito futuro no manejo da Rank Xerox e no traquejo dos cafézinhos e bombokas para o chefe.
Tudo o resto era uma escabrosa loja de velharias andrajosas. Barrigudos sisudos a suar em cataratas de testosterona que lhes provocavam as dactilógrafas besuntadas a baton rouge.
Naquele dia, Tomé asfixiava com o frio que soprava do ar-condicionado, visivelmente desadaptado ao clima Mediterrânico. Na sala do director, Dr. Neves e Aparício ressonavam ferozmente sobre os restos mortais de uma dúzia de garrafas de whisky subtraídas ao MiniBar do Motel requinte enquanto na sala da redacção Tomé dava ao dedo, e Marília mascava pastilha elástica, polia as unhas e espreitava uma revista de mexericos.
Tomé acabava uma notícia sobre um talhante que fora encontrado morto numa pastelaria, envolto em pastéis de nata cremosos como mortalhas, quando ouviu uns passinhos asiáticos como os que soam nos filmes do Bruce Lee.
Olhou para trás e viu o ar-condicionado com um subserviente sorriso amarelo, dedicando-lhe uma extensa vénia - «Disculpi Sinhol, pol acaso não tem uma pastilha doutor Bayard, pol causa da tosse, é que apanhei uma constiplação daquelas». Tomé julgou que estava a alucinar, correu para a secretária de Marília beijou-a sofregamente nas pernas, indiferente aos seus gritinhos divertidos e lascivos, e de uma golada bebeu o conteúdo do frasco de verniz Avon, caíndo redondo escarlate no chão.
A história da sua morte fez o «Crime&Castigo» alcançar a sua maior tiragem de sempre, com vendas extraordinárias que permitiram ao Sr. Neves e a Aparício internacionalizar os seus negócios de postíbulo, com ramificações no Cajaquistão,Gronelândia e Mongólia Exterior.
Marília e o ar condicionado Samsung, apaixonaram-se perdidamente e vivem em concubinato numa ilha tropical - ela faz-lhe chás de hortelã quando ele se constipa, e ele faz-lhe cócegas nas pernas e nos dedinhos dos pés, quando sopra devagarinho o seu friozinho maroto.
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Rui Pelejão
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Assassino NATO
Café com NATO, solicitou o General.
O ordenança, solícito, inquiriu:
- Como deseja; empobrecido, ou forte ?
O General reflectiu por breves momentos, galando os seus galões de máquina militar, onde pontificavam três estrelas com ovo cavalo, ou no caso latente - a cavalgadura.
Abriu a gaveta, afastou a fotografia amarelecida do Colégio Militar, tirou uma Mauser de repetição do coldre, e disparou três balas.
Uma que atingiu em cheio a máquina de café, que girou sobre os calcanhares antes de esvair num charco pastoso de borras de lotes seleccionados,
outra que desenhou um orifício na testa
saliente do ordenança como se de um “piercing” sem fundo se tratasse,
e um terceiro balázio que com um estampido seco lhe abriu um céu maior na boca mandona.
O adoçante, esse, foi poupado à carnificina generalizada.
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Rui Pelejão
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Para o Diabo com o atendedor de chamadas ou o requiem de um poeta suicida.
Biiippp. tem duas mensagens novas
- Geraldes chegou a casa bêbado que nem um cacho de uvas, casta bastardo espanhol.
Era um poeta, daqueles bons e tesudos, impublicável como convém a qualquer poeta maldito que se preze - um refinado bastardo dos cardeais do bom gosto literário que se enjorcava diária e copiosamente com vinho de pacote e bagaço TNT rasca.
Para ganhar uns trocos para os copos, recitava poesia em bares de intelectuais, insultava-os, prometia enfiar-lhes cubos de gelo pelo cú adentro, que os varria do mundo à paulada, e espumava-lhes nas fronhas meditabundas que eram uma escumalha merdosa de sevandijas cujo única utilidade social era o esgalhar burocrático de sarapitolas a grilos.
Os intelectuais de melena comprida, cigarrinho de enrolar a saltitar nas beiçolas e olheiras cavernosas, adoravam, batiam palmas extasiados pela raça e ódio destilado no estribilho do poeta Geraldes.
Elas, ficavam com a cona aos saltos, efeito poético provocado pela decadência de estilo, estilo Bukowski, louco e vagabundo, sempre pronto para uma boa foda num vão de escadas, a cheirar a mijo de rato e a velhos.
Geraldes gostava de aviar aquelas gajas que pareciam cadelas com cio, mas naquela noite bebera demais para foder, por isso, foi sózinho para casa.
Despiu-se, agarrou-se a uma cerveja preta, e estendeu-se no sofá a olhar para os dois peixinhos vermelhos, tingidos de luto, que se devoravam mutuamente ao som de Frank Zappa.
Acendeu um charro de erva, aspirando largas baforadas à laia de remédio para as insónias e num gesto vago e vagaroso ligou o atendedor de chamadas.
Bipp - tem uma mensagem. Ouviu-se em seguida uma voz cavernosa e colocada, a lembrar o António Sérgio do Som da Frente, que dizia.
- Está na hora de mostrares a esses cabrões todos o que vales. Mostra-lhe que tens uns tomates de rinoceronte com tusa.
Escreve um poema, bebe uma garrafa de vodka, engole os peixes de merda e atira-te da janela- Ditava a feérica voz.
Geraldes cumpriu à risca as instruções... afinal não convém contrariar o Diabo.
Passado um mês, uma editora especializada em livros de receitas do Mestre Silva publicava postumamente as obras completas de Geraldes, e o seu poema de extrema unção com relativo sucesso.
O poema chamava-se - Para o Diabo com o atendedor de chamadas, o requiem de um poeta suicida !
Biiiiipppp, após o sinal, deixe mensagem.... ou então vá para o Diabo.
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Rui Pelejão
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Corpo frio em câmara ardente
Passava os fins-de-semana na loja de electrodomésticos do Colombo a galar os imponentes e impenetráveis frigoríficos.
Admirava-os naquela sua altivez marmórea.
Sentava-se numa cadeira de baloiço insuflável que comprara na Nauticampo para as férias em Albufeira, e ali se abandonava longas tardes, a olhá-los, numa devoção cega e reverente, com o catálogo da Ariston deposto nas mãos, como se a partitura de hossanas nas mãos de uma velha beata em desafinanço de Te Deum se tratasse.
Silenciosos, esfinges erectas em rígida coluna militar, os frigoríficos pareciam
solenizar-se hirtamente com a atenção que lhes era dedicada. O homem anónimo - como todos os homens o são para os outros - observava-lhes as formas, o design , a estrutura das pegas, a combinação de cromados e dos painéis de alvura cintilante.
Conhecia-os detalhadamente - as suas diferenças indiferentes, os seus caprichos frívolos, os trejeitos de fabrico...
Depois, se ninguém estivesse a ver, gostava de lhes passar a mão pela frigidez albina, e explorar as inúmeras gavetinhas, cubículos, sacros orifícios, como quem vagueia no serpentear lento de dedos cupidescos sobre o corpo de uma mulher nova, de pele aveludada, púbis sedoso e mamilos dardejantes ao céu da boca do desejo.
Perto deles, respirava a solidão e a tranquilidade imensa dos fiordes.
Perto deles, o tempo não era mais do que um momento congelado, estático.
Sentia-se próximo dos frigoríficos, na exacta medida em que se afastava com repulsa dos outros homens.
Tanto tempo passava junto deles que foi despedido por um patrão de sorriso gelado, abandonado por uma mulher de amor frígido. Deixou as amizades congeladas numa covette, até que, um dia se escondeu num recanto da loja de electrodomésticos, camuflado entre os micro-ondas de última geração e a prateleira das varinhas mágicas Moulinex.
Esperou que o segurança da Agência Pinkerton de bigode aos tropeções
adormecesse numa sesta vigilante, ligou a ficha de electricidade de um gigantesco Siemens com quase dois metros de altura, que cerimoniosamente lhe escancarou a porta. Despiu-se, retirou a gaveta dos vegetais e entrou.
Uma luz sumiça e hesitante desvaneceu-se na sombra que a porta do frigorifico, com a prateleira de ovos à proa, lhe projectava nas covas felpudas da omoplata.
Passadas algumas semanas, um jovem casal que procurava um frigorífico maiúsculo para guardar os iogurtes magros dela, as cervejas dele, abriu a porta do Siemens, encontrando o homem nu esculpido em bloco de gelo, com um sorriso fresco e jovial estampado nos lábios roxos.
Olá, olá, e a morte sorri.
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Rui Pelejão
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Swimming into the moon
A água quente envolvia o meu corpo com carícias.
Mergulhei lentamente até aos ombros, calcando o corpo na areia movediça.
A lua assistia curiosa ao mergulho nocturno.
Um corpo esquálido e de uma impressionante tez pálida furtava-se da opressão pesada da atmosfera terreste.
Do bafo quente que os monstros da terra exalam, e que se estendem como presas pegajosas nos nossos ombros, que nos agrilhoam os membros a uma pestilência de vaguear mortolências pela crosta terreste.
À hora que os monstros terrestes dormem, ressonando hálitos amargos de putrefacção regeneradora, o meu corpo entregava-se de mansinho à soberania da água.
Um transfuga lento. Desfazendo-se da argila, do pó, do sulco de musgo que pesava como um fardo crucifixo nas costas.
Como uma marca de eterna e atroz escravidão do natureza.
A cabeça rugosa, mantinha-se erecta à tona de água, num terror petrificado, escutando qualquer movimento.
Subitamente, o meu corpo bóiava.
Ganhava uma energia invulgar.
Os meus membros impulsionavam-me com uma facilidade que nunca experimentara em terra firme.
Era uma sensação sublime; de poder e libertação que me crivava os olhos de lágrimas salgadas.
Num gesto abrupto de repulsa e chamamento, o mar devolvia-me a terra.
Empurrava-me de novo para as areias movediças.
Escapava-se de novo, lançando-me um esgar de troça perante a minha impotência.
Movido por uma tenaz vontade sobrenatural, continuava a rastejar, como o havia feito toda a vida.
Rastejava instintivamente em frente.
Buscava a mansidão da luz que estendia o seu tapete luminoso e fluorescente sobre a água.
Um cone de luz interminável que se extinguia no sorriso maternal da Lua.
Era ali certamente, no sorriso da Lua que conheceria as doçuras da maternidade, que desconhecia, porque sempre havia rastejado só no mundo.
Era o único ser rastejante vivo do mundo.
O resto eram os monstros terrestes.
Sabia que se rastejasse o suficiente, descobriria a origem do som que soprava em rajadas, ora zangadas, ora em brisas ternas e melodiosas de voz trémula de carícias.
Sabia que o som do vento, era a voz da Lua, a voz da minha mãe.
O rumorejar do mar no seu vai-vém altivo e inefável era o chamamento.
Era o movimento perpétuo que obrigava a rastejar continuamente.
O meu ventre magoado deixava atrás de si um interminável rasto.
Um caudal de esperança que marcava o destino do meu trilho.
Nunca olhar para trás.
Nem sequer sabia o que ficava para trás.
Apenas um rasto fino, imperceptível e efémero, que traçava o sentido da minha existência.
E que o vento e o mar, cúmplices, se encarregavam de apagar, ocultando os vestígios da minha passagem.
Enterrando fundo no anonimato da areia regular o meu passado sem história.
Uma linha recta para rastejar até à lua.
Era só isso que sabia.
Era só isso que precisava de saber.
Mais nada importava.
O mar regressava, numa onda dócil que me estendeu a mão enternecida e me puxou com uma candura que eu nunca havia experimentado na inerte matéria terreste.
Puxou o meu corpo devagarinho, como que extraindo um novo ente da bolsa da sua maternidade.
O vento, normalmente distante, cavernoso e impávido, baixou as suas colossais beiças, e soprou com firmeza paternal, nas minhas costas, empurrando-me para o mar.
O meu ventre sentia de novo as carícias do mar.
Massajando-me com uma hospitalidade tranquilizadora.
Já não rastejava.
Deixara de rastejar.
Agora nadava.
Nadava furiosamente, com agilidade, subtileza e uma alucinante velocidade.
Nadava em direcção ao cone de lua.
Com cabriolices de menino, nadava como se a água fora sempre o meu elemento natural.
O mar marejava alto e em bom som, parecendo aplaudir.
Nos céu, as estrelas faziam-me adeus com sorrisos cintilantes.
A lua, comovida ... embevecida ... soltava uma lágrima luminosa, que caía lá bem ao fundo no mar.
Era para lá que eu ia.
Para colher a lágrima da minha mãe.
Eu que era filho do Vento e da Lua, e protegido do mar e das estrelas.
Eu que finalmente me libertara da escravidão da terra, do musgo, da areia e do terror dos monstros terrestes.
Nadava, nadava sempre em frente.
Submergi a cabeça.
Mergulhei fundo no mar e escutei o silêncio magnífico que só se escuta nas conchas e no coração do oceano.
Continuei a ver o caminho de luz que se desenhava e por ele nadei para sempre.
Para longe de terra, cada vez mais longe.
Até ao dia em que a ela voltasse para nidificar ou morrer.
Para prolongar o terrível ciclo de vida das tartarugas.
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Primeiro de tudo o mocho. É essencial uma madeira barata, pinho lamelado talvez. Depois, percorrer aleatoriamente as páginas amarelas, até encontrar uma página em branco. Escrever uma morada incerta, e acertar contas com um carpinteiro. Contratado o escropo e a polaina, visitar um bar de marinheiros velhos.
Beber aguardente, praguejar e apalavrar dois metros de corda grossa de alto mar, com manchas de humidade provocada pela desinteria das gaivotas, ou incontinências de marujos em “delirus tremens”.
Consultar a Internet e não aceitar os seus conselhos. Amantizarmo-nos com uma revendedora Avon, que faz uma perninha no porta-a-porta do Círculo de Leitores. Adquirir a enciclopédia britânica, saltar a entrada de Átila, o flagelo de Deus, directamente para nó godo.
No quintal de um vizinho ausente em férias na Quarteira aproveitar a sombra da tangerineira chocha, para instalar o mocho. Posto o mocho à sombra, enlaçar a corda maruja com o nó godo no tronco apodrecido.
Colocar um disco de uma banda de casórios macedónios na instalação insonora do condómino.
Vestir o traje de lantejoulas, aprumar o penacho do chapéu bicudo. Respirar devagar, pela última vez.
Gritar em tom de desafio – Eh Touro lindo!
E morrer suspenso numa tangerineira seca. Enfrentar a morte pelos cornos, com um nó godo na garganta.
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Digestivo. On the rocks, prefiro black label.
Digiro com vagar as palavras, num silêncio ruminante. Obrigo as pedras de gelo a um tilintar suave e melodioso. Uma loura cruza as pernas no soslaio do meu olhar baço. Aspiro duas baforadas num cigarro. Lentas e estilizadas, num gesto decalcado do Humphrey Bogart. Sinto o volumoso e frio cano de revólver na nuca. Olho de soslaio para a loura, e de frente para o whisky. Bebo devagar um último trago.
Escuto um estampido seco. Nos olhos aterrorizados do barman vejo espelhado o meu rosto com um largo oríficio na fronte.
A morte é sempre indigesta independentemente do rótulo.
Para a próxima, peço um red label, sempre sai mais barato.
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O palácio estava assombrado de silêncio, desde que o rei decretara as enxaquecas da rainha uma calamidade nacional.
Os insuportáveis tocadores de harpa e os bardos palacianos foram enviados para as cruzadas, os bobos da corte ordenados monges calados, e todo o tipo de sons melodiosos banidos daquele reino.
Até os rouxinóis foram impedidos de chilrear a edital de besta e fisga certeira. Reinava pois um silêncio sepulcral no reino e em especial no Palácio. Mas, nem por isso, as enxaquecas da rainha mostravam sinais de melhoras, para desespero do rei que se via obrigado a buscar conforto no regaço das cortesãs. Um dia, um bufarinheiro de terras longínquas estacou com a sua carroça, montra de parafernálias que fariam inveja à mais recheada boutique do diabo.
Entre elas um transístor vindo da América, que um pajem da rainha, adquiriu com o seu mísero soldo.
Às escondidas do rei, o pajem e a rainha iniciaram então as mais desenfreadas orgias nos aposentos da rainha, devidamente isolados do som, já que enquanto o pajem e a rainha se entregavam com ardor à melhor terapia anti-enxaquecas que a Medicina Divina já inventou, o transístor emanava o som ambiente na FM Rock, com guitarradas dos Rolling Stones a embalarem os múltiplos orgasmos da Rainha – I can get no satisfaction.
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Normalmente dormia um sono vigilante, ronronado pequenos suspiros que se expiravam entre as grades, com um hálito quente, que acariciava os rostos com uma máscara de temor. Um dia, abriu a boca com um rugido de espreguiça e dilacerou uma mosca que esvoaçava por perto. Arrotou com cerimónia e voltou a adormecer, ronronando com um hálito a mosca a expirar entre os dentes. Um turista japonês que por ali passava fixou o momento para a posteridade com a sua Nikon automática e chamou à foto “O tigre adormecido”. O papa-formigas indignado com a falta de atenção mediática, em gesto de protesto fez greve de fome, o que como se deve calcular teve reflexos óbvios na densidade populacional do formigueiro central e provocou graves desiquilibrios ecológicos.
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Vai à badamerda !
- Vai tu – respondeu o eco.
E assim terminou qualquer hipótese de diálogo entre a sombra, que despeitada virou as costas ao eco.
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O anão mais alto do mundo media precisamente 181 centímentros de altura. No país dos anões era considerado uma aberração freak. No PAÍS DOS GIGANTES um minorca insignificante. (os gigantes só usam maiúsculas, ao contrário dos anões que só usam minúsculas)
Aberração por aberração, o anão mais alto do mundo optou, e bem, pela dupla nacionalidade, que lhe permitia actuar em freak shows dos dois lados da fronteira.
No PAÍS DOS GIGANTES o espectáculo era promovido como O GIGANTE MAIS PEQUENO DO MUNDO, no país dos anões os cartazes de feira resplandesciam com as letras micróscopicas do anão mais alto do mundo.
Foi assim que o anão-gigante fez fortuna e emigrou para um país sem escala métrica, graus centígrados ou escala de Richter.
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A moção foi maioritariamente chumbada, e saíu irritadissima pela porta fora. O veto não conseguiu evitar um sorrisinho malicioso e abafado. Os deputados continuaram então a jogar ao galo, ou a limarem as unhas dos pés das cadeiras, a fazer horas até que acabasse mais uma sessão parlamentar.
O País, esse, continuava de baixa, com uma aguda crise intestina.
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Rui Pelejão
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Num gesto de revolta doméstica revolvi a gaveta e finalmente encontrei o revólver. Disparei ao acaso e acertei repetidamente num espelho e no armário. O cadáver que ali vivia há anos, soltou um queixume irado
– Meus pobres ossos, já um esqueleto não pode viver em paz no armário!
A partir daquele dia, passei a arrumar os pijamas na gaveta junto às peúgas perfumadas e ao revólver inquieto.
Comprei uma cana de pesca e passei as tardes de Domingo a pescar peças de roupa interior do estendal da vizinha de baixo, que depois arrumava religiosamente na gaveta de baixo, junto ao terço e à bíblia que recebera de herança da minha avó Piedade.
Do esqueleto nunca mais escutei lamúrias. Vivíamos numa cordata paz doméstica e conjugal. Ele no armário, eu na terceira gaveta, submergido pela lingerie dominatrix da vizinha e do abençoado crucifixo da família.
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